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O cervo é o mais parecido com o corredor de trail

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Não admira que a grande maioria dos fotógrafos de trail em Portugal sejam minhotos. O Minho tem cenários deslumbrantes e condições fantásticas para a prática da modalidade, seja fotografia ou corrida na natureza. É quase impossível olhar e não ter um forte desejo de partilhar a alegria que imediatamente nos invade, o deslumbre de quem chega ao melhor ponto de observação de todo o verde característico e das pinceladas de azul que os rios sarrabiscam e o mar borrata a ocidente.

Cerveira era uma povoação que se erguia no alto onde agora se vê a escultura do (Rei) Cervo, símbolo da Vila, e cuja existência remonta à pré-história. Reza a lenda que o Rei (Cervo) levara para aquelas terras todos os cervos para protegê-los dos predadores e das suas lanças. Vila Nova nasceu da necessidade de proteger a fronteira e o reino português das tentações territoriais castelhanas. Reza ainda a mesma lenda que o último adversário derrotado pelo Rei Cervo foi um cavaleiro português.

A Taça Ibérica de Trail nasceu de um desafio colocado às duas localidades agora unidas por uma ponte cujo nome é “Amizade” – Tomiño é a localidade galega – pelo Viana Trail. Palco de treinos dos seus atletas, as subidas exigentes e de difícil acesso fazem da envolvente desde o Rio Minho um calvário para treinos e de caça difícil. Quem por ali se atreve depara-se com subidas que inspiram desabafos à boa maneira nortenha: vernáculo forte que adjetiva qualquer subida de muito f… forte. Os bosques, outrora pastoreio e refúgio dos ali extintos cervos, escondem belíssimos e divertidos single tracks, com longos serpentados sobre terra negra e fofa quase sempre junto a linhas de água. Também não faltam passagens por moinhos, conventos e calçadas. Desta simbiose perfeita entre o belo e o duro nasceu um trail bonito, seguro e exigente, como demonstram os 1500 m de desnível positivo em apenas 21 km, ou os mais de 3000 da versão ultra de 50 km, e que garantem que o trail no Minho continuará a proporcionar excelentes percursos.

As “armas” de Vila Nova, um Cervo passante de ouro em campo verde, armado de prata, olhando em frente, contendo entre as hastes um escudete de azul carregado de cinco besantes de prata, são símbolo de Terras de Cervaria, outrora refúgio e território livre para uma espécie que é símbolo de fecundidade, velocidade, força selvagem e temor. Apreciador da solidão, simboliza também a prudência, prontidão, agilidade e rapidez. Associado à caça, ao fervor sexual e à bravura na iconografia grega, onde figura junto a Diana, Afrodite ou Adónis, o Cervo será o animal mais parecido ao corredor de trail. Imitando o registo habitual do blogue Top Máquina cujo autor é também atleta do Viana Trail (exímios organizadores de todo o evento), podemos afirmar que correr esta prova nos faz melhores em tudo o que a natureza nos exige. E faz-nos encher a memória de imagens que nos farão voltar ao coração do Minho.

Rui Pinho

Fotos Marco Barbosa

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