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Nuno, o amigo improvável


Seriam três quilómetros. Tínhamos descido a avenida da Boavista, acelerados depois de uma partida na cauda – como eu gosto de partir na cauda, só pelo prazer de não acelerar, do para e arranca, enfim, de ser uma anónima entre tantos – dizia então, acelerados na descida vertiginosa de obstáculos (os gps deram sempre mais uns bons 250 metros do que a distância oficial) e virámos à direita no Parque da Cidade, para a primeira subida.

Era o teste a separar o trigo do joio. A Wings For Life, dizia-nos, dois dias antes, o diretor de prova – José Regalo, um gigante do atletismo dado a curtas e rápidas distâncias – é mais a aventura da longa distância do que do atletismo tradicional. Ora, as longas distâncias são, hoje, propriedade quase exclusiva da montanha, onde o ritmo se faz mais leve, compassado, desnivelado. Ora lá estávamos na primeira subida. Vá, era uma minúscula rampinha. Alguém diz que a subir é que se vai bem, gente da montanha, na certa. Sabem bem as subidas em provas de estrada, dão para ultrapassar e fazer de conta, por escassos metros, que somos os maiores da nossa rua. E foi ali que vimos o Nuno.

Sim, o Nuno não andou conosco na escola, não temos que tratá-lo como “o Nuno”. Mas a verdade é que apesar de nos tratarmos por você desde que nos conhecemos, só nos é possível dizer “o Nuno”. Porque o Nuno é o amigo improvável, o Omar Sy do Jorge, que também só pode ser contado assim. Ou o nosso Omar Sy. O Nuno empurrava o Jorge, como no ano passado. O Jorge foi um promissor piloto de motocross até a vida lhe tirar a vida. Parece estúpido, mas é mesmo a única forma de dizê-lo. O Jorge vive numa cadeira de rodas há tanto tempo que tem um tom esbranquiçado. E o Nuno, que era fã do Jorge, decidiu que haveria de dar-lhe a vida que a vida lhe recusara.

Ia o Nuno, rampa acima, quando o vimos. Branco do esforço, curvado sobre a cadeira do Jorge. Boa prova, diz-nos ele, a sorrir. Agarrámos na cadeira e levámos o Jorge rampa acima como levamos a alma na montanha. E o Jorge sorria e o Nuno também, porque respirava de costas direitas. No ano passado, debaixo de tempestade, o Nuno levou o Jorge por dez longos quilómetros. Este ano estava sol, contra todas as previsões. Chegámos à descida. O Nuno implora-nos que sigámos o nosso caminho. Veio outra participante que seguia no encalço e tomou as rédeas. E Jorge foi assim, até aos 12 km, das mãos do Nuno para as de quem, na verdadeira acepção da palavra, correu esta corrida por quem não o pode fazer.

Estamos na Wings For Life, a segunda vez no Porto, a terceira em Portugal, e batemos recordes. A única corrida global do planeta tem 3000 almas por aqui, 12 delas são como o Jorge, dezenas são como o Nuno, a revezar-se nos comandos dos 12. Batemos recordes porque levámos, todos, o Nuno a levar o Jorge até aos 12 quilómetros. E o Jorge é a imagem de tudo isto. A fundação que dá nome à corrida nasceu da incompreensão de ver um filho remetido a uma cadeira, inerte, por um acidente parvo e a corrida nasceu da necessidade de nós todos nos substituirmos aos que decidem e financiarmos uma investigação que não lhes interessa porquanto beneficiará, a muito longo prazo, uma quantidade financeiramente insignificante de gente, todos os que sofreram lesões da espinal-medula.

O Jorge agradece com um sorriso do tamanho do sol, numa cara branca de que se destaca o brinco negro da normalidade de quem não desiste de viver só porque o destino o proibiu disso. É lindo, o Jorge, naquele brilho, no meio de três mil atletas – hoje todos somos atletas – que partiram sem ponto de chegada, à espera que a meta, um carro que partiu meia hora depois de nós, nos encostasse, depois daquele último sprint só porque sim, porque somos tolos e queremos somar quilómetros ao máximo mundial. Mundial porque foram 34 corridas, simultâneas, com 130.732 pessoas em 13 fusos horários diferentes e 1.255.000km percorridos.

Poderia escrever este artigo dizendo que os portugueses são praticamente incríveis, podia dizer que a extraordinária Vera Nunes foi a terceira mulher a nível mundial, com 58,86 km percorridos (eu fui a 3572.a mundial e a 141.a portuguesa, que máximo!!!), que o enorme António Sousa foi o melhor português, com mais dois km do que Daniel Pinheiro no ano passado e que se sagrou 10.o mundial, mas que o maior feito dele, veterano (verdade), foi ter treinado Vera para a proeza. Podia dizer que Doroteia Peixoto foi ganhar ao Canadá porque ganhou no Porto no ano passado e isso lhe deu o direito de escolher ir ao Canadá, onde correu bem mais do que cá no ano passado. Ou que Daniel esteve no Dubai com amigos e que um deles, Helder Santos, arrematou o pódio dos emiratos. Podia dizer do inacreditável italiano Giorgio Calcaterra, campeão dos 100km que consegui ali uns impossíveis 88,44km, mais nove do que o recorde do ano passado.

Podia contar outros tantos recordes, mas fico-me por um: o Jorge tem um amigo improvável, o Nuno, e 130 mil e uns pós de outros amigos improváveis, que juntaram 6,6 milhões de euros para que um grupo de cientistas teimosos descubra a forma de lhe devolver a vida como nós, os que podemos correr, a concebemos. Amigos Improváveis, o filme de Olivier Nakache e Éric Toledano, com Omar Sy, tem o título original de “Os Intocáveis”. É isso que somos, todos, a cada ano, quando arrancamos para uma corrida sem fim porque estarmos ali é estar com todos os Jorges deste mundo, ao lado do Nuno e contra a ditadura do desinteresse financeiro pela vida real. Obrigada a vocês os dois por me terem dado o direito de privar com vocês…

Ivete Carneiro

Fotos FazAtletismo

 

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