A montanha é mesmo isto, um enorme sorriso

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“Prepara a banheira, as rosas, os morangos e o champanhe. Prepara tudo. Armando a chegar”. À vista, os primeiros telhados das Penhas Douradas, 23 km seguidos nas pernas, os últimos seis a conquistar mil metros de desnível desde Manteigas, a terra que teve nome das mantas que vamos querer para nos embrulharmos quando olharmos para trás, mais logo, no arrepio gelado do corpo a recuperar da dor. Armando Teixeira fecha o cortejo, dando aos fracos a honra de serem secundados por um herói. Ele não gosta do termo, admitiria depois, “não há disso”. Há uma enorme capacidade de resiliência e força de vontade, diz ele, oito dias depois de 125 km em Gran Canaria. Seja. Estamos no segundo e último dia do campo de treino na neve que ele organiza anualmente, nós com os músculos a pedir misericórdia, ele a recuperar da queda canarina – mostrou-nos, sem pudores, em vídeo, um gigante tralho numa descida rápida – e ambos com a sensação estranha de que 50km acumulados em dois dias são um elixir. Porque vimos o sifão da Lagoa dos Conchos que leva água ao longo de 1519 metros até à Lagoa Comprida, mistério que só conhecíamos das coisas virais das redes sociais, porque vencemos o relevo subindo a correr sobre o gasoduto, literalmente, porque deixámos as graciosas passadas de um yeti todo equipado no alvo manto que fez a graça de não derreter até lá irmos. Porque corremos na neve. E correr na neve é…

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“Parece que o chão te suga e estás sempre a lutar contra qualquer coisa. É diferente, é correr em desequilíbrio, é uma constante superação de ti própria, passo a passo.” Diz Sara. É uma indefectível cliente dos campos de treino de Armando Teixeira, ao ponto de já fazer parte da equipa. Ela que um dia se perdeu com Armando e outros, porque a montanha resolveu ser quem é, uma meretriz que “não faz favores a ninguém”. Aqui já é Júlio Barbas quem a define, ele que trocou uma carreira de professor universitário de economia para se instalar a 20 km de um medico, de uma farmácia, de um supermercado, de uma rede de telemóvel, a horas do mundo quando a montanha resolve ser quem é, ora. É sócio de Armando nestas lides dos campos de treino, nomeados em inglês de Trail Camp porque sim. Por que não?

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E então, dizias, a montanha? “Fomos abençoados por este fim de semana mágico. Podia não ter acontecido porque a montanha não nos perdoa nada. Ela não tem reservas.” A equipa são vários elementos com intercomunicadores, a atualização constante da posição de cada um deles, Miguel Catarino chegava ao Vale do Rossim quando Armando lhe pediu rosas. Pouco antes, meia dúzia de corredores cheios de gana tinham fugido do grupo. Estavam algures entre dois rádios e a fúria de Armando. “Não pode ser”.

Voltemos a Júlio. “A montanha requer muito cuidado. Requer um plano B, C, D e pensar muito bem naquilo que se vai fazer e adaptar.” O Trail Camp é calendarizado com antecedência, mas desenhado dois dias antes de começar. “Decidimos os percursos que íamos fazer quando tivemos a certeza das previsões atmosféricas que íamos ter para o fim de semana. A montanha é mesmo isto, imprevisibilidade. E torna-se também muito interessante por isso. E quem quiser contrariar isto só corre o risco provavelmente uma vez.”

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Respeito. Cruzámos dezenas de curiosos, atrás do buraco dos Conchos. Alguns de sapato de cidade, bota de couro e brilhante, calça de ganga a trilhar movimentos. Foram ver a neve. “Há serra para além da Estrela, há serra para além da neve”, diz Armando, há a necessidade de usufrui-la em segurança. “Num Trail Camp, acima de tudo aprende-se a respeitar a montanha. Há muita gente a correr na montanha, agora, nova, que vem da estrada e que não sabe exatamente quais são os perigos da montanha. Num dia de sol é muito bonita, num de inverno com nuvens e nevoeiro pode tornar-se um sítio muito perigoso. Saber ler a montanha, perceber a montanha, sentir a montanha: estes Trail camp ajudam as pessoas a descobrir e a perceber, em segurança, isto tudo.” Diz Miguel Catarino, que anda nela desde os seis anos e já contagiou Guilherme, 11 desconcertantes anos.

“Corro porque o meu pai começou a correr e um dia convidou-me e eu comecei a gostar.” Porquê na montanha? “Por diversão. É diferente de estar na cidade. E também é muito bonito, é uma forma de relaxar boa. É o convívio.” Subiu o gasoduto, ele. E desceu o Vale Glaciar. E guiou-nos, teve vezes, pelas mariolas. “E nas pedras há umas gravações, assim, uns traços com várias cores e cada cor é um caminho. É assim que se orienta. É fácil. De uma mariola dá sempre para ver outra, excepto quando a neve tapa. Aí é que complica. Por muitas vezes temos que usar outros métodos. O relógio, os gps.”

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Respeito, lá está. Guilherme quer ir ao cume do Monte Branco. Por respeito. “Porque é um desafio e a vida é assim cheia de desafios e quando não há têm que se criar. Não é só uma montanha, é um objetivo, é o cume”. Nós fomos quase ao da Estrela e enfiámos as sapatilhas na neve, sem saber onde púnhamos os pés, sem saber bem o que estava por debaixo dela, a afundar até aos joelhos, resumiria José Guimarães, homem do blogue “De sedentário a maratonista” que já é ultra e ali ria como uma criança no alegre desafio de conquistar 50 km em dois lentos dias de sol. “A montanha é mesmo isto, um enorme sorriso.” Sim, Júlio, é. Daqueles que nos tiram da cama às seis da manhã para bebericar um café a enganar o frio glaciar.

Ivete Carneiro

Fotos: Joana Graça, Nuno Seabra, José Guimarães, Hélder Lemos

1 comentário

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  • Nuno Mara

    24.3.2016

    Muito bom, espero um dia participar, sou um “habitué” da montanha, sou um Runner no País dos Pirinéus (Andorra).