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Afinal, somos todos iguais a Haile Gebrselassie. Ou quase

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És sedentário e correr é para o sofá e para os etíopes e quenianos e Usain Bolts deste planeta, certamente geneticamente diferentes ? Pois fica sabendo que nada te separa deles, pelo menos nesse particular pormenor do ADN. Somos todos iguais a Haile Gebrselassie e está cientificamente provado.

Um estudo recente de um consórcio internacional – chama-se GAMES e junta cientistas de 11 países na busca dos segredos genéticos por detrás dos maratonistas de elite – analisou mais de 1500 atletas australianos, quenianos, etíopes, japoneses, polacos, russos e espanhóis, entre os quais alguns dos melhores do mundo e os melhores de cada país. E comparou-lhes o genoma com o mais de 2700 pessoas que não fazem desporto, para detetar eventuais genes de superioridade física.

O resultado foi, no mínimo, surpreendente: contrariou redondamente as teses estabelecidas desde os anos 1980 apontando a existência de genes determinantes na velocidade e na resistência, de certa forma confirmadas no início do século com a descoberta de variantes genéticas que conferem maior explosividade e velocidade em velocistas de elite e que, para muitos, também deverá haver variações genéticas que diferenciem os maratonistas africanos. “Não encontrámos nenhuma sequência de ADN que diferenciasse um atleta de um indivíduo sedentário do grupo de controlo”, explicou ao “El Pais” o principal autor do estudo e pioneiro na genética do desporto, o canadiano Claude Bouchard. E aponta o porquê de ter chegado a tão díspar conclusão: até agora, os estudos assentavam em amostras pouco representativas.

Os investigadores procuraram alterações genéticas semelhantes em 45 marcadores comuns. E não descobriram nada, nem o tão almejado “gene campeão”. “O que o trabalho nos parece dizer é que não há nenhuma variante genética comum que te impeça de chegar ao nível máximo”, explicou ao diário espanhol Alejandro Lucía, cientista da Universidade Europeia de Madrid e co-autor do estudo.

O investigador realça, contudo, que isto não anula o fator hereditário, até porque a capacidade de melhorar com o treino ou o diferente consumo máximo de oxigénio são características “hereditárias em 50%”. O problema está em identificar os genes responsáveis. E nem o gene da velocidade confirmado na década passada (alfa actinina 3, considerado o paradigma do gene campeão) parece fazer diferença nos corredores de resistência.

A conclusão de Bouchard é a de que, sendo inegável que os atletas de topo escondem variações genéticas, a verdade é que parece tratar-se antes de uma parafernália delas, cada uma com efeitos residuais, mas cuja interligação atuará em âmbitos tão diferentes quanto a motivação, a saúde cardiovascular e a resistência mental. Estudar tudo isso, dizem os autores do trabalho (publicado no jornal científico “PLoS One”), é poder perceber como usar o genoma que dita os campeões (Haile Gebrselassie) para ajudar, por exemplo, na saúde cardíaca do comum dos mortais (nós).

Ivete Carneiro

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