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“Quem termina a Ronda termina-as todas”

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O cronómetro marca 39 horas e 55 minutos e Allisson cruza-nos estrada acima, num fogo só visto. “Ela precisa da minha bomba de asma!” Ela é Melissa Gosney, a americana que acabou de cruzar a meta em Ordino, uma aldeia de onde esperamos ver sair, a cada esquina, todas a Heidis do paraíso, fosse isto os Alpes. Não são. São os Pirinéus de Andorra e, no verão, não ficam atrás de nenhuma cordilheira. São estonteantemente verdes. E duros. Missy cruzou a meta em quase transe. Corria havia 39 horas e 52 minutos e os 170 quilómetros e uns pós da Ronda dels Cims. Desfalece nos braços de Brett, o marido que arrancou com ela, às sete da manhã do dia anterior, mas não lhe aguentou o ritmo.

Só quem se aventura numa corrida de montanha ultra saberá explicar as partidas que a cabeça prega. Missy teve que lidar com uma particularmente difícil: a mente bloqueou-lhe o esófago e parou de beber. Parara de beber havia oito horas. Ou 40 quilómetros. Allison, americana do Colorado, como Missy, chega com a bomba salvadora. “Ela… vai… ficar… bem…” É jornalista e corredora de fundo. Missy nunca tinha aspirado. Mas precisava de respirar. Respirou e subiu ao pódio. Segunda mulher, na prova que é considerada por todos a mais dura da Europa para aquela distância. Porque os Pirinéus, em Andorra, não perdoam.

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A meio – melhor, no início, que 50 km ou algo que o valha é praticamente o princípio numa loucura destas – está Comapedrosa. É o pico mais alto de Andorra, pontua a 2950 metros de altitude e mostra o esplendor do desafio. Dali vemos todo o traçado da Ronda dos Cimos e não conseguimos evitar um arrepio. Até porque, ali, de onde nada mais impede a vista, flutua a bandeira portuguesa. “É pelo Euro?” Não. Alfredo Manuel Gonçalves diz-nos que já ali esteve, no ano passado, a receber os atletas. A bandeira e o som galego da gaita de foles de Albert Adellach, que se ergue, como pode, a cada chegada. Àquela altitude, Albert precisa de mais ar para encher a gaita e a gaita precisa de mais ar para soar. “No final, estamos os dois que não podemos”.

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Subiram a pé, Manuel e Nuno, o genro, andorrenhos de “profissão”, bracarenses de berço. Manuel percebeu as montanhas tarde, diz-nos, nós que fomos ali largados de helicóptero para tentar, apenas, um cheiro do Andorra Ultra Trail Vallnord. Escorregamos por 10 curtos km no cone de ar dos primeiros. “Os primeiros 20 estão num nível…” Acima, é o que quer dizer Manuel, que enganou o desgaste da cartilagem do joelho e a desaprovação da mulher e subiu, de Arinsal até ali, 3.30 horas e um desnível indizível. Os outros, bem, “muitos nem aqui chegam”. Está confirmada a dureza.

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Manuel Quelhas é um dos escassos portugueses em pista. Amante de desafios extremos, admite agora, por outras palavras, que não sabia o significado de extremo. A subida que fez Manuel de Braga, este Manuel, do Porto, fá-la em duas horas. Fala em dor e em “autênticas paredes”, fala de uma vista espetacular, e fala de Manuel o outro. “Então estás cansado? Já? Olha que isto não é o Marão…” Tira uma foto com Albert e leva na mochila o aviso pleonástico de que o que se segue “não é fácil” (“mas há alguma fácil aqui?”). Ao cabo da descida e da subida que se lhe segue (também não há planos em Andorra), a palavra que assalta Quelhas, como todos o conhecemos por estas andanças, é “desistir”. Troca mensagens com Sandra, a esposa: “62km estou exausto. Apetece-me ir embora”; ela: “Dorme um bocadinho, já só faltam 100km” [já só faltam 100km é a frase que ninguém deve gostar de ouvir…]; ele: “os 100km que faltam são terríveis, principalmente os últimos 50”; ela: “Já sábias disso e por isso é que vieste… ou vais agora para os 70km, comes e dormes um bocado e vestes algo mais quente”. Manuel não respondeu.

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Seguiu, sofreu, dormiu sempre que se sentou, comeu, sofreu, subiu, desceu. A poucos km do fim, pediu para levar uma das bandeiras do percurso plantada no último cimo, porque percebeu ali que a Ronda estava completa e porque não voltará. “Leva, mas vais querer voltar”. Manuel admite que chorou, que pensou desistir, que nunca se metera em tal. São 10.30 horas de domingo de manhã. Ou algo que o valha.

Para trás ficara Maribel Fernandez. É galega, tem 60 anos e voltava à ronda pela segunda vez. Da última, parara a 16 km do fim, porque os pés molhados transformaram-se em infeção. A montanha que a rodeia desde que vive em Andorra, há 40 anos, conheceu-a com Jaco, o samoiedo branco que “queria ir sempre mais longe”. Levou-a à paixão e ao destemor. Está animada às sete da manhã de sexta. Correu mais do que esperaríamos e não conseguimos apanhá-la nos abastecimentos combinados. Esgotou-se. Parou a 40 km. “Eu não sou de treinar, sou de desfrutar a montanha, caminhando”.

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A nós parece-nos que merece tudo. Ela e Cristina, que “só” fez a Maratona dos Cimos, mas que teve que perder mais do que o tempo de um gel em cada abastecimento: esperava-a o filho de três meses, esfomeado pelo leite materno. Ela e Juergen, de 78 anos, que fechou a mesma maratona em pouco mais de 11 horas. Ela e os 3100 que arrancaram da paz bucólica de Ordino para cada uma das provas. Ela e os que, depois da Ronda, são a imagem da superação quando regressam à aldeia. Dessas imagens que fazem chorar quem está nelas e quem as vê.

Gérard Martinez foi o criador do Andorra Ultra Trail. Conhece as pedras “pelo nome”. Julgamos que quem lá foi também. “Quem termina a Ronda termina-as todas”. Fosse a corrida uma bebida e estaria escolhida a máxima, catalã, como deve ser: “Sant Hilari, Sant Hilari, fill de puta qui no se l’acabi”.

Ivete Carneiro

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1 comentário

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  • Kristina Melablue

    25.7.2016

    A admiração e o respeito que tenho por gente assim!