O insano bailinho da Madeira

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“E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música”.

Sabes o que é ser ultra? É transformação, superação, resiliência, fazer o corpo ultrapassar fronteiras que nos fazem passar do estado de consciência e entrar num estado semelhante à loucura, e que só quem “lá” esteve compreenderá.

Muitas vezes no apogeu do esforço pensamos no que nos trouxe até ali, se o caminho fez sentido e se existe limite para a insanidade que colocamos na procura incessante de transposição de barreiras que pensávamos inacessíveis. De conquista em conquista, de meta em meta, de objetivo em objetivo que muitas vezes temos de readaptar a circunstâncias que não podemos ou conseguimos controlar.

Crescemos diariamente num caminho sem destino, rumo à satisfação dos apaixonados. Mantemos rumos, teimosos. Teimamos tanto que muitas vezes passamos a barreira do racional. O racional não nos satisfaz. Já fomos e não gostamos.

O Madeira Island Ultra Trail é uma prova do Ultra Trail World Tour. Quer isto dizer que proporciona um ultra desafio aos que se atrevem a percorrer todos os seus 115 km de travessia da ilha, desde Porto Moniz a Machico, com passagens pelos pontos mais altos e mais baixos de todo o território da pérola do Atlântico. É dura. Demolidora. É única, e por isso seleccionada para fazer parte de um calendário onde têm lugar as provas mais exigentes. Tem escadarias intermináveis, paisagens de cortar a respiração, subidas que fustigam todos os músculos do corpo e que fazem até as pálpebras colapsar em espasmos. As forças esvaem-se à medida que a alma se enche do orgulho próprio dos que alcançam o inalcançável – é este o combustível dos que se atrevem. A recompensa? Emoções e poder correr ao lado dos melhores do Mundo.

  
José, à esquerda

José, homem nos seus 50, atreveu-se e inscreveu-se depois de tanto ouvir falar da dureza da Madeira. Treinou muito. Fez provas e mais provas até estar ciente que já tinha traquejo para enfrentar a insanidade. José seria mais um entre os mais de 580 que partiram de Porto de Moniz se tivesse desistido ou cortado a meta. Mas este lutador, que há poucos anos pesava mais de 130 kg, tinha uma outra história para ser contada. Foi de Porto Moniz a Machico, concentrou-se em ultrapassar todos os controlos dentro do tempo limite, inteligentemente descansou quando devia descansar, alimentou-se bem e bebeu o suficiente para não desidratar. Entrou na segunda noite depois de passar o ponto mais alto da Madeira, deliciando-se no Areeiro com o ocaso do dia à medida que o sol ia mergulhando nas nuvens. Enfrentou o Poiso, a Portela, o Risco e o renovado Larano durante toda a noite sem os poder apreciar. José chegou a Machico. Na última descida, onde devia ter virado à direita por umas escadas que desembocavam na marginal a 100 metros da meta, desorientado pelo cansaço e pelas mais de 30 horas de desafio insano, enganou-se e seguiu em frente. Na Marina disseram-lhe que estava enganado, que devia subir. Subir? Depois de descer tanto após tanto ter subido, o confuso José recusou-se a subir. Subir seria ir de novo para o inferno que havia acabado de transpor. Não subiu. Eram 100 metros para alguém consciente. Numa ultra ultrapassa-se esse estado de consciência quando se começa a superar a dor. O cérebro deixa-nos destruir o corpo, mas entra em choque com tamanha inconsciência. E este ultra-conquistador do MIUT foi para a casa que alugara a escassos 100 metros da meta. Deitou-se a dormir e só deu pela confusão que o cérebro lhe pregara já o dia ia alto e nada havia a fazer.

O ultra trail é cheio destas histórias. Zach Miller, o vencedor com um tempo recorde de 13h52, trabalhava em cruzeiros e passava as noites a treinar no tapete do ginásio e escadarias do barco enquanto os seus colegas relaxavam no bar. A última vez que estivera na Madeira deram-lhe algumas horas para visitar a ilha; teve tempo de passear de bicicleta no Funchal e observar desde o Monte a baía onde o seu barco ancorara. Surpreendeu tudo e todos numa corrida nos EUA, há pouco mais de um ano, e em Agosto último venceu categoricamente o CCC – prova de 100 km integrante do programa do Ultra Trail do Mont Blanc. Também Caroline Chaverot, vencedora feminina (e 8ª da geral) consta da lista de vencedores do CCC. Ambos ambicionam lutar pela vitória no UTMB deste ano e demonstraram uma excepcional capacidade para o tentar.

Não há limites nem entraves para os sonhos. Há desculpas para não tentar. Temos que saber adormecer o cérebro para enfrentar as nossas virtuosas insanidades.

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O MIUT transformou a Madeira e catapultou-a para o epicentro do trail internacional. Todos saem desta prova com vontade de voltar e desfrutar das belezas da ilha. Tofol Castanyer, espanhol que conquistou brilhantemente o segundo lugar, confidenciava antes da cerimónia de pódio que a Madeira era dos poucos lugares onde correra que desejava visitar com a família. Na véspera colapsara na meta e estivera a soro para recuperar da desidratação. É um esforço desumano que só se compreende pela emoção inenarrável de vencer desafios inimagináveis. 7000 metros de desnível positivo são seguramente uma violência para o corpo, mas revigoram e transformam para melhor qualquer ser humano. A Madeira marca.

Tenho a certeza de que todos voltarão. E tenho a certeza que José voltará para percorrer de novo todos os 115 km e cruzar a linha de meta. Depois de tanto esforço, da formidável transformação que fez desde a obesidade até esta saudável insanidade, José continua o mesmo homem sorridente e realizado e é agora, também, um finisher do MIUT. Só lhe falta o colete.

Rui Pinho

Fotos: Miro Cerqueira / Prozis

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