Corremos num palco de teatro à sombra em intenso dia de sol

louzan

As peças de teatro são divididas em atos. Nos dramas, comédias, romances, há atos mais ou menos interessantes, mais ou menos entusiasmantes, intervalos (às vezes) e finais mais ou menos empolgantes. O Louzan Trail é um drama romântico engraçado. Uma tragédia com enredo variado. A prova desenrola-se apenas em 47 (ou 28) quilómetros, mas tem o dom de reunir um traçado de fazer inveja a qualquer organizador que procura constantemente o desenho e abertura de trilhos.

Saímos da Lousã com o objetivo de confirmar onde tinham metido os 3600 metros de desnível positivo anunciado, se em duas subidas ao Trevim – ponto mais alto da Serra da Lousã – e mais uma ou outra “subidinha” que já teríamos feito numa outra qualquer prova que cruze aquela montanha, se havia surpresas mergulhadas na densa floresta de “austrálias” que invadiu e colonizou parte da Serra mãe do Licor Beirão. Demos com um lindíssimo ziguezagueado à sombra, sempre junto aos imensos cursos de água que a enriquecem. De cascatas a densas florestas, raro foi o quilómetro em que fomos fustigados pelos mais de 30º de um dia de junho que se apresentava o mais quente registado em todo ano. Trilhos de cortar a respiração, ora da brutalidade do desnível onde alguns atingiam os mais de 30% de inclinação, ora da espetacularidade da envolvente natural, tão rica nesta bela Lousã.

Enredo de teatro de terror com beldades que se tornam monstros, a Serra da Lousã foi superiormente “caracterizada” pelo Montanha Clube que acumulou a excelência da produção com o primoroso argumento adaptado para uma prova de trail ao sol. Com o calendário de Inverno da Lousã preenchido, o Montanha Clube brindou-nos a todos com um trail de Verão de nível mundial. Não deve haver por aí muitos lugares onde esconder à sombra um pelotão de corredores, e eles encontraram um. Um não, muitos e sempre em trilhos, quase sempre “single tracks”. Abastecimentos (também muitos e bons) com ambiente cénico de combatentes camuflados, marcações excelentes e quilometragem a coincidir quase sempre com o anunciado à saída de cada posto de controlo. Secretariado a funcionar na perfeição, zona de meta e apoio ao atleta também muito bem pensadas com banhos sempre quentes e uma excelente refeição de massa carbonara para aconchegar estômagos esvaziados pela brutalidade da natureza, fizeram deste Louzan Trail uma organização onde tudo estava pensado, mesmo aquilo que poucos veem, mas que deve lá estar – a segurança e os percursos alternativos.

É um enredo que não cansa em que os atores somos nós, numa espécie de 3D transportado para o teatro em que fazemos mesmo parte de toda a ação. Cenário belíssimo, fotografia excecional, argumento de qualidade, realização à medida de cada um. Parece um “Faça você mesmo”.

É uma belíssima prova, a repetir seguramente, como os bons filmes e as boas peças de teatro. Com final mais ou menos feliz, epopeia ou tragédia, não deixará seguramente de ser um excelente destino para testar as pernas e encher a alma com imagens de cortar a respiração.

Rui Pinho

Foto GMM Photography

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