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Do UTAX da Lousã à lousa do Paleozóico

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Foto: Prozis

É imediato. Na primeira subida a caminho da capela de Santa Justa. Decido que a crónica será na primeira pessoa, porque já as lágrimas me correm rosto abaixo e não há meio de falar de lágrimas destas sem ser na primeira pessoa. É cedo, demasiado cedo para um domingo de manhã depois de uma semana cansada, dura. Anunciava chuva, ela tarda, ela choveu ontem de madrugada, ela não está aqui, para lá de estar cá dentro. Estou aqui tão cedo e não só daqui a duas horas, como devia ser, porque a vida tem voltas. Porque nos põe problemas de família nessas voltas, porque nos põe a relatar terrorismo até horas impróprias para consumo de quem tem de estar nestas andanças cedo.

Deveria ter estado cedo, mas era ontem, e não era aqui. Era na Serra da Lousã que o João Lamas sabe que amo, a partir para os 53 km do TSL, a prova dos meninos do Ultra Trail das Aldeias de Xisto (UTAX), a que tem candeeiros encantados e que me conquistou em outubro passado, inesperadamente. O projeto era ser “eu e o trilho” lá e vir aqui, a horas já decentes, fazer a prova os Trilhos do Paleozóico para meninos, nas serras de Valongo que o Luís Pereira sabe que não me fascinam. Havia dois anos que a vida me afastava do Paleozóico, à terceira tinha que ser de vez, quanto mais não fosse para ver a ponte de madeira que ele pôs ali no percurso, para olhar finalmente com os meus próprios olhos as lagoas das pedreiras de lousa, para subir o raio do tão propalado elevador, a ritmo de caracol, a derreter o ácido do TSL.

Foi tudo ao contrário. Tenho a sorte de ter no João e no Luís dois amigos que sorriem. E que, apesar de terem visto os calendários nacionais de trail trocarem as voltas a ambas as provas, justapondo-as no mesmo fim de semana, conseguiram esgotar todas as distâncias (Portugal é grande e chega para todos e os calendários são coisas para os três primeiros, nunca para os três últimos, perdoem-me a sinceridade, a malta quer é correr na natureza e rir com candeeiros e com pedreiras de lousa – até nisso as provas se aproximam, no nome das coisas).

O João adiou a nossa mini com bonomia e o Luís passou-me de bom grado para a prova dos senhores, a ver se a destruição lava a alma. A modos que estou aqui, são oito e meia da manhã e eu já choro. O Paleozóico é reconhecidamente uma prova dura. Só não sabia que seria dura logo a abrir. Ou é a vida que é dura. Pendurada nos bastões mal deixo as últimas casas de Valongo, recordo Miranda do Corvo e a doçura técnica da subida à mais bela das aldeias de xisto, Gondramaz. Olho para trás e vislumbro a névoa que cobre a suburbe portuense. Vista daqui, até parece coisa de filme. Penso em Salah Abdeslam e nas atrocidades que ajudou a engendrar na noite de 13 de novembro. Releio mentalmente o que escrevi no jornal na madrugada de ontem, no título que escolhi para anunciar a detenção do cérebro dos atentados de Paris. “Isto não acabou”. E visualizo a mão trémula do meu pai a estender o cartão do cidadão para a consulta que lhe ditou o futuro, à hora em que Abdeslam era preso.

Foi aí que decidi ligar ao João a pedir desculpa por não ir namorar com candeeiros na solidão da cauda do TSL. Miranda era demasiado longe para ser possível, o trabalho e a alma não iriam tornar a viagem fácil. E chovia. Chovia tanto que, contou-me a Paula Lage, ontem, tinha sido a maior dificuldade de que se lembrava, ela que arruma tudo com um ar de gozo. Foi ao pódio e voltou a tempo de me tirar a fome no Caraças dela (se não conhecem, não sabem o que perdem) antes de eu me meter no Paleozóico, a fazer de conta que sou grande e que faço 50 km em Valongo. Não sei se foi da subida logo a arrancar, se foi das imagens que não me saíam da mente, tantas, tão más, desatei em lágrimas. E deixei passar toda a gente. Pensei que ir correr para o monte fosse um bálsamo. Não estava a ser. Era antes o inferno. E foi sendo. Luís, sabes que odeio esta serra, não sabes?

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Foto: Foto Conquilha

Eucaliptos, vertentes carecas, a vegetação arruinada por anos de exploração intensiva, tudo me soa mal. Até que no topo de um cume de pedras tudo se esvanece. O Porto lá ao fundo, o mar até, nuvens baixas e eu acima delas, a boa disposição do Ricardo Bomtempo a fotografar e o sanatório ali, da banda de lá de um trilho estreito e serpenteante, do mais belos que já fiz. Sim, em Valongo. Corro. E corro. E até passo gente. E paro para aplaudir o Diogo Fernandes e o Armando Teixeira que já me apanharam e lideram a prova dos meninos que eu deveria estar a fechar. E Couce. Couce é um dos segredos mais bem guardados da suburbe. Olho os candeeiros – também os há aqui – e sorrio com as memórias. Há dois anos, vim aqui reportar a instalação das primeiras caixas de correio da aldeia (verdade, em 2014. Até então, era o café da aldeia mais próxima que guardava as cartas) e conheci os candeeiros, esse magnífico mobiliário urbano que os fundos trazidos pelo título de “aldeia de Portugal” fizeram crescer ali. Esses que, quando os burocratas determinaram encanar a água da fonte que servia Couce, viraram chafariz. Rio sozinha, tanto que torço o pé. Duas vezes. E já não vejo coisa nenhuma. E só já não choro porque entretanto o meu cortejo cruza o da prova dos iniciados (12km) e parece mal, que diabo.

