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100K: a todos os que correram 200

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A noite caiu, cedo até, antecipada pelo mau feitio do clima. Caiu e com ela arrastou a torrente de pensamentos que estavam guardados, no êxtase da conquista. Caiu, cedo até. Faltavam dez quilómetros. E caiu com dor sobre as dores, que estavam com os pensamentos, em êxtase. Correr 100 km é uma coisa indizível. Não, não é uma coisa de heróis. Eu corri 100 km. 102 até, porque os pés nunca pisam as medições dos definidores de percurso. É apenas uma coisa indizível. E, àquela hora em que caiu a noite, era coisa tão indizível que a palavra, a única, gutural, era desistir. Aos 90 km.

Quando o João Paulo Meixedo e o Vitor Dias, esses descerebrados, me convenceram a alinhar na partida da prova que eles preparavam para Lousada – estávamos nós, em estertor, a recuperar ativamente os músculos de um belíssimo Trail na ilha de Santa Maria, com esse fast recovery de excelência que é o Papa Figos -, só aceitei porque o raio do pássaro me olhava já de esguelha do maldito rótulo. A rir, naquela de, tudo bem, vou rir lá também, corro uma maratona e depois fico lá a apoiar os loucos, como faz sempre tão bem a Ana Luísa Xavier. Fico com ela e com a Carmen e umas minis e o Morais e o infinito prazer de ver rostos que nos dizem tanto continuarem em pista. Seria isso. Só que não foi.

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Os 100K de Portugal eram efetivamente numa pista, para abrir. Depois subiam muito ligeiramente (convenhamos, gente da corrida de montanha, aquilo não sobe) em terra batida, para entrar no asfalto plano desce sobe plano desce plano sobe que, resumido, era plano. 2300 e uns pós de metros por volta. De loucos, diz quem não experimentou. Dizia eu. Não é um drama. É, até, um desafio diferente. Porque numa corrida habitual (a não ser que seja na nossa santa terrinha) o desconhecido pode ser nefasto. Dá-se tudo enquanto se pode e depois gere-se e, muitas vezes, essa fase da gestão oferece-nos dificuldades imprevistas. Quem fez Paris sabe do que falo. A partir dos 25 km, aquilo é um sobe e desce desesperante e inesperado. Em circuito não. Em circuito, cedo percebes que ali e acolá terás de abrandar. Que deverás beber e comer de x em x distância. Que poderás até antecipar, pelas curvas do percurso, o que te vai doer amanhã (quer dizer, mais ou menos. Vai doer tudo). E que a definição de estratégias não é só coisa de políticos. Em circuito sabes que poderás dizer a maldita palavra e sofrer pouco mais, que o falhanço está ali à entrada da pista de atletismo de Lousada.

Pensas em tudo isso enquanto ouves toda a discografia de Ludovico Einaudi que tens no iPod e, parecendo que não, passou da maratona o diabo do italiano. E olhas para o GPS e descobres que és oficialmente parva e que despachaste uma maratona em 4h30, apenas 30 minutos e meio acima do teu melhor, e que isso é uma asneira das muito estúpidas. Falta-te uma maratona e meia e chove sem dó e enregelas e olhas o chão e vês que não estás sozinha, nunca estarás. Percebeste-o agora e segues, passas pela Carmen que te diz que vai beber as tais minis, pela Ana Luísa que se equipa para correr 14 km numa estafeta para uma maratona à parte, rápida, enquanto tu te tornas lesma, a arrastar-te na estratégia corre aqui caminha ali, corre e dança. Ainda te sobra energia para acompanhar o voo lançado, pedindo uma mão estendida para te guiar enquanto corres de olhos fechados, de “Love is a mistery”, passas pelo médico da prova que está em prova, tal como está o diretor dela e que te fará ver que aquele início foi mesmo só para mostrares a ti própria que tinhas a mania. Embrulha.

E pensas. Em tudo. Pensas que estás ali como deverias estar na vida. Na redação que te consome porque tu deixas. Pensas que deverias levantar-te todos os dias como quem parte para 100 km, sem saber ao que vai mas com a gana de ir até onde der. Até ao fim.

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A noite caiu, cedo demais. Já tinhas dormitado dez minutos e trocado os trapos encharcados, já tinhas visto que a meia te transformara o dedão numa bolha de sangue gigante quando faltavam 25 km – está feito, atiravam eles, os outros, os que acham que 25 para quem leva 75 é canja. Não, não é. É o fim do mundo – e já tinhas dito ao Meixedo e ao Vitor que haveriam de pagá-las e sem Papa Figos na língua. Já tinhas sabido das desistências, até porque a primeira delas foi do Manso, o recordista espanhol das 24h, das 48h, dos 100K. E sabias porque ele vestiu-se e foi, até depois de a noite cair, dar ânimo aos que ficaram. Sempre. Até ao fim, até às 43 voltas que ele não conseguiu terminar.

