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A infernal travessia do paraíso

Foi impossível ir ao Ultra Trail Douro e Paiva. E era impossível não ir. Pedimos a quem foi para nos contar. Ana Luísa Xavier, que no ano passado foi nossa companhia na subida aos céus (“Não choramos porque desidrata”, lembram-se?), foi este ano escolhida para varrer o paraíso. Tinha que ser ela a contar-nos como foi. Obrigado Ana Luísa!

analuisa696

7:05 H da manhã. Centro de Cinfães. Como peregrinos, os participantes das provas do Ultra Trail Douro e Paiva (UTDP) seguem o aroma de café expresso. Vou, com o Paulo, atrás do mesmo. E fico à espera. Espero pelo controlo do material, pela partida, por aqueles que chegam após a partida… Somos os vassouras da prova.

Tantas vezes fui a última a terminar provas ou a acompanhar amigos e conhecidos em dificuldades que não compreendia como nunca me tinham convidado para vassoura. “Nasci para isto”, pensava. Pensava mal. Ser vassoura de uma prova de trail, sobretudo uma prova tão técnica como esta, não é fácil, não é engraçado, não é leviano. Ser vassoura é duro. Porque o trail é duro. Trail é correr com as amarras das nossas limitações, com as correntes dos nossos medos, atropelados por enxurradas de fracassos passados, expostos a todos, com os nossos receios.

Mas o trail tem também a virtude de despertar forças que não sabemos que temos e potenciar o melhor de nós. Foi isto que vi nestes trilhos do paraíso: a capacidade de sofrimento dos últimos, a que eu descubro agora que também tenho e não via, a disponibilidade de outros participantes, o zelo e o empenho de vários voluntários, o cuidado das populações.

Começamos a prova sozinhos, por trilhos frescos, tingidos de verde garrido, condimentados com cheiro a terra molhada e hortelã. Por volta dos 4 km, encontramos as enérgicas e bem dispostas Joana e Raquel, que conseguimos acompanhar até aos 6 km. É aí que uma tabuleta separa a nossa prova de 38 km das restantes e entramos numa porção de paraíso: um rio de água transparente, que corre por entre grossos blocos graníticos cobertos de musgo verde garrafa.

À saída do rio, o inesperado acontece. O Paulo cai, fez uma rotura de ligamentos e vê-se impossibilitado de continuar. Sim, os vassouras têm que fazer a prova como os outros e lesionam-se como os outros, também. E desmotivam. É o meu caso, quando me vejo no exercício da tarefa totalmente sozinha. Pelo Paulo, pelos participantes, pela organização que confiou em mim, trinco a língua e sigo. Pouco. Aos 8 km, deixo de ver fitas. Já vários participantes se tinham ali perdido porque alguém retirou as malditas fitas de um entroncamento.  Sem fitas, sem rede móvel, sem vivalma que me indique o caminho, sento-me, até que a solução surge… uma pastora com o seu rebanho indica-me o caminho. Tiro-lhe uma fotografia. Adoraria um dia levar-lha…

analuisa2696

Daí até ao primeiro abastecimento (ainda nem um abastecimento passei!?), em S. Pedro, vou sempre sozinha, sem apanhar mais nenhum participante nos 38 km. S. Pedro fica a pouca distância das eólicas… e para chegar às eólicas… é um sofrimento. O calor sorve as energias, a dureza da subida fustiga os músculos, mas consigo. Sou privilegiada. Posso estar aqui. Eu e a última participante da distância, a Andreia Valente… e que valente foi! Vamos juntas daí até aproximadamente aos 25 km. Juntas atravessamos mais um pouco de paraíso, o Bestança. Com destreza e gratidão, rasgamos as águas frescas que emergem  entre tojos e urzes, seguindo as fitas muitíssimo bem colocadas e visíveis nos emaranhados de troncos e folhagem seca.

Mas a minha valente vai já em sofrimento, com dores fortes. Opta por ficar por ali, num abastecimento. Mais uma vez vou-me abaixo… ir em último para acompanhar alguém é compensador e revigorante… mas agora vejo-me em último e sozinha. Como é que vou conseguir apanhar  os penúltimos? A resposta chega do Noé, da EDV Viana Trail. Parece-me ouvir que é Noé, não tenho a certeza. Mas queria muito saber, porque o Noé, que não sei se é Noé, mas passa a ser, sim, nasceu para ser vassoura. Não por correr pouco, pelo contrário. Mas por conseguir que corramos mais do que podemos e ultrapassemos todos os nossos medos, para não o desiludir.

Sem nunca me ter visto antes, o Noé cuida de mim até ao penúltimo abastecimento, onde descubro finalmente os últimos participantes dos 38 km. O Noé nunca vai compreender a importância da atitude que teve. Daí até ao final, o paraíso faz-se técnico e de progressão lenta, sob um calor cruel, torturante. Acompanho uma corredora que se queixa imenso da tecnicidade da prova. Estava escrito no regulamento, a prova pontuava para os campeonatos de UltraSkyMarathon e SkyRace e estava incluída na Taça de Portugal de SkyRunning. Mas ela queixa-se e eu lembro-me de mim. Ainda ontem um amigo dizia-me que me queixo demasiado das coisas piores da vida e não tiro proveito das melhores. E que bom é estar ali, a atravessar aquele paraíso que naqueles últimos quilómetros nos traz de novo águas frescas e puras a esculpir lajes  por entre vegetação desordenada. Respiro fundo e usufruo de cada passo.

Já a três quilómetros do fim, reencontro a Raquel que vai a torcer-se com dores nos pés. Não quer desistir. Ao ritmo da resiliência lá chegamos à meta e aos aplausos do Nuno e do Jojó, do Pedro e da Dina, à medalha colocada pelo Paulo e o abraço da mais corajosa das participantes em prova: a que aguentou mais tempo. Obrigada por poder varrer este paraíso.

Ana Luísa Xavier

analuisa4696

1 comentário

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  • Raquel Santos

    14.7.2016

    Efetivamente foi uma prova dura…fazer 20km já com as unhas levantadas, com um calor que não se aguentava não foi fácil e a vontade de desistir foi muita mas, existem pessoas como tu que, quase na reta final nos relembram o porquê de estarmos lá…o porquê de o fazermos…Obrigada Ana Xavier Soares