O maratonista que correu pelos que cumprem maratonas diárias

Abílio Cunha não corre maratonas com metas e pódios. Essa é tarefa para Duarte Gil Barbosa. Abílio fez da vida uma maratona única, com metas diárias. Gil corta metas de longe a longe, quando lança desafios a si próprio. Este, “superou-o de forma brilhante”, diz-nos Abílio, que foi o rosto da motivação que Gil levou na alma, ao longo de 24 horas a correr, na prova de resistência que encheu o parque da Cidade de Vale de Cambra no fim de semana de 17 e 18 de setembro.

Abílio preside à Associação do Porto de Paralisia Cerebral (APPC) e recebeu ontem, entre as palmas dos utentes daquele luminoso centro de reabilitação, um donativo de 1950 euros. Das mãos de Gil, que saiu ontem de manhã de outras 24 horas – as que cumpre, enquanto enfermeiro, várias vezes por mês na Unidade Pós-Anestésica do Hospital de S. João –, equipou-se e atravessou meio Porto para abraçar Abílio.

Já o tínhamos contado aqui, Gil fixou um desafio – correr 200 quilómetros naquelas 24 horas e oferecer um euro por cada um deles à APPC. Para isso, preparou-se a sério, fez treinos “longos” (diz ele, para o comum dos mortais são longuíssimos: 50 quilómetros…), mentalizou-se e buscou forças na experiência adquirida.

Gil sempre praticou desporto; já no Secundário tinha bons resultados. Aos 30 anos, resolveu ir atrás de amigos que corriam. Poucos. E, reconhece, era um desporto de custo acessível. Um ano depois partia para a 1ª Maratona do Porto, inédita na cidade e no currículo dele. “Éramos cerca de 250 atletas” (hoje são alguns milhares). Percebeu a capacidade que tinha: terminou os 42 quilómetros em menos de três horas. Investiu, insistiu, correu, correu, correu, estrada, montanha. Até surgirem as 24 Horas de Portugal. “Era um desafio grande, até a nível psicológico. Nunca corri uma distância tão grande. E sabia que ia ser difícil, porque no ano passado só dois atletas conseguiram e na primeira edição ninguém conseguiu”.

Mas Gil tinha, a dar-lhe energia, a imagem de Abílio. E de uma familiar cujo parto correu menos bem e deu à luz uma criança com paralisia cerebral. E de uma experiência de trabalho de oito anos com adultos e crianças com paralisia cerebral. “Sou muito sensível a este tipo de doentes, sei que têm bastante dificuldades no dia a dia, porque têm alterações a nível motor e sensitivo”. E tinha, ainda, determinação. “Pelo facto de ter uma instituição por detrás que iria apoiar estaria muito mais focado. Tinha a certeza de que iria conseguir”. Correu 204 quilómetros. Foi segundo nas 24 Horas. Chegou a andar em primeiro, mas nada disso interessa. 24 horas é um prazo que lhe é comum, como já se disse. faz parte da vida dele. E da de alguns médicos do hospital que resolveram multiplicar o dom de Gil. “Esta campanha não se esgotou com a prova”, garante o atleta.

Ivete Carneiro

1 comentário

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  • Lydia Soares

    1.10.2016

    Abílio Cunha o Mentor e criador do nome RUNPORTO.