Correr pelos outros é como correr por amor

ricardo696

Poderia ser a história que já se tornou banal: o gordo – ponhamos os nomes aos bois, ora bem – que já foi um adónis atleta em jovem, mas que a vida desviou para o sedentarismo, resolve determinar que não chegaria aos três dígitos na balança. Faltava pouco, começou a mexer-se e, como todos, conseguiu reerguer-se.

Ou poderia ser a história que já se tornou banal: o ex-gordo que foi dos dez aos 21 km, destes aos 42 km e daí para frente para o ensandecer que justifica as ultra distâncias, até chegar aos três dígitos, estes sim, legítimos.
Poderia ser tudo isto, mas tudo isto são pequenos pormenores banais na história de Ricardo Bastos.

Conhecemo-lo nas primeiras 24 Horas de Portugal, em 2014, encantados com a força para correr em círculos sem sentido atrás de um limite máximo de doações. Íamos nós exangues na luta pelas nossas três horas mais rápidas, na preparação para uma maratona egoísta qualquer, e víamo-lo circular, ele e a gigantesca Célia Azenha, frescos. Perguntámos quem era e disseram-nos que era Ricardo Bastos e que corria por solidariedade.

Era a quarta vez. Já oferecera 270 km em três etapas, 340 km num esticão Setúbal – Oliveira de Azeméis, 24 horas em circuitos de 600 metros, sozinho. Reencontrámo-lo na apresentação das segundas 24 Horas oficiais. Ia voltar à fórmula, 1 euros por km do bolso dele, os cêntimos que os amigos e apoiantes entendessem. Pela Banda de Música do Loureiro.

Conseguir proezas, para a imensa maioria, não passa da busca perfeita do egoísmo. Correr longe, muito depressa, para dizer: “sou o maior”. Ricardo não. Ricardo corre devagar, a conversar. Conversar. Poder conquistar recordes a conversar, haverá algo mais belo? Não há. Prometeu-nos que tomaríamos uma cerveja, nós que nos inscrevêramos para mais uma vez treinar a resistência para outra maratona egoísta, sem nexo nem objetivo fixado. Uma lesão remeteu-nos à qualidade de caminhantes noturnos, a apoiar os fortes como Ricardo.

Acabámos a caminhar 12 horas, paulatinamente ultrapassados pela boa disposição dele. Tomámos a cerveja e, no fim, ofereceu-me um trago do pote de barro negro que a banda ali trouxe. Era impossível não festejar: somou sete mil euros.

Não há desígnio mais forte do que estender a mão a quem precisa, mormente quando correr só porque sim, porque é preciso bater recordes, é uma estafa muito aborrecida. Correr pelos outros é como correr por amor, ao ritmo compassado da respiração partilhada, à velocidade de um sorriso permanente. Vinte e dois mil euros de Ricardo e amigos já distribuíram muitos sorrisos por Oliveira de Azeméis. Nas próximas 24 Horas de Portugal, este rapagão – tem 50 anos frescos calça as sapatilhas pelos Amigo do Hospital de S. Sebastião, em Santa Maria da Feira.

Há tempos, Ricardo partilhava nas redes sociais uma dúvida com o mundo. Valia a pena continuar? Isso é pergunta que se faça, homem?

Ivete Carneiro

ricardo2696

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