“Se tivesse dois braços se calhar não corria”

Aos nove anos, Manuel Mendes perdeu o braço esquerdo num acidente com uma máquina agrícola. Aos 45 trouxe para a cidade de Guimarães uma medalha de bronze ganha nos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro. Entre uma data e outra, há uma história de vida que se resume à busca da felicidade.

O vimaranense não tem rodeios, brinca com a deficiência, sorri ao colocar a medalha ao pescoço. “A minha história não é só contos de fadas. Hoje costumo dizer a brincar que acordei a chorar porque sonhei que tinha os dois braços e não queria”. Uma postura diferente da que tinha quando era criança: “Se agora convivo bem com isto, ali no período dos 14-20 anos tinha dois problemas: este que não era realmente um problema e os complexos”. Manuel equipava-se só depois de todos os outros rapazes estarem no pavilhão da escola e esperava que todos fossem embora do balneário para tomar banho. A medalha de bronze que nos mostra quando o encontramos na pista de atletismo da Cidade Desportiva de Guimarães está carregada dessas histórias de humanidade e de superação.

Se o braço lhe faz falta? Não sabe. Há especialistas que dizem que afeta a sincronização dos movimentos. “Eu nunca saberei se seria melhor ou pior atleta se tivesse os dois braços. Se calhar nem corria.”

Manuel Mendes começou a treinar para os paralímpicos antes de saber se viajava até ao Brasil. “Eu queria muito ir. Depois saiu a convocatória e eu fiquei feliz da vida”, relembra. Partiu de Guimarães no dia 1 de setembro e aponta o facto de ter chegado cedo à competição como um fator que o ajudou na luta pelo pódio. Conseguiu adaptar-se ao calor e à humidade da cidade, que no início achava serem um obstáculo.

O atleta português, que só corria provas regionais até ir aos mundiais de 2014 e 2015 (onde acabou oitavo e quarto), encarou os Jogos Paralímpicos como uma oportunidade única de se superar. “Agora as coisas são mais sérias. Treino todos os dias, faço treinos bidiários. Costumo dizer que é sacrifício para o meu patrão, que às vezes me deixa sair mais cedo, e para a minha esposa e a minha filha. Para mim não é sacrifício nenhum. Estou a fazer o que gosto, correr”. Porque na corrida sente paz e tranquilidade.

Manuel corre há 20 anos. No dia 18 de setembro, voou para o terceiro lugar da maratona, numa prova que lhe pareceu “um milagre”. “Depois de passar, aos 36 km, para o terceiro lugar, fiquei com a sensação de que só se alguma coisa muito grave me acontecesse é que não ia conseguir trazer esta medalha”.

Os últimos metros da maratona

No dia anterior à prova, Manuel falou com o treinador, Ricardo Ribas, que estava em Portugal e à distância lhe deu algumas indicações. “Ele disse-me, ‘Tu tens que fazer a tua prova. Se os outros forem lá para se matarem, tu não vais atrás deles!’ Por isso fui controlando. Olhava assim um bocado de canto e via que o meu adversário não reagia. Eu estava a ganhar-lhe cada vez mais distância”.

Conseguiu manter-se em terceiro lugar até ao fim e cortou a meta com o tempo de 2:49.57. “ É uma sensação incrível. Nos últimos 2 km eu já ia a pensar ‘Isto não me está a acontecer. Eu vou levar uma medalha para Guimarães’… parecia um milagre”.

Subiu ao pódio, do outro lado do Oceano. “Esta medalha é a minha segunda menina. Tenho a minha filha que é o mais incrível que existe na minha vida e esta é a minha segunda menina”.

Quanto a planos futuros, diz só que continua a treinar com a mesma dedicação.

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“Ele merece!”

Ricardo Ribas é o homem que treina Manuel Mendes. Também ele um maratonista, esteve cerca de três semanas antes no Rio de Janeiro, a competir nos Jogos Olímpicos. Acabou a maratona em sofrimento e regressou a Portugal com a esperança de ver o amigo vencer nos Paralímpicos. “Foi o dia perfeito”, resume. “Não é só o Manuel. Ele simboliza o que muitas pessoas que tiveram uma história de vida parecida merecem”.

Com 35 internacionalizações, Ricardo Ribas enaltece o esforço do maratonista que esteve 22 dias no Brasil, sem família e sem treinador: “Para nós que temos dois braços, vemos no dia-a-dia problemas em tudo. Eu acompanho o Manuel há dois anos e meio e nunca vi qualquer obstáculo. Estas pessoas ultrapassam tudo melhor do que nós. O nosso grupo de treino tem 12 pessoas e agradecemos a vinda dele porque hoje conseguimos ver as coisas de uma outra forma”.

Ricardo Ribas tinha feito a promessa de ir a Santiago de Compostela a pé caso conseguisse ir aos Olímpicos do Rio. Acabara de chegar ao destino quando o amigo começou a correr no Brasil. “Fui acompanhando a maratona dele pela internet, com a família a mandar-me os resultados. Foi um dia que jamais irei esquecer. Ele merece!”

A última medalha portuguesa

Manuel Mendes conquistou a medalha de bronze na maratona, na categoria T46, para deficientes motores. A prova foi vencida pelo atleta chinês Li Chanoyan e a medalha de prata foi para o espanhol Abderrahman Khamouch. Manuel foi o último atleta português em prova nos Jogos Paralímpicos e trouxe para solo nacional a quarta medalha de bronze do certame. A glória portuguesa nos Paralímpicos estende-se ao bronze de Luís Gonçalves (400 metros T12), José Carlos Macedo (boccia BC3) e à equipa de boccia BC1/BC2 de Abílio Valente, António Marques, Cristina Gonçalves e Fernando Ferreira.

Joana Almeida Silva e Lúcia Sousa

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Foto: Tiago Petinga/Lusa

 

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