Caiu a noite e o final das maratonas paralelas e a pista fez-se breu de luz e de almas e tu continuavas ali até que, numa iluminação divina, dizes “já chega, não aguento mais”. Dizes “desisto”. Aos 90 km. E alguém te dá a mão e te manda calar como quem acalma uma criança acordada por um pesadelo. Outro alguém te olha com um olhar de força a clamar aguenta-te, a fazer-te ver que, se caminhares, agora, já cumpriste o impensável. E outro ainda grita o teu nome a cada regresso ao tartan. E a chuva, providencial, lava-te a cara e disfarça as dores.

Sim, 100 km doem como é impossível. Doem por todo o lado, até nas mamas, perdoem-me ser tão gráfica, há coisas que só se dizem como são e esta é delas. Esta e as assaduras generalizadas nas partes, é assim a vida de um corredor de resistência, nem quero imaginar aqueles que ousam aproximar-se dos 300 km, que os há e um deles até veio ali de tarde bater palmas, João Oliveira, parabéns por Milão Sanremo, que farias dias depois, e eu aqui a achar que fiz uma grande coisa. Não fiz. Porque não fiz sozinha. Porque nunca faria sozinha. Porque fiz contigo, Ricardo Bastos, contigo, Analice Silva (e ainda me deste os parabéns quando me passaste na tua última volta ia eu a duas horas do fim, porque eu, menos 30 anos do que tu, estava na quase meta dos meus primeiros 100 km), contigo, linda Flor Madureira, contigo Pedro Amorim, contigo Carla André, e sobretudo contigo, Renato Viana. Vocês correram os meus 100 km, não fui eu. Eu não estava ali. Eu andava a voar com Einaudi e a ver de cima. Diz que se chama resiliência. Não sei que nome lhe poria. Sei que ainda não acho que seja eu, ali, a cortar a meta às 13h56 de prova, às escuras, debaixo de chuva inclemente e frio e vendaval, de mão erguida pelos meus primeiros três dígitos. A lição foram vocês que ma deram. Vocês correram 200 km…

Ivete Carneiro

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2 comentários

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  • Pedro Amorim

    16.4.2016

    O meu comentário a este relato da Ivete Carneiro é sobretudo um desafio. Os parabéns já os dei, acompanhados das merecidas e justificadas palavras de apreço e admiração e de um carinho grande. Tarefa difícil, porque o que era justificado era alguma intervenção capaz de vincular o carinho que em mim despertou a sua superação e não apenas alinhar adjectivos que por mais superlativos não conseguem nunca materializar o que vai na alma.

    Li e reli o relato e dei por mim a sentir que me fez sentir com alta definição aquilo que a Ivete sentiu durante aqueles dificeis cem kms em Lousada. Poignant! sente-se que aquelas horas á chuva e na escuridão e ao frio a levaram quase e explodir. Não o fez e explodiu agora. O seu depoimento vem carregado de sentimento impelindo-a a partilhar aquilo que não se partilha, pelo menos em público e muito menos perante o grande público através dos media e num depoimento que expõe uma mulher em muito da sua intimidade feminina, ainda por cima na figura pública de uma respeitável editora do proeminente Jornal de Notícias.

    Todavia, se a escrita é directa funcionando quase como um murro na comodidade e conforto do leitor, se nos faz doer tudo o que doeu à autora e sofrer quase como ela sofreu, falta explicar quais foram os pensamentos ou os motivos que a fizeram superar esse sofrimento e atingir o objectivo. De forma humilde e com a descrição que a caracteriza, a Ivete coloca nos outros a responsabilidade pelo seu sucesso. E tudo registou, os nomes, os gestos, as palavras. Muitos nomes menciona, entre os quais o meu sem que na verdade eu verdadeiramente o mereça, e muitos ficam subentendidos sendo certo que estão tambem registados no seu coração. Mas tem que ter havido algo mais e atrevo-me a pedir à Ivete escritora e pensadora de grande riqueza intelectual, que faça agora um esforço semelhante ao esforço físico e psíquico da sua corrida e tente numa segunda parte do seu testemunho desvendar e connosco partilhar o que mais terá contribuido para conseguir chegar ao objectivo. Bem sei que não é fácil. Aqui fica o desafilogio!

  • Carmen Santos Lima

    15.4.2016

    Parabéns…Parabéns…Parabéns!!! Pela escrita claro :-)