Testámos as North Face Ultra Endurance

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Tenho a noção clara que avaliar calçado e equipamento de corrida, especialmente de corrida de montanha, é uma tarefa ingrata e difícil de concretizar. Primeiro porque há sempre a desconfiança, por parte de quem lê, de que quem escreveu será pouco rigoroso a avaliar um produto oferecido. Depois porque quem avalia sente-se sempre um leigo para referir características técnicas dos materiais, que os fabricantes destacam e não conseguimos identificar ou valorizar.

Chegaram-me às mãos em Julho umas sapatilhas North Face Ultra Endurance. A marca pedia a colaboração de atletas de corrida em montanha que estivessem na disposição de testar o modelo e fazer-lhes chegar as sensações e críticas relativamente ao seu uso. Em lugar de pedirem análises publicitadas, pediam reações. Aquilo que fazem habitualmente com experimentados atletas que patrocinam, fazendo encontros em estágios onde testam os produtos, os chamados “Lab tests”, fizeram-no com atletas mais ou menos anónimos de todo o mundo.

De Agosto até à última semana fiz mais de 700 km com este par de sapatilhas, mais de 500 deles em prova. Quis testar mesmo exaustivamente o modelo, nas mais extremas condições. A robustez apresentada pode ser confirmada pelas fotos, mas a segurança em piso molhado, seja ele de que tipo for – pedra lisa, granito, relva ou mesmo “verdete” – é impressionante. A sola Vibram modelo Megagrip agarra mesmo como nenhum outro modelo que eu tenha experimentado. Na última semana, no Gerês, num dia de chuva e algum gelo, numa prova que acaba dentro de um riacho, parecia estar a correr em terra firme e seca. O único senão deste modelo é o comportamento em lama, já que o baixo relevo da sola não permite tanta tracção – e a minha falta de qualidade técnica acentua a tendência a escorregar.

Protecção excecional na biqueira, portou-se superiormente nos 110 km do UTAX, em Outubro, num constante jogo de pontapé nas pedras do percurso. Com um amortecimento suficiente sem ser exagerado, dão uma excelente resposta quando solicitados para longas corridas, como na PT281, em que foram submetidas a mais de 50 horas de esforço. Dos quase zero graus da Lousã aos mais de 40 no alcatrão de Penamacor, a sensação térmica no pé nunca foi a de andar descalço, oferecendo mesmo a protecção que se pretende e anseia no calçado de corrida. O tecido e união entre sola e parte superior é excelente, notando-se apenas desgaste (sem qualquer rasgão) na parte interior do pé. O aperto do laço, muito em cima do tendão frontal do tornozelo, pode causar desconforto; resolvi a questão usando menos um buraco para os atacadores. Drena na perfeição a água e a palmilha utilizada não apresenta deformações ou desgaste superior ao da sapatilha.

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Apesar dos tantos km a suportar mais de 80 kg em terrenos do mais agressivo aos mais suaves, estão com um aspecto impecável. Por comparação, comprei uns Brooks Cascadia 10 há menos de um mês: 160 km depois já apresentam um rasgão no tecido.

Embora às vezes possamos deslumbrar-nos com a aparência externa, moda, ou simplesmente sermos vítimas de marketing (o meu caso na compra dos Brooks), devemos ser rigorosos e tentar estudar as características dos produtos com objetividade. Se gostamos de um calçado em particular devemos procurar um modelo semelhante quando aquele já não está disponível para comprar. Drop, tipo de sola, tecido, espaço para os dedos e altura da sapatilha na zona do calcanhar são pormenores que nos escapam quando procuramos um novo modelo, mas que irão influenciar mais a nossa impressão e sensação do que propriamente as opiniões dos amigos ou a força do marketing.

Dissecando o nosso calçado devemos ter sempre em atenção as mais valias que identificamos facilmente. Lembrem-se, o diabo está nos pormenores. Podem ser com forma adequada à nossa passada e ao nosso conforto e durarem poucos km. Assim, em que aspectos podemos basear-nos para avaliar se uma decisão é apropriada quando se trata de escolher os sapatos? Encontram sempre a resposta no modelo que mais apreciarão.

Fundamental é avaliar o drop (queda entre o calcanhar e os dedos) e o arco central da sola. Outro pormenor importante são as costuras interiores e exteriores, reforçadas neste modelo Ultra Endurance; quanto mais costuras interiores e exteriores, maior é o reforço de proteção do pé (evitando, por exemplo entorses) e do material (evitando rasgões na base do tecido, junto à sola). A língua protectora dos atacadores é acolchoada e suficientemente grande para não sair do lugar, como se exige num bom sapato de corrida. A aba superior tem uma forma pensada para evitar a entrada de pedras ou areias, que levam muitas vezes ao aparecimento de bolhas. Os reforços de calcanhar e biqueira completam este excelente, robusto e duradouro modelo, protegendo o pé para todas as eventualidades, que como sabemos são imensas e surpreendentes sempre que corremos na montanha.

Resumo e conclusão: Vou comprar outros com o dinheiro da devolução do modelo que comprara por impulso.

Rui Pinho

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