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Os Açores entre o paraíso e o inferno

  
Ir aos Açores é como mergulhar no seio dos elementos. Terra, ar, água, fogo são comuns à formação e ao quotidiano do arquipélago. É habitual experimentarmos num dia em qualquer uma das ilhas açoreanas diferentes estações do ano, ora sol e calor, ora chuva e vento. Tudo muda em poucos instantes. Na corrida temos semelhantes disparidade de sensações; tão depressa estamos a morrer como de repente arrebitamos. A meteorologia açoreana teima em contrastar com a calma dos seus habitantes e refletiu-se em pleno na prova do último Sábado, com uma madrugada estrelada a brindar os participantes da ultra de 70 km que partiam da Horta, sol e algumas nuvens para os que saíam para a terceira edição dos 48 km (Faial Costa a Costa) e chuva intensa para os que enfrentavam distâncias mais curtas. Os trilhos do Faial são essencialmente em terra negra, aqui e ali com algum basalto, muito dele em pequenas pedras – vulgo cascalho, chamado “bagaço” pelos locais – , e que serpenteiam as aldeias a Este e os vulcões a Oeste da Ilha. Muito bem sinalizados, são percursos acessíveis todo o ano. Vale bem a pena ir ao Faial e percorrê-los, seja em turismo calmo ou numa das provas que os cruzam.

Com data e hora marcada estamos sujeitos ao que nos proporciona o acaso, seja uma tempestade, um companheiro de trilho ocasional, melhor ou pior sensação de bem estar, no fundo arriscar conhecer lugares onde dificilmente iríamos em condições que nunca escolhemos. São estes desafios que nos levam a sair da nossa zona de conforto, abdicar da escolha da melhor altura ou melhor companhia e aceitar o que o destino e o acaso nos proporcionam. Podemos ver no trilho um paraíso ou um inferno. 

No Azores Trail Run, no epicentro de toda a imprevisibilidade, tivemos um dia duro a partir da chegada à caldeira do vulcão principal. Ali chegados, todos os atletas de todas as provas foram brindados com chuva torrencial, vento forte e intenso nevoeiro. Ao nível do mar ou a altitudes não muito elevadas não é nada grave, mas aos 1000 metros, em terreno essencialmente de terra, transformou uma corrida numa edição do “survivor” ou num tutorial de como correr (?) na lama. A partir dali começou o inferno no paraíso. Gente embrulhada em mantas térmicas, desistentes como nunca houvera em três edições, gente que cerrava os dentes e seguia rumo aos Capelinhos e gente que desistia da loucura e rumava ao conforto do Gin no Peter. O encanto desta prova é escolher entre estar no meio de atletas, seja aqui ou ali. Do mar à terra ou do trilho ao bar mais próximo é um pulo. 

Voltando à caldeira, a primeira das várias que se correm até aos trilhos lunares do vulcão costeiro dos Capelinhos, a partir dali o maior desafio foi tentar correr, tarefa que se revelou difícil. Mergulhamos em lama e só a deixamos nos últimos 8 km onde já faltavam as forças para correr à grande maioria. A maioria, porque os super atletas da frente da corrida, encabeçada pelo Tiago Aires – líder do campeonato nacional de trail e grande revelação de 2016 -, despacharam chuva, lama e os 48 km em menos de cinco horas. A menina que melhor se equilibrou na lama da prova principal foi a leiriense Sara Brito. Por equipas nenhuma novidade, com os top máquinas do Viana Trail a subirem ao mais alto lugar do pódio. 

Regressando à calma dos que, como eu, nada ganham mas muito vencem, o Faial Costa a Costa é a prova, se fossem precisas provas, de que na montanha tudo muda de repente, e respeitá-la é a melhor forma de a encarar. É também a prova que nos mostra o melhor do trail: Conhecer lugares fantásticos, conhecendo-nos melhor, experimentarmos os nossos limites e sentir em poucas horas a disparidade de sensações, o céu reconfortante ou o inferno desafiante. Um ou outro gostamos, encaramos e voltamos. Sempre.

Rui Pinho

Foto Flávio Silva

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