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Tendinite: Será uma realidade ou um mito?

treinio696

Tendinite? Quem nunca a considerou?

No mundo da corrida, as tendinites mais frequentes são as do tendão de Aquiles, rotuliano, isquiotibiais, tibial anterior, tibial posterior e dos peroniais. Um diagnóstico familiar a quase todos nós que, segundo a caracterização clássica, se trata de uma condição inflamatória e dolorosa no tendão (daí a terminação “-ite”), decorrente de sobrecargas crónicas e que limita as atividades da vida diária e desportivas. Para tal, a medicação anti-inflamatória e a injecção de corticosteróides surgem como abordagem padrão no controlo da inflamação, com vista à diminuição da intensidade da dor e, por consequência, ao retorno à função.

Pois bem, agora esqueça tudo. Sabe porquê?

Os fatores subjacentes a este sobrediagnóstico têm sido investigados e na verdade são muitos os estudos que afirmam que a condição dolorosa associada a sobrecarga constante do tendão tem uma origem não-inflamatória. Através de estudos imagiológicos a pessoas diagnosticadas com tendinite observou-se (1) desalinhamento das fibras teciduais do tendão; (2) proliferação de tecido conjuntivo; (3) aumento desordenado da vascularização e nervos que a acompanham; (4) áreas de morte tecidual e calcificação focais e (5) ausência de células inflamatórias. Conclusão? Com estes achados, no ponto de vista tecidual, a condição que frequentemente é denominada de tendinite é, na verdade, uma tendinose.

A tendinose é, por isso, o culminar de um processo degenerativo no tecido tendinoso, normalmente em resposta a sobrecargas constantes. Como agravante, quando o tempo de recuperação do tendão aos traumas a que é sujeito não é o suficiente, a tendinose torna-se, rapidamente, uma condição bem real. A dor surge já como o estado final deste processo.

A comparação é fácil. Embora haja quem o faça para entrar no Guiness, vamos imaginar que, diariamente, corre uma maratona sem qualquer dia para descanso. Semana após semana, o resultado não pode ser bom. Surge o cansaço generalizado, a pouca vontade de treinar e a dificuldade em manter a rotina física a ritmo constante. O fim é o desgaste, o colapso! Com o nosso tendão a história é a mesma.

Desde 1976 que há estudos que compravam a origem não inflamatória das tendinopatias (este sim, o termo mais correto). Então, se não há inflamação, há justificação para intervir nas tendinopatias com medicação anti-inflamatória para o alívio de dor? Claro que não, no entanto, esta realidade continua a ser uma abordagem comum neste tipo de diagnósticos “fáceis”. Fáceis porque são olhados e manejados segundo procedimentos padrão, mesmo não havendo benefício para o processo de reabilitação.

Mais do que isso, a conceção de que “se dói, não mexe, senão estraga” não é de todo pertinente nestes casos. Está comprovado que os alongamentos, o treino isométrico e o excêntrico, em contexto controlado, potenciam a produção e a reorganização do tecido tendinoso e a circulação sanguínea indispensável no processo de cicatrização. As alterações químicas que causam a degeneração tendinosa e consequente resposta dolorosa são assim controladas, no entanto, apesar de o decorrente dano celular não ser totalmente reversível, o objetivo desta abordagem terapêutica passa por aumentar a funcionalidade morfológica do tendão, travar o ciclo de lesão e minimizar as limitações associadas.

Do diagnóstico à intervenção, as tendinopatias, bem como qualquer outra condição clínica, devem ser avaliadas, descritas e intervencionadas eficaz e especificamente, nunca esquecendo a globalidade de cada pessoa e o contexto onde se insere. É preciso evitar procedimentos danosos e inapropriados. Está na hora de aceitar a verdade irrefutável de que a tendinite é um mito e enfatizar uma “nova” perspetiva das disfunções do tendão.

Conheçam o vosso corpo e percebam os sintomas associados às condições que vos vão surgindo. Garantam qualidade no gesto técnico da vossa corrida e façam uma boa gestão de cargas e frequência de treinos. Desta forma conseguirão prevenir e controlar o aparecimento de condições patológicas incapacitantes, como as tendinopatias, e elevar o rendimento da vossa prática desportiva.

Nuno Silva – Fisioterapeuta ROPE | Clínicas Nuno Mendes, em colaboração com o JN Running

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