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O abraço de Colombo

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“Bom prouva manham! Good luck! Meu português é mau, ainda. Manham vou estar lá no restaurant, giving força. É na Maia, prova passa. Na outra ponta de ilha. 20 km! Bom sorte!”

Poderia ser normal, tudo isto, se não se passasse numa das ilhas mais recônditas do arquipélago dos Açores. Recôndita porque Portugal lhe ditou essa sorte, a escassos minutos de voo da capital da região (sorvem, lá como cá, os satélites, de que só se servem para o desfrute). Mas não é normal. Quem nos atira com tamanha dose de fortuna é uma alegre cinquentona retornada de Boston, que não corre, nem tem ar de quem se preocupa muito com isso. Portuguesa de raiz, americana de alma, mariense de gema por este pequeno e tão simples pormenor: os braços abertos.

O convite era para correr à roda da ilha onde Colombo atracou vai para 523 anos, exatamente 523 anos depois, no Columbus Grande Trail. Mas regressámos de Santa Maria com bem mais do que 42 km nas pernas (no nosso caso, que somos meninos e não ousamos dar a volta completa de 77 km). Entrámos no avião da Sata com a certeza de que voltaremos. Até porque a funcionária do check in não nos deixa outra hipótese. Embarcar para o continente foi o ato mais demorado dos milhões de milhas de voo que o nosso passaporte já comporta. A cada mala pesada saía um “correu bem a prova?”. A cada etiqueta vinha um “gostaram de Santa Maria?”. A cada cartão de identidade soava um “vão regressar, certo?”.

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Santa Maria foi mesmo isto. Um abraço do tamanho de uma das ilhas mais belas que já conhecemos. Foi chegar com fome (vá, sede, admitimos…) e direcionarem-nos para o óbvio Central Pub, cruzarmos a entrada com os locais que não trocam aquilo por nada a dizerem-nos que estávamos no lugar certo, sentirmo-nos em casa, no aconchego da madeira polida pelo envelhecimento de um bar que nos transporta para longe, lá atrás no passado de Boston. Foi encontrarmos lá todos os outros, aqueles que como nós descobriam Santa Maria, de sapatilha agressiva no pé e roupa confortável no corpo.

Mário Leal é definitivamente o homem que pôs os Açores a correr. E não somos nós quem o diz. Foi o secretário regional do turismo, bastas horas depois de a meta fechar, já todos descansavam as dores musculares em frente a um repasto irrepreensível. E Mário conhecia os segredos de Santa Maria, por lá ter vivido enquanto ensinou geografia à canalha. Santa Maria? perguntáramos nós quando nos desafiaram a voltar aos Açores. Hummmm, Santa Maria…?

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Há que admiti-lo. Padecíamos do mal de Portugal. Que raio de interesse poderá ter Santa Maria se dos Açores apenas se sabe a cor das lagoas de S. Miguel, a magia da lava dos Capelinhos do Faial, a majestade do Pico, senhores, tão alto, as flores das Flores? Santa Maria fez-nos engolir em seco, como um adágio contemporâneo nos faz parar diante da beleza. Porque é preciso correr-lhe nas veias, porque não basta percorrê-la com motores, porque impõe que lhe entremos nas entranhas, bem fundo.

E se já a simplicidade da pequena Vila do Porto nos encantava, arrancar do Forte de S. Brás dependurado sobre o abraço que a marina mais segura do arquipélago dá ao espelho de mar, entre duas das dezenas de igrejas que a ausência de atividade sísmica preservou desde tempos imemoriais (até nisso és única, Santa Maria), é um enlevo quase de sobrevoo. É a sensação de partir à descoberta do absoluto desconhecido, o nosso novo mundo, registado oficialmente que ficou o outro, de letras maiúsculas, que Colombo trazia nas memórias escondidas nas naus com que andou às voltas de Santa Maria até aportar nos Anjos onde hoje se ergue, feito bronze.

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Descemos um pouco, subimos um pouco, descobrimos na dobra de uma montanha os fornos de cal, qual gruta irrepreensivelmente preservada, descobrirmos que o chão que nos sustenta é uma sucessão de colunas de terra de lava petrificada a escorrer lágrimas. Descobrimos a paz até no olhar do gado amarelo – sim, aqui as vacas são amarelas, ou brancas sujas. Os outros Açores ficam para quem acha que estes daqui não têm interesse -, nas colinas verdejantes, nas flores arroxeadas, na terra vermelha (“o meu pai que esteve no ultramar dizia que só sabia de terra como esta lá em África”, diz ele, que nos acompanha), nas escadarias para as praias, na areia branca delas e nos calhaus rolados gigantes cobertos de restos de aloé vera ou algo do género. Nas herbáceas que devem ser leitugas mas se espraiam tanto que parecem micro Welwitschia mirabilis, na visão do farol da Ponta do Castelo com aquela descida serpenteada para carros que as pernas encurtam – e aí está o quê – atravessando os vinhedos. São uma mistura do Douro com o Pico, com muretes em socalcos na encosta mais íngreme do universo ou quase, sentimo-nos, num repente, a correr nas falésias de Cinqueterre e a pensar, que diabo, se quem trabalha este inferno consegue, não vais agora chorar porque dói, coitadinha da menina… E a Maia e os aplausos dela, com o seu portunglês perfeito num sorriso franco, como os dos outros, todos, não houve quem não saísse à rua por toda a ilha. Para nos agradecer a graça de termos vindo a Santa Maria, vejam lá.

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Depois sobe-se da Maia a Santo Espírito e prova-se da água benta que sai da parede da igreja axadrezada e diz-se mal da vida com os pés a torcerem na lama endurecida marcada pela passagem das vacas, e adivinha-se São Lourenço depois de já por nós terem passado paisagens que nos transportaram a África, à Madeira, e até mesmo aos Açores (incrível) e chora-se de vertigem. A baía é de uma beleza estonteante e dói até na alma. Desce a pique por degraus incertos e sem apoio, espraia-se na bondade de quem nos estende um chá quente, tão reconfortante para os estômagos retorcidos do esforço ao sol (faz calor nesta ilha praticamente mediterrânica) e volta a escalar por ali acima, de tal forma que olhar para trás é um risco proscrito ou o desequilíbrio seria certo. Vinte minutos para 200 metros. E um banco, plantado ali, para nos oferecer a certeza de que tínhamos conseguido. Faltavam dez quilómetros de pastos e colinas e uma estação de telecomunicações abandonada e ermidas e Santa Bárbara azul e branca (que isto é povoamento de alentejanos e algarvios e as casas são como ali, brancas bordejadas à cor local). Aí cruzámos Andrea e a filha bailarina de Berlim que decidiu testar a corrida de montanha depois de a mãe lhe ter contado da outra jóia de Mário Leal, o Azores Trail Run do Faial (regressa em maio, cruz na agenda, sff). Natascha Reitz fala em perfeição, das vistas à simpatia dos marienses e promete recomendar.

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Vem a meta e a sensação de que queríamos ter tomates além daqueles que enfiamos no sal para nos refrescarmos e repormos os níveis, para seguir atrás dos heróis, esses que ainda subiram ao Pico Alto, descobriram mistérios e chegaram já noite dentro a S. Brás, horas depois dos vencedores (Tom Wagner e Sónia Tubal), de frontal a iluminar o sorriso da conquista do Columbus Ultra Trail.

“Isto não foi mais um evento. Isto foi o evento”, diria depois Mário Leal, que ainda fez os derradeiros 25km a varrer os mais lentos, a garantir que não ficava ponta de novo mundo por palmilhar. O que quis Mário? Mostrar os Açores. Dar uma injeção de autoestima aos marienses e pô-los a correr. Impulsionar a economia. Provar que o arquipélago é um destino de excelência para a prática de corrida por trilhos. Viu o destino replicado nas redes sociais dos elementos da equipa Junior da Salomon International. Viu os viciados em trail nos Açores marcarem a indefectível presença (nós) e ficarem embeiçados pela ilha esquecida e as suas menos de cinco mil almas. Andrea falou-nos em relaxamento e ambiente familiar. Santa Maria é isso, uma família. E nós passámos a fazer parte dela.

Ivete Carneiro

Fotos: Sandra Dart, PepeFoto, Jornal O Baluarte de Santa Maria

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