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Não há nuvens para além das nuvens, só céu

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Allan Kardec, numa das obras básicas do espiritismo – “O céu e o inferno” –, aborda vários espíritos, infelizes, felizes, satisfeitos e insatisfeitos; muitos dos exemplos que reporta explicam a teoria em que se baseia a Lei de causa e efeito, que justifica todas as contingências da vida com um motivo justo e uma finalidade proveitosa para todos os acontecimentos com que se depara o homem, inclusive o sofrimento. “A cada um,  segundo a sua obra”, é o lema da justiça divina segundo os espíritas.

Talvez seja por esta apetência humana pela paz transmitidas pelo céu imenso que as corridas ao mais alto de cada montanha são atrativas e nos causam a todos uma espécie de busca de significado do inferno que nos conduz até lá. Não há nuvens para além das nuvens, só céu.

O Skyrunning, variante de montanhismo em corrida, é caracterizado pelas suas abordagens radicais à montanha. No Skyrunning vai-se do ponto mais baixo ao mais alto pelo caminho mais rápido desde que acessível a um qualquer mortal. É uma espécie de ida ao céu sem passagem pelo purgatório. Cordas, ferros, escalada, perigo são uma constante nos percursos desenhados nesta variante de montanha.

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André Rodrigues

A Madeira tem das melhores condições para a prática de trail e tem também dos mais bonitos trajetos de Skyrunning. Do mar ao Pico Ruivo consegue-se chegar em pouco mais de uma dúzia de quilómetros, passando por subidas de cortar a respiração, seja pela arrebatadora vista ou pela vertigem verde mergulhada na Laurissilva que nos cega a cada olhar.

A USM – Ultra Skymarathon Madeira, prova das restritas World Series, vai na terceira edição e dá-nos o prazer e orgulho de espantar famosos atletas que já deram a volta ao Mundo a correr do mar ao céu. Tofol Castanyer dizia em abril que a Madeira era dos poucos destinos onde queria voltar com a família. Anna Frost diz-nos que vai seguramente regressar. Ambos sabem que na Madeira há trilhos para crianças e velhos, mesmo para os que têm dificuldade de locomoção, e para doidos que, como eles e todos nós, nos aventuramos no sofrimento que ali é sempre muito recompensado.

A prova principal, de 55 km circulares, parte de Santana rumo à Achada do Teixeira, passa pelos Picos Ruivo e Canário, desce à Praia do Calhau de S. Jorge e volta a subir rumo ao Pico Ruivo, desta segunda vez sem aí chegar, sustendo-nos a respiração na Levada do Caldeirão Verde, na belíssima Laurissilva e nos belos trilhos que a elas levam. Não há um único momento de descanso da vista. É um turbilhão de emoções, um folhear de imagens de postal que venderiam um destino único a qualquer turista deste mundo. É um sem fim de “uaus”, um imenso “lindo”, um constante “não saio mais daqui”.

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Ester Alves

Não há imagem que nos mostre minimamente o que se vive neste percurso tão bem desenhado, tão equilibrado quanto a “causa-efeito”. São constantes sofrimentos com imagens repetidamente deslumbrantes. Depois de mergulhados neste belíssimo argumento, tornámo-nos espíritos felizes, com a alma cheia do que procuramos nas provas: descobrir todos os belos recantos que nos fazem suspirar, seguindo marcações tão nítidas e perfeitas como pistas de aviação. E não faltam apoios onde fazem falta os apoios e a solidão onde mais nada falta. A paz e o reboliço, o Céu e o Inferno.

A organização roça o perfeito, com um aparente sem fim de voluntários que nos aparecem a cada viragem no percurso, batendo palmas e apoiando como se fôssemos os primeiros. Nos abastecimentos sempre uma festa a cada um que chega e um abraço a cada um que parte. O secretariado simples e profissional, o prémio de finisher com verdadeiro significado de prémio e que vale seguramente grande parte do valor da inscrição.

A cidade, originalmente povoada por gente de Braga, algures por 1550, deve o seu nome a uma capela em honra de Santa Ana e é conhecida pelas suas famosas casas com telhados de colmo. Toda a sua envolvente é Reserva Mundial da Biosfera. Segundo a UNESCO, é “uma representação integral das unidades ecológicas mais relevantes da Madeira – desde a marina e ecossistemas costeiros até à vegetação de alta altitude, através da floresta de Laurissilva”. É assim numa envolvente tão rica quanto acidentada que decorre toda a emoção e ação da prova, do que a precede e sucede. Não há um único momento que se possa perder e todos são de aproveitar.

Ficam as saudades de Santana e da mais bela prova que vai ao céu das montanhas que a rodeiam. Um imenso paraíso verde plantado num intenso azul celestial. Um caldeirão de emoções numa ilha de paixões.

Rui Pinho

Fotos: Miro Cerqueiro/Prozis

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