Armando Teixeira: “Não há super heróis”

Lembra-se de, há oito ou nove anos, olhar com ar de respeito incrédulo para as sapatilhas e para os outros, esses que corriam tanto. Não percebia “como é que havia pessoas que corriam um hora”. Armando Teixeira, 40 anos, é o retrato da humildade. Diz que qualquer corredor consegue fazer o que ele, hoje, trata por tu: provas de 100 quilómetros. Em oito ou nove anos, o técnico de laboratório da Efacec tornou-se num dos melhores ultramaratonistas portugueses e europeus, daqueles que cabem nas escassas contas de uma mão quando se tratar de desafios indescritíveis como cumprir em 92 horas uma prova de 330 quilómetros.

“Não consigo explicar” como se corre 330 km, conta-nos, à margem de um dos campos de treino que organiza na Serra da Estrela para ensinar a montanha ao mundo. “Em dois ou três anos [de corrida] já conseguia fazer provas de 100 quilómetros, provas de 13, 14, ou 15 horas. Acho que 30% disto é treino e 70% é cabeça”. Força mental. Como aquela que imprimiu a todos os atletas que passaram por ele na partida do I Estrela Grande Trail, em maio do ano passado. “Consegues sim”. E que promete voltar a sublinhar a 21 de maio, na segunda edição da prova que sonhou para o ponto mais alto de Portugal Continental. Serão 26, 46 ou 90 km, à escolha, à medida da “força mental” de cada um. Dessa mesma que, num treino duro, dá a quem o acompanha. “Só tenho uma exigência: vamos todos até ao fim.”

“Temos que ter uma força mental fora do normal. Não é que sejamos super heróis, que isso não existe, mas temos que ser resilientes e ter muita força de vontade”, explica-nos o atleta, que tem família e trabalha por turnos e vê-se obrigado a adaptar o treino à vida. Ou será o contrário? Ivone Ferraz, a incansável companheira, segue-o sempre que pode. Apoia-o, dá-lhe a dita força. Vê-o sofrer, não raras vezes, e engole, outras tantas, a vontade de lhe dizer que desistir.

“Não gosto de utilizar o termo desistir. Desistir acho que é para sempre.” Recorda o Ultra Trail do Monte Branco, que largou a meio. “Naquele dia tive que me retirar”. É a palavra mais acertada. “A montanha vai lá estar sempre” para um eventual regresso, diz, com bonomia, ainda que reconheça aquele nó na garganta de ver atirado ao chão o investimento temporal, familiar, mental e económico que uma prova de três dígitos impõe. Treinar quando o mundo descansa exige motivação. E correr muito exige treino. Todos os dias? Talvez não. Treino de qualidade, antes. Acompanhado, corretamente alimentado, descansado também.

Este ano, Armando tem um objetivo: voltar em agosto ao Monte Branco e vencê-lo sem dor de alma. São 168 km. Fez em fevereiro 125 km nas Canárias. Em abril alista-se em 115 km na Madeira. Em junho quer bravar 119 em Itália, no Lavaredo. Quer pontuar em três delas, todas do circuito mundial de trail. “Quando partimos para uma prova acima de 100 km nunca podemos dizer que a vamos terminar.Temos que interiorizar que é um grande desafio e que queremos terminá-lo. E daí deixar rolar e virem ao de cima as sensações”. Porque não há heróis.

Ivete Carneiro e Raquel Teixeira

1 comentário

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  • Fernando Araújo

    27.3.2016

    O mais saudável é caminhar, correr e correr porque nos dá a sensação de exploração, conquista, glória e acima de tudo segurança e liberdade!
    Parabéns!