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Abutres: Crónica de uma barreira anunciada

Nota prévia: pode não parecer, mas isto foi um trail. E dos bons. Daqueles que, amigos, deviam ser obrigatórios por lei. Um delírio de lama, Nutella, cascatas e paisagens de deixar qualquer empedernidos cara à banda. Senhoras e senhores, os Abutres. (E se quiserem descrições a serio, googlem)

  
O Martelinho é um gajo grande. Compra e vende madeiras, claro, se compra vende, ora, e tem um fígado que lhe diz coisas que não lembram ao diabo. Aquilo foi do momento, a análise estava tola. Não poderia ter sido de um excesso, ó Martelinho? “Não me lembro”. Diz. E serra a chