0
A Madeira dói como nenhuma outra

  
O desafio é correr em direção ao céu. Essa é, pelo menos, a definição simplista que se pode dar da modalidade de Skyrunning. Mas, na Madeira, local por excelência para a prática em Portugal, é muito mais do que isso. É correr no céu, ainda que a altitudes menos generosas do que aquelas onde nasceu este tipo de corrida. É correr acima das nuvens, num postal azul turquesa.É isso que propõe o Ultra Skymarathon que este fim de semana sobe de Santana ao Pico Ruivo e volta, em voltas e mais voltas que somam 55 km e um desnível impróprio para cardíacos: correr em paisagens de cortar a respiração e, de passagem, pontuar para as Skyrunner® World Series da Federação Internacional de Skyrunning, que só tem cinco provas, num salto de notoriedade que diz muito das potencialidades da nossa pérola do Atlântico.

Ainda que não seja – nunca será, garante João Nunes, um dos organizadores – uma prova para massas, é já uma prova com projeção internacional. E ameaça sê-lo ainda mais, dado que tem no cartaz essa autêntica embaixadora do trail que é a neozelandesa Anna Frost. Chegou há uma semana à ilha, deu-lhe a volta aos trilhos e resume, prosaicamente, com um “wow”. “A diversidade da natureza, o desnível que se ganha tão rapidamente desde o nível do mar é de cortar a respiração. A cor da água deste mar é algo que nunca vi antes. Tive que parar várias vezes só para dizer WOW. A organização e os atletas locais fizeram-me sentir em casa. Não quero sair daqui…”, disse ao site “Skyrunner World Series”.

Quem já correu na Madeira sabe do que fala “Frosty”, nos laudos que vai publicando nas redes sociais – tem mais de cem mil seguidores no Facebook e mais de 30 mil no Twitter. Dirão, com propriedade, que a Madeira não precisa de publicidade. Talvez não. Mas é justo dizer-se que praticar corrida de montanha ali é algo que não cabe no que é comum. A Madeira dói como nenhuma outra montanha portuguesa, porque ir do mar ao céu é subir paredes, é passar por floresta enfiadas na neblina, como se fôssemos elfos num episódio do Senhor dos Anéis, é seguir levadas que desafiam a física e engolir as vertigens nas passagens entre cumes.

O skyrunning nasceu em 1992 de alpinistas que quiseram tentar subir mais rápido, em altitudes incomuns – dos 2000 metros para cima, ou seja, em pontos muito restritos do globo. A federação entendeu estender o conceito e definiu o Skyrunning como corridas com pelo menos 2500 metros de desnível positivo, técnicas, muitas vezes fora dos trilhos, com partes de escalada de grau 2, pisos diversos e paisagens diferentes – o grande trunfo da Madeira.

O USM arranca dos 400 metros de altitude, em Santana, e sobe, em 13,5km, um total de 1800 metros, para chegar ao Pico Ruivo (1861 metros). Seguem-se descidas abruptas em direção ao mar, uma subida dos zero aos 900 e nova descida até Santana. No total, os atletas terão engolido 55 km e 4000 metros de desnível positivo.

A diferença para as outras provas madeirenses? Os trilhos, explica João Nunes: no USM não há. “É preciso aprender a correr aqui”, resumiu, certa vez, o ultramaratonista Luís Mota. Hoje, 200 afoitos atrevem-se a experimentar, na versão longa. Outros ficarão com um cheirinho na prova mais curta. Entre eles os campeões nacionais Ester Alves e Nuno Silva, o ultramaratonista madeirense premiado Luis Fernandes e um naipe de respeito de cabeças de cartaz estrangeiros, numa prova já mais do que internacionalizada, com 25 nacionalidades diferentes. Todos sairão, seguramente, apaixonados. Porque não há dureza que apague tamanha beleza.

0 comentários

Leave a Reply

Faça login para comentar