0
A anca e o que a corrida pode revelar sobre ela

foto696

Ao efetuar um estudo biomecânico de um atleta que pratique corrida, há uma quantidade infinita de movimentos que se podem estudar. O movimento que produz a anca ou a articulação coxo-femoral – que une o osso ilíaco à extremidade superior do fémur – é um deles.

A porção óssea superior do fémur tem uma forma arredondada que, idealmente, deve ser perfeitamente curva (cabeça femoral) e que encaixa numa cavidade do osso ilíaco (cavidade acetabular) também arredondada, mas côncava. Ou seja, complementam-se. Esta cavidade é revestida por cartilagem, que assegura o movimento de encaixe com o menor atrito possível. Andar, correr, saltar, dançar ou estar parado são atividades em que esta articulação tem que funcionar em perfeita harmonia, para que não se produzam alterações passíveis de se repercutir em todo o organismo. Daí tratar-se de uma articulação de grande importância na prática desportiva: uma alteração nas peças deste “puzzle” pode produzir sérias complicações.

Já Marino Ortolani, pediatra italiano do princípio do século XX, questionou-se perante tantos casos de jovens que lhe apareciam a coxear de uma só perna, sem razão. Não haveria forma de detetar esta doença antes que fosse demasiado tarde  e houvesse sequelas definitivas? Desta reflexão surgiu o nome do exame físico atualmente efetuado aos bebés – “manobra de Ortolani-Barlow”.

Vamos fazer um teste

Coloque-se em frente a um espelho, sem roupa, e verifique se os seus ombros estão à mesma altura. As grelhas costais estão simétricas? A saliência óssea da sua anca está à mesma altura de um lado e do outro? Existe inclinação? Os pés apoiam-se de igual modo? Provavelmente, a resposta será sim, porque todos temos compensações e alterações posturais, mesmo sem ter consciência delas.

O conflito da articulação coxo femoral ocorre por várias razões, sendo que o conflito femoro-acetabular é o que tem maior incidência. Os desportistas com atividade física intensa exercitam a anca de modo mais vigoroso, logo, os sintomas dolorosos podem ocorrem mais cedo. Muitas vezes, as dores originadas são difusas ou irradiadas para algum dos membros inferiores, ou até mesmo para a coluna vertebral.

Mas, para lá do desporto, há outros fatores de risco a considerar, como traumatismos, uso de corticosteróides ou cirurgias prévias. É importante reter que o exercício não é a causa do conflito femoro-acetabular, mas pode evidenciá-lo mais rápido. Outros fatores são o excesso de peso, lesões prévias nos membros inferiores, o género ou a modalidade física que se desempenha. A corrida produz mais impacto do que a natação, por exemplo.

A maior parte das pessoas que nos chegam à consulta são jovens e adultos com vida bastante ativa, com dor na zona inguinal, face externa da anca, joelhos e membro inferior, acompanhada do coxear. Estas múltiplas manifestações dificultam o diagnóstico, tais como alterações ao nível da coluna vertebral ou sacro-íliaca, sinovite da anca, necrose avascular da cabeça femoral, displasia da anca ou fragilidades da parede abdominal, com hérnias ou não.  Nas mulheres, com ancas mais largas e profundas, pode ocorrer dor inguinal até durante a atividade sexual.

Na prática desportiva em que ocorre uma flexão máxima da anca, a doença, até então desconhecida, começa a manifestar-se até se tornar evidente e muitas vezes invalidante. Caso apareça, procure saber mais sobre essa dor localizada, sobre a sua forma de correr ou caminhar e sobre o que fazer para o tratamento ser eficiente.

Artigo ROPE /Clínicas Nuno mendes, em colaboração com o JN Running
Foto Leonel de Castro / Global Imagens

0 comentários

Leave a Reply

Faça login para comentar