Margarida: a “tartaruga” feliz

maragarida marques696

Foi uma coisa que lhe veio da cabeça, por assim dizer. Margarida Marques nunca se sentiu gorda, nem achava que a saúde lhe exigia exercício, apesar de passar os dias sentada, ora no carro ora no escritório de mediadora de seguros de Anadia. Era a cabeça. “Precisava de arejar”. Foi há três anos. Tinha 46 anos. Desatou a caminhar depois de desistir de pagar a cota do ginásio onde não punha os pés.

Um amigo de antanho reencontrado pô-la, certo dia, a caminhar mais rápido. “No fim nem sabia qual era a perna direita e qual era a esquerda”. Uma história simples e normal, com o tempo trazido pela infeliz partida de familiares. Até que um dia deu por si numa ponte sobre o Tejo, a olhar em volta, “em pânico”. Estava na linha de partida da mini-maratona, com a determinação de perceber o que é correr em prova e o estímulo do esforço dos amigos, já a conquistar a maratona.

Dos seis passou aos 16, assim. E foi por aí adiante, “muito devagarinho”. E quem corre por aí já sabe quem é a mulher de armas que, certa vez, se pegou de palavras com um fotógrafo porque ele arrumava a trouxa antes de passarem os mais lentos.

Um dia caiu. A trabalhar. “Nunca me lesionei a correr”. Ali teve de parar, semanas. E quando recomeçou conheceu a palavra desistência. É uma das três que não usa, juntamente com sempre e com nunca. Tinha uma rotura assintomática quilométrica. Quando regressou, tinha determinado um objetivo: a maratona. Houve quem lhe dissesse que não era capaz. Provou o contrário. “Ainda fui buscar o último”, entre as lágrimas e o riso que lhe marcaram a cara.

Correr é uma moda? Não. “Apesar de ser recente, é parte de mim”. Um vício? também não. “Ouve o teu corpo é o meu lema”. Para sempre que o corpo lhe pede. E conversa com ele. Falou com o gémeo a partir do quilómetro 35 da Maratona do Porto, para lhe explicar que aquela antiga rotura só lhe tinha encurtado o músculo. Levou a melhor e cortou a meta sem se magoar. “Eu corro muito devagarinho, porque não tenho tempo”.

Não é um contrassenso. Margarida tem um emprego sem horários, uma família e um filho de 21 anos com autismo. Treina quando pode e quando quer. E testou uma vez um plano de treino. Correu mal. Voltou à anarquia e ao prazer de correr por prazer, passe o pleonasmo. Faz check-ups regulares e deixou de ser hipertensa. No final, resume: “Ganhei amigos”. Levava 42 escritos na pulseira da maratona. “E gente que me grita ‘Força Tartaruga!’ e que nem conheço…”

Ivete Carneiro

1 comentário

Leave a Reply

Faça login para comentar

  • Pedro Maia

    7.6.2016

    Grande orgulho, grande guerreira, a campeã não é só aquela que chega na frente. Força Cara amiga, devagar se vai ao longe, acredita….a meta não “foge”. BJS do amigo Pedro Maia.