A beleza de correr à pipoca

cinfaes2696

O mal dos montes é que nem sempre têm cobertura. Ora, uma mensagem com uma dúvida pode levar horas a ser respondida. Horas e um valente trambolhão.

Um dia destes, andava André no monte a dar os últimos retoques ao Ultra Trail Douro e Paiva e ficou sem sinal, ora. E andávamos nós, impedidos de ir àquela que é das mais belas provas de montanha nacionais e que acontece este domingo, a saciar o bicho numa incursão pelo Bestança. A ver o trabalho feito, a recordar os anos passados e os tantos palavrões que por ali disséramos e a frase mais genial de toda a história do trail nacional: “Nós não choramos porque chorar desidrata”. Pois não. E estavam 34 graus, nesse dia em que andávamos a matar saudades, chorar estava proibido.

Pois que André não respondeu, não. Mas nós, finos comó Alho, descobrimos as fitas, ali junto à ponte de Pias, no fundinho onde Cinfães encontra o Douro. A prova estava já marcada e isso, meninos, é uma festa: correr parte do UTDP sem ranhosos a resmungar porque estamos a impedir, com a nossa nulidade, os trilhos estreitos, correr sem o relógio a contar, correr com o tempo de, há que assumi-lo, caminhar, pois então. E, obviamente, molhar a alma no Bestança.

Siga então Bestança adentro, primeiro calçada acima, depois trilho abaixo, pensando no quão bom é passar num trilho virgem (para quem não sabe, ser último tem essa outra coisa terrível que é apanhar com lama até ao pescoço ou pó até ao tornozelo, num chão tornado em escorrega incerto pela passagem de centenas de pés).

Virgem. Nunca julgámos estar a escolher palavra tão certa. Ao cabo de uns quilómetros de alegria, mato. Erva seca, alta. Silvas. As pernas já em sangue, uma espinha na cara, uma urtiga no braço. E, claro, a falta de chão. Valeu que a encosta era, ainda, relativamente curta e a vegetação tão densa que agarrou a roupa. A queda, ainda que fenomenal, não teve mais de dois metros. Acabou em risos. Podia ter acabado em tragédia. Uns metros adiante era o precipício acamado de pedregulhos.

Mas sim, havia fitas por ali. E agora havia um cenário de guerra, folhas coladas à cabeça, silvas em jeito de coroa de espinhos, urtigas a animar toda a camisola e o suor, esse querido amigo, a arrastar isso tudo corpo abaixo, numa autêntica batalha campal. Os membros estavam incólumes e as fitas, essas cabras, riam-se na absoluta imobilidade da falta de vento. Voltámos para trás que para diante era o mistério e, chegados à ponte de Pias, depois do retemperador descanso na lagoa natural que ali se forma, vem a mensagem.

Diz André: Da última travessia do rio até ao fim, a prova está toda marcada. Só falta ali um pedaço depois das Carvalhas, está tapado. Ainda vão limpar. A sério André? Olhamos o chão e ali, nos 30 metros de ponte e de alcatrão, o sinal para os atletas de amanhã. “Cuidado!” Em absoluta sintonia, André, com rede: “Cuidado! Estão bem?” Por sorte, sim. Moral da história. É super giro ser rato e meter-se pelo percurso de um trail à má fila, à pipoca, o que lhe quiserem chamar. É. Ou não.

Ivete Carneiro

cinfaes1696

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