Mentira. Mal regressam eucaliptos volta a negrura e, aos 18 km, as lágrimas. Num plano, praticamente a descer. Diz um que já só faltam 30 km. Apetece-me muito sinceramente que ele trinque a língua, só porque sim. Não sei se trincou. Sei que acabaria, tantas horas depois, por terminar atrás de mim. Maldade. Sim. Daquela pura, boa de verdadeira. Revigora até. Isso e secarem-me as lágrimas com paciência. Ao ponto de, quando o carrossel de elevadores arranca, já me ter endireitado a postura e enchido de determinação. Mesmo quando uma curva no terreno me revela o que já temia: a &#*@ da subida de Gens. Só penso na Lucinda Sousa, que terá passado aqui há horas, a rir da desventura alheia, ela que vive no sopé deste outro elevador que, meninos, põe o intitulado num chinelo. Qual quê? A ti já te conheço que ela trouxe-me uma vez aqui, e depois trouxe-me a Joana e eu subi e depois vinguei-me com as laranjas do quintal da Lucinda (quem não conhece não sabe o que perde) e até já sei que a seguir vem o elevador das batatas (por que raio terá alguém despejado ali sacos de batatas?) e só não sabia que antes havia outro, com água a correr barro abaixo. Não me agastou. Lavei a cara. Duas vezes. Descansei nos bastões, cabeça a bater nos joelhos, enquanto o Renato – que deveria chamar-se Job – ria e registava a minha luta. O que não nos mata faz-nos mais fortes, dizem as frases feitas. E lá vieram as batatas. E depois a pedra de Pias, a escalada, as cordas que não usei, a escada de madeira e as minhas vertigens. E a vista imperdível sobre todo o Grande Porto.

Penso no Talasnal. Chovia e havia lama quando estive no Talasnal, em outubro. Ontem também. O UTAX foi mais abútrico do que os Abutres, foi um festival de chuva e terra líquida, um sucesso, dizem-me todos. Já fora em outubro. Mas estou em Pias e não se está tão mal quanto julgaria poder estar e já conto três elevadores e ainda falta o mor, dizem eles. Sei que estou praticamente no fecho do cortejo. Já nem faço conta às horas, já passei pelo belíssimo olhar azul do Matias Novo a registar um intervalo de felicidade (a descer, ora), já enchi a barriga de tomate com sal, já despejei todos os fundos de garrafa de coca-cola e enfartei-me de sandes de chourição e de queijo e liguei para casa e ouvi gente a rir do outro lado da linha (cada dia é um dia novo) e percebi que tinham sido roubados uns quilómetros à distância. Saberia depois, disse-me o Asdrúbal, que foram os caçadores. Uma ameaça feia, como se a natureza tivesse donos só porque alguns usam armas. Haveria tanto para dizer sobre quem usa armas que prefiro calar-me. Já prendi um Abdeslam anteontem, preciso de paz.

E a paz chega com a visão das filas de lousa, o azul turquês da lagoa, parecido com o da lagoa que sobra da escombreira de alguma mina perto de Gens. Chega com a dita ponte pênsil, quase canopi, estivesse ela em altura. Chega com o trilho singular sobre lascas duríssimas a desafiar os tornozelos. Aí é o Armando Teixeira que me ocorre, ele que me disse, há uma semana, que ter corrido 50 km na neve iria fazer dos meus uns tornozelos de aço. In deed. E mais uma parede técnica e mais dois abatidos e Couce de novo e elas, as magníficas caixas de correio, um bloco na eira do povoado, e as gentes, tão poucas, a atirar boas tarde entre carvalhos. Não, Couce não fica atrás de Gondramaz. É apenas diferente (e quem não conhece não sabe o que perde).

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Foto: Spine Clinic

Esta coisa de correr nos montes tem (ainda vai tendo) essa beleza de nos fazer descobrir, debaixo de cada pedra, um riso conhecido. Depois das manas Vieira, a imparável Liliana Gomes a puxar pelos derradeiros e, por que não, uma rápida e divertida lição sobre como rentabilizar bastões, em pleno elevador. Sim, sem querer, estava já no meio dele, o tal, o animal. Pois que não, não era a primeira vez que usava bastões, era apenas mais uma vez em que estava a usá-los mal, ora bem. Viro costas e vejo que já está, derrotei o elevador e não morri e ainda tirámos selfies, já sem lágrimas porque mas secaram. Dá cá que eu levo-os, disse ela. E levou-os, até ao corredor ecológico, até voltar para trás para dar ânimo a outro. Já há casas, um riacho gelado para crioterapia preventiva para o raio dos joelhos que deram sinal de vida (treinasses…) e a meta. Uhhh não sou a última! Quero uma bifana.

E o Paleozóico, nisto tudo? É uma brutalidade poucas vezes bonita, mas é um desafio tão bem pensado que, passada a dor de alma, dá vontade de repetir. E a Lousã? Pego no telefone e digo ao João que vou redimir-me num fim de semana destes. No Centro de Trail de Vila Nova e na taberna do senhor Falcão e nos trilhos marcados, sem pressas e sem gps. Só me falta dizer ao Luís que deveria convencer as câmaras de Valongo e Gondomar a marcar definitivamente os do Paleozóico. Para eu poder lá voltar sem pressas e sem gps, também.

Ivete Carneiro

Foto de capa: Runners – Matias Novo

1 comentário

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  • João Paulo Fernandes

    30.3.2016

    É tão bom ler estas crónicas, quem escreve assim devia escrever ainda mais.
    Parabéns! Adorei.