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Tudo a correr… para o consultório

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Facto: haverá meio milhão de portugueses a praticar regularmente corrida. E quem diz regular diz duas a seis vezes por semana. Facto: a maioria deles não tem tempo e, mal consegue correr cinco quilómetros, inscreve-se numa prova de dez, um mês depois está na partida de uma meia maratona e em menos de três meses passou de sedentário a ultramaratonista. Facto: a imensa maioria não tem preparação.

Resultado: os especialistas em medicina do desporto, ortopedia, fisioterapia e podologia têm os consultários cheios. Para bem deles e mal dos pecados de quem quis alinhar na terrível ditadura motivacional e desatou a correr como se não houvesse amanhã.

“É notório o aumento da afluência de praticantes amadores”, admite o ortopedista António Sousa, do Hospital de S. João e do Centro de Medicina Desportiva do Porto, que aponta um risco de lesão entre 2,5 e 12,1 por cada mil horas de treino e uma incidência de lesões associada à corrida de 37% a 56%, numa área em que são escassas as estatísticas fundamentadas.

O aumento, diz o médico, deve-se naturalmente ao crescente número de praticantes, mas não só: prende-se sobretudo, com “o aumento de participação no treino e competição, frequentemente sem cuidados básicos, como a realização de um exame médico, o uso de equipamento adequado e a implementação de um programa de treino adaptado”.

“Cerca de 70% dos pacientes” que recorrem à consulta de podologia desportiva de Hélder Neves “são amadores, muitas vezes sem qualquer preparação, sem qualquer plano de treino, sem qualquer avaliação médica, biomecânica ou postural”.

“É natural que, com o aumento da sobrecarga, as lesões surjam”, corrobora. Ora, diz Joana Sousa, licenciada em Educação Física e responsável pelo Departamento de Medicina do Exercício da Clínica de Gondomar, “o amador faz muitas vezes mais treinos do que os atletas profissionais”, entusiasmado com o facto simples de a corrida ser uma modalidade de evolução rápida, que leva o comum dos mortais a crer-se capaz de tudo. E aqui entra o “excesso de carga” já denunciado por António Sousa. Há provas, casa vez mais, às mãos cheias por fim de semana. E treinos para elas, “muitas vezes bidiários, com o consequente desgaste”, explica Joana Sousa.

Eduardo Merino, fisioterapeuta também dedicado ao acompanhamento de atletas, calcula que 20% dos sues utentes venham com lesões desportivas. Para lá do exagero e da pressa com que os praticantes se lançam em desafios sem preparação, fala da “falta de tempo”. “Querem emagrecer muito depressa”, por exemplo, e abusam. Em três meses passam do sofá à partida da maratona. Ora, “dar umas corridas é uma coisa, competir é outra”.

Depois começa a doer, mas desvalorizam-se os sintomas, porque a onda motivacional é que conta e, que diabo, correr é tão natural como respirar, dizem as teses mais aceites que o homem nasceu para correr, pela simples razão de que tinha de ir atrás das presas para caçá-las e comê-las.

E as lesões surgem associadas a dois grandes tipos de fatores: intrínsecos (inerentes ao atleta), como a idade, o género, o morfotipo, a condição física e o nível de treino, além da existência de lesão prévia; e extrínsecos, como o local de treino, as condições atmosféricas e o equipamento, explica António Sousa, que atende sobretudo síndromes patelofemorais e ileotibiais (no joelho) e fasceítes plantares. A esta última, Helder Neves soma “tendinopatia do Aquiles, dores lombares e pubalgias”. No campo mais restrito do pé, o podologista destaca “problemas relacionados com o excesso de pressão a que as unhas dos pés estão sujeitas como hematomas subungueais e unhas encravadas”.

Eduardo Merino acrescenta entorses e inflamações do nervo ciático. Pouco, muito pouco, resume José Ramos, especialista em medicina desportiva e médico de equipas de diferentes modalidades: as pessoas que não fazem exercício torcem pés a descer escadas, caem mais porque têm menos massa muscular. A camada de população que corre, garante, é mais saudável do que a restante, mais capaz. “Com prevenção não acontecerão tantas lesões”, diz. E Eduardo Merino remata muio simplesmente: “viver é uma agressão constante e a primeira lesão é nascer”.

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O bom e o mau (por tópicos)

A facilidade e a acessibilidade são nitidamente, mesmo do ponto de vista económico, as principais vantagens da prática da corrida”, salienta o ortopedista António Sousa.

O fisioterapeuta Eduado Merino sublinha que a corrida aumenta os níveis de desgaste saudável, devendo previamente ser feito um plano de treino adequado.

A prática da corrida está associada a níveis de bem-estar físico. Diminui doenças associadas ao sedentarismo, como a obesidade, a diabetes e a hipertensão arterial, por via da limitação dos excessos de colesterol, açúcar e gordura.

A pessoa sente-se melhor na sua pele porque o corpo começa a agradar e deixa de andar escondido, diz o fisioterapeuta Eduardo Merino. Emocionalmente, a corrida prepara para avançar para projetos do dia a dia com mais vontade. “É uma armadura”.

As desvantagens estão associadas às limitações individuais, explica António Sousa, tais como a condição física, o estado de saúde a existência de patologia do aparelho locomotor, particularmente do foro degenerativo, como a artrose.

Ivete Carneiro

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