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Sobre como limpar a imagem de uma prova que correu mal

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A resposta à pergunta enunciada no título deste artigo é chocante de simples: “Nada pode falhar”. Ora bem, falamos, para quem se lembre, do Ultra Trail do Marão. Nasceu em 2014 com tudo para correr bem e o desejo de ser “extreme”, nome dado por esse mundo fora às provas de corrida de montanha com aquele grauzinho de dificuldade que faz delas aventuras para loucos. Tinha o Marão e o Alvão e a Aboboreira e essas serranias que enchem contos infantis. E tinha o sonho do mentor da ideia, Bruno Silva, “Savage Angel” para os amigos, homem de pódios nos Pirenéus.

Pois correu tudo mal e caiu o carmo e a trindade. No fim de contas, a prova teve algumas dezenas de quilómetros a mais, faltaram abastecimentos atempados e apoio nos trilhos, perdeu-se gente, a maioria desistiu, felizmente ninguém se magoou.
Não. Bruno não desistiu do sonho e vai voltar a tentar, a 24, 25 e 26 de Março de 2017. Entregou a pasta da organização a Pedro Moreira, amigo, corredor amador e comercial profissional que promete que “nada pode falhar”. “Queremos desmistificar o passado”, diz-nos Pedro, que enumera a série de condições obrigatórias que impôs a Savage.

A começar pela distância: “1 km é 1 km. 20 km de diferença não são admissíveis” (diga-se de passagem que Pedro fez a prova de 2014, ou parte dela, pelo menos. “Andámos a bater às portas das aldeias a pedir água às pessoas…”). Depois os abastecimentos: “Se estão projetados para este ou aquele quilómetro, é para que os corredores saibam onde estão e possam gerir a alimentação que levam consigo e, essencialmente, a água. Quando se descobre que o abastecimento é 5 km mais longe, no meio do monte, onde não há cafés, é muito grave, porque já se bebeu a água toda”. Última exigência: as marcações. “Fundamentais”.

“A prova é feita para o pelotão, não para a elite. Pode ser dura, mas tem que ser justa”, diz Pedro. “Não é para ir lá falecer. Disse ao Bruno, vai lá e tira todas as zonas onde há perigo de falecer, as grandes descidas a pique ou as escaladas. O que define um atleta é a forma física”, não é sobreviver à morte provável, explica. Desta vez, a segurança do evento foi entregue ao GOBS (Grupo Operacional de Busca e Salvamento).

A solução

A melhor forma de conseguir é olhando a prova como um negócio, de forma racional, com um plano elaborado, e não como a prova que o organizador, um “supermega”, gostaria de correr. Por isso será dado tempo suficiente para todos terminarem (30 horas para 104 km com 6000 metros de desnível positivo, sem limite para os 49 km e para os 23 km).
Ainda a pensar no negócio, a organização foi bater à porta de patrocinadores e convenceu a marca de equipamento Compressport. O Compressport UTM será a primeira prova oficial da marca, mas sem abébias. O contrato passa por oferecer aos atletas um kit com equipamento a preço de saldo, mais nada.

“Não há dinheiro para t-shirt de prova, sequer, pelo que nem o staff as terá. Os abastecimentos foram entregues a equipas de corrida”, que juntam o gosto pelo desporto e a sabedoria porquanto já estiveram do lado de lá e são os mais acertados para “motivar”, garante a organização.

O resto do evento compõe-se de uma caminhada cultural por Amarante, base do UTM, uma arena com lugares gratuitos onde os expositores poderão promover palestras e atividades, um treino com atletas Compressport de topo mundial, etc. A prazo, Pedro e Bruno querem dar vida ao sonho de um “campo de treino no Marão com base em Mafómedes, para manter os trilhos abertos graças à circulação de corredores”. A ver vamos.

Ivete Carneiro

2 comentários

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  • Marinho Sandra

    20.11.2016

    Fui voluntária desse evento Ultra Trail do Marão, convidada por uma amiga, que trabalhou nesse projeto 24h por dia, e só me apetece dizer isto: o ultra trail do marão, só teve um culpado, naquilo que efetivamente correu mal, que se chama “bruno silva”

  • Paulo Martins

    19.11.2016

    Força e coragem….