Gerês, o palco para campeões mundiais

São 41 seleções nacionais, 310 atletas, 85 quilómetros, 5000 metros de desnível positivo, outro tanto de negativo e as serras do Parque Nacional da Peneda-Gerês. E é a estreia oficial de Portugal na mundialização da corrida de montanha: o Campeonato do Mundo de Trail Running vai acontecer no dia 29 de outubro e, mais do que qualquer outra coisa, vai projetar a imagem do país. Aliás, já projetou – o verão viu vários estrangeiros a testar as solas dos sapatos no percurso…

O ultramaratonista português Carlos Sá teve a coragem de agarrar no risco de trazer o evento para Portugal, mal soube, ainda decorria o campeonato de 2015, em França, que Espanha desistira de organizar o certame de 2016 por falta de patrocinadores. Olhou o território, pensou no Gerês de que tanto gosta (organiza lá duas provas) e, entre avanços e recuos, descobriu a disponibilidade de Braga para servir de centro do evento e acolher as cerca de 700 pessoas que o campeonato envolve. E será lá que decorrerá uma feira dedicada e, a partir de dia 22, o “mundialito do trail”, com as escolas dos cinco conselhos que apoiam o mundial dos grandes – Braga, Arcos de Valdevez, Montalegre, Ponte da Barca e Terras de Bouro. “Foram precisos mais de dois meses até chegar ao trajeto”, com percursos já habituais e muita invenção “para meter desnível”.

O que fez correr Carlos Sá? “Um misto de paixão, de poder fazer mais pelo trail em Portugal e de levar o nome de Portugal lá fora”. Além das provas de renome internacional com que já conta, o país mostrará assim que “é também uma nação de trail” e que tem “muito mais do que praia”.

Que o diga Nathalie Mauclair. Encontrámo-la no intervalo do reconhecimento do percurso, no descanso de Campo do Gerês. Foi a primeira vez que a francesa, bicampeã do mundo de trail, pisou Portugal. “É uma bela descoberta, belas montanhas. É muito peculiar, com grandes rochas, estou agradavelmente surpreendida”.
Como ela, outros atletas estrangeiros pediram a Carlos Sá o track da prova. “É duro. Não se sobe muito em altitude, mas sobe-se e desce-se constantemente. E é técnico. Será um belo percurso”, vaticina a candidata a um terceiro título. Não quer falar nisso e alerta para as portuguesas, que “conhecem bem o terreno”.

Quanto a comparar com outros palcos de campeonatos, Nathalie, 46 anos e escassos seis de corrida (!), diz que Portugal pode provar que o trail não é apenas uma modalidade de alta montanha. “Em França fala-se muito do trail nos Alpes e um pouco nos Pirenéus. Dá a sensação que é uma modalidade só de alta montanha, quando não é, de todo. O trail pode correr-se em qualquer terreno desde que seja caminho e não asfalto”.

“Aqui podemos não ter grandes altitudes, mas temos um terreno muito difícil”, acredita Carlos Sá, que se diz pronto a “ouvir reclamações” de seleções habituadas a terrenos rolantes. A beleza de tudo isto é que haverá provas abertas, a calcorrear parte do percurso da elite (e a elite inclui campeões como os também franceses Sylvain Court e Caroline Chaverot, ou o espanhol Luis Alberto Hernando). A organização preparou um percurso de 55 km para correr a solo ou em estafeta e outro de 16, para tirar a barriga de misérias.

Ivete Carneiro

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