Carlos Sá: um profissional numa modalidade a amadurecer

Profissionalização. Carlos Sá repete a palavra diversas vezes. Falamos sobre a organização de provas, falamos sobre o facto de haver em Portugal apenas um atleta a viver da corrida de montanha, falamos sobre o número – que começa porventura a ser excessivo – de eventos. E falamos dele, do que o fez passar de um fumador obeso sedentário ao ultramaratonista cujos resultados chamaram a atenção de patrocinadores que lhe permitiram viver a fazer o que gosta: correr. Pelos montes. E mostrá-los.

É, de resto, a propósito da sexta edição, que decorreu este fim de semana, do Grande Trail da Serra d’Arga, um dos eventos pioneiros na história contemporânea da corrida de montanha em Portugal, que contamos quem é Carlos Sá.

É o que todos sabem: um medalhado ultramaratonista, hoje com 42 anos e ávido de desafios cada vez menos comuns. O último no currículo implicou a travessia da Gronelândia com um trenó com tudo o que era preciso para sobreviver debaixo de gelo e de neve. É um barcelense que cortou matos e contornou pistas quando era miúdo, que aos 19 anos descobriu “a parvalheira” e os cigarros e que aos 30 percebeu que subir 33 degraus da garagem para o hall de casa de uma vez era impossível. E era estúpido também. Regressou ao desporto porque tinha “memórias boas” do que era ser saudável.

Como muitos trabalhadores do têxtil, viu a crise de 2008/9 oferecer-lhe o desemprego, já Carlos se tinha apaixonado pelo montanhismo que o levou a procurar trabalhos verticais. Debalde: a crise também levar a construção para o inferno. Pôs-se a correr para se “abstrair”. Muito. Tudo o que podia e mais. Diz que era a “200%”. Seria. Foi tanto que “os resultados começaram a aparecer a nível internacional” e, com eles, duas marcas dispostas a fazer dele o portador do seu nome. “Salvaram-me”. Passou a poder (sobre)viver da corrida. E porquê só ele, entre nós?

“O trail é uma atividade muito jovem. A modalidade tem que amadurecer e tornar-se uma modalidade de massas para as marcas poderem achar que é um desporto atrativo” como o atletismo tradicional. Ainda não é, acredita o ultramaratonista, apesar de o seu Grande Trail da Serra d’Arga ter tido mais de 2100 participantes. “Na primeira, eu conhecia todos os atletas de trail em Portugal, éramos sempre os mesmos, cerca de cem!”, diz ele que tem a organização de provas no sangue: o pai era o presidente da associação de atletismo local e era ele que fazia 90% do trabalho de preparação de competições, aos 12 anos…

A conversa flui naturalmente para isso, a organização de provas. Delinear uma agenda, hoje em dia, é tarefa hercúlea, para não dizer impossível. Não cabem. Há lugar para tudo e para todos? “Quase todos começamos por carolice. Temos ideia de que o nosso cantinho lá de casa é sempre o mais bonito e queremos mostrá-lo aos nossos amigos”. Ora, “isto leva à saturação do mercado e dos próprios organizadores e atletas, porque isto dá mesmo muito trabalho e muita despesa e as pessoas vão começar a cansar-se”, lamenta Sá, que acredita que, à semelhança do que aconteceu com outras modalidades, vai acabar por haver uma “regulação natural” e não vai demorar muito. Quatro ou cinco anos. “Tornar estas organizações sustentáveis enquanto empresas é possível, mas é preciso criar marcas fortes e internacionalizá-las”.

Ivete Carneiro

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