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Um caldeirão de histórias

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– Faz favor, o Sr. É daqui de Vilar de Perdizes?

– Sou sim. O que posso fazer pela menina?

– Pode, por favor, dizer-me o que Vilar de Perdizes tem de melhor?

– Ora isso, menina, depende. Quanto tempo tem?

Tinha pouco, compreendi depois, para usufruir do que Vilar de Perdizes tem de melhor.

Do programa do Ultra Trail de Vilar de Perdizes fazia parte a Queimada – Esconjuro do Padre Fontes. Fomos tentar compreender em que consistia o “esconjuro”. Pelo caminho, apresentaram-nos o pai de Mauro Fernandes (o organizador) e a nossa atenção virou-se para outros tempos de Vilar de Perdizes. De como ali se defendia a honra da família e dos trabalhos em que se meteu por causa de jovens bonitas. Beleza que tinha uma explicação: quase todas as mulheres da terra eram suas primas! O isolamento da aldeia terá favorecido os casamentos consanguíneos e, tantas gerações passadas, os habitantes da terra pertencem ainda às mesmas famílias. A conversa foi boa, mas não chegámos ao “esconjuro”, posto o que nos sentámos a tomar chá com os donos da Casa da Laborada, ali mesmo em Vilar de Perdizes.

Com a doçura das pessoas sem pressa, explicaram-nos que o “esconjuro” abençoa a queimada e que a queimada é uma bebida cozinhada num caldeirão de aguardente, maçã, limão, açúcar amarelo e café em grão. E o “esconjuro” é a espécie de reza que o Padre Fontes vai desfiando para afastar males e tormentos. Terminado o exorcismo, a queimada é distribuída por todos os presentes. Mas contaram muito mais. Contaram-nos um caldeirão de histórias como a do avô que, em 1902, foi da aldeia vizinha de Santo André até Braga, descalço, com as botas às costas para não as estragar, no dia em que entrou para a Marinha.

Numa terra conhecida pelo contrabando, fiquei a saber que nem todos eram contrabandistas. Parte da população, talvez até a maior parte, vivia de uma agricultura em que tudo o que se produzia era para consumo e os próprios produtos funcionavam como moeda de troca. Pagava-se azeite com ovos, farinha com laranjas e a avó até cozia fornadas de pão que ia, montada no burro, vender para as aldeias. Aprendi rezas para “benzer o coxo” e descobri que os abcessos se curavam com “bichas” (sanguessugas).

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Da prova – e das histórias nela

E aprendi, mais tarde, que em terra de bruxas nada é adquirido. O percurso da prova Jupiter Optimo Maximo foi mágico até ao primeiro abastecimento. Fui feliz como crianças a brincar à chuva nos trilhos que rasgavam encostas escarpadas e desaguavam em tapetes de terra batida, cravados no colo de extensas manchas de vegetação rasteira com cores de outono, salpicada de carqueja e urze. Corri livre, com a liberdade que a montanha proporciona, até às Olas de Santa Marinha, entre terras de Vilar e da Galiza e aí o tempo parou.

Sentados no rio Assureira, largas dezenas de metros de penedos fizeram-me esquecer todos os males das pernas e da vida. Sempre com a ajuda do Paulo e do Hélder, fui saltando de fita em fita, sem medo nem pressa, embriagada com tanta beleza e frescura. No 1º abastecimento sentámo-nos junto a um senhor sem idade que sempre ali viveu e nos contou a lenda das Olas. Em tempos, a mulher de um galego “pôs-lhe os cornos” e ele mandou-se da coroa para terminar com a vida. Mas tinha a cabeça tão pesada que se separou do corpo. Nunca o encontraram…

Daí até ao segundo abastecimento, abateu-se o desânimo. Previsto para os 19 Km, surgiu aos 25, levando-nos a acreditar que um bruxedo nos tinha desviado e estava a cozinhar-nos no caldeirão do Padre Fontes, na matemática gestão dos mantimentos debaixo de temperaturas insanas. Com uma disponibilidade e uma generosidade ímpares, o Hélder ia conversando comigo e distraindo-me como podia. Corremos soltos pelas extensões de feno, aproveitámos as sombras dos carvalhos e pinheiros abundantes e encontrámos um pastor.

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– Vocês vão subir ao Larouco? Agora?

– Sim, vamos.

O pastor respondeu com uma palavrão que não vou reproduzir, mas que traduziu com clarividência o que iríamos enfrentar. Se Dante tivesse subido até lá, a ascensão ao Larouco constaria da Divina Comédia. Subidas intermináveis e acutilantes consumiam-nos as energias e sorviam-nos a coragem. Ao km 26 apanhámos o Paulo Sérgio que não pôde continuar a prova e o Renato que não mais nos largou. Até ao último metro do último quilómetro segui com o Paulo, o Renato e o Hélder, que foram a minha “equipa”.

Desabrigada, o calor cozia-me a vontade de tal forma que quando as subidas davam tréguas e emprestavam uns metros de terra batida plana eu não conseguia correr. Mais do que uma vez, sentei-me e chorei. E os membros da minha “equipa” sentaram-se comigo, com uma calma generosa. Do fim para o princípio, o Rui veio ao nosso encontro. Apanhou-nos no km 39. Eu não sabia se havia de rir ou chorar. Tinha a certeza de que o Rui não me deixaria desistir e eu já não podia mais.

Quando se fala em correr com o coração, deve ser disto que se fala. Foi assim que corri até à meta: com o coração, que era, de resto, a única parte do corpo que eu ainda sentia. Cortei a meta lavada em lágrimas de exaustão, alívio e, sobretudo, gratidão por ter tido a oportunidade de enfrentar a dureza da montanha numa prova com alguns quilómetros rolantes mas quase todos muito técnicos, sem ceder à tentação de desistir.

Na chegada estavam vários habitantes de Vilar de Perdizes, alguns dos quais conhecera na véspera, afáveis e acolhedores. O pai do Mauro rematou: “Isto não é uma prova para qualquer um. Parabéns! Está feita. Leva mais uma história para contar aos netos”. E foi sobretudo isso que trouxe de Vilar de Perdizes: um caldeirão de histórias para contar e o afeto das pessoas, afáveis e disponíveis, mas duras, ainda marcadas pelo tempo em que o sustento das famílias era garantido pelos ganhos do contrabando. Isso e dois pés feitos em sopa. Nem quero imaginar como estariam os do avô marinheiro quando chegou a Braga…

Ana Luísa Xavier

 

1 comentário

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  • Susana Silva

    16.9.2016

    Obrigada pela partilha. Vilar de Perdizes fica tatuado no coração. Deixa muitas saudades.