Vladmi, o ultramaratonista cego que vem bater recordes

Vladmi dos Santos é um ultramaratonista brasileiro de 45 anos. Até aqui, tudo normal. Exceto o facto de ser atleta paralímpico apaixonado pelo extremo como mensagem para dizer ao mundo que, apesar das limitações físicas, qualquer pessoa “pode alcançar grandes objetivos no desporto e na vida”. Vladmi é casado há 24 anos e com duas filhas a quem procura “levar o exemplo“. Vladmi é cego. Mas corre. Longe. Tão longe que arranca no próximo dia 18 de agosto para a maior prova de corrida em Portugal, que liga Belmonte a Proença-a-Nova debaixo de temperaturas que podem passar os 40 graus. Porque no final poderá ter (mais) um recorde: a maior distância alguma vez corrida por um cego.

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A cegueira nasceu consigo?

A perda da visão veio total aos 34 anos, devido a degeneração macular.

Já corria?

Eu corro desde os oito anos, muito incentivado pelos meus professores de Educação Física. Sempre levei comigo a prática do atletismo, por me dar uma qualidade de vida e por ajudar a aliviar o stresse do trabalho. Mas comecei a correr profissionalmente em 2007, porque queria usar o desporto como ferramenta para resgatar minha autoestima após a perda da visão e, com isso, buscar a inclusão no convívio social.

E evoluiu para desafios extremos…

Eu comecei a correr provas de grandes distâncias em desertos, porque sempre busquei desafios que, para alguns, eram impossíveis. Em 2013, quando terminei meus primeiros 250 km, no Deserto do Atacama, no Chile, provei a muitas pessoas que tudo podemos e tudo alcançamos quando nos dedicamos a um projeto. Correr ultramaratonas é aprender com cada atleta por meio de suas histórias de vida.

Conte-nos então o seu palmarés.

Já sou conhecido no mundo das ultramaratonas. Percorri os desertos do Atacama, o deserto do Saara, em Marrocos, e o deserto de Gobi, na China. Atualmente tenho o melhor tempo do mundo entre os deficientes visuais neste tipo de provas e estou a caminho de Portugal para bater o recorde de maior distância alguma vez percorrida por um cego…

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Como é que se faz provas desta dimensão sendo cego? O que se sente?  Pede para que lhe descrevam a paisagem, o percurso, o trilho? Entrega-se a quem o guia, de corpo e alma?

Em todas as provas em que participo tenho ao meu lado um atleta guia, que me dá a direção e o relato do que está acontecendo durante a competição. Ele descreve a natureza em volta, as pessoas e vai interagindo em todos os momentos comigo. Somos uma equipa e também amigos. É muito importante esta parceria, pois não quero somente os olhos do atleta ao meu lado, precisamos de sintonia para que tudo corra bem.

Porquê o desafio da PT 281?

Escolhi a PT281 porque a distância é um novo recorde a bater. Além disso, conheço bem os organizadores e sei que a prova me oferece total segurança e estrutura para chegar ao final. E sei que vou reencontrar amigos ultramaratonistas…

Ivete Carneiro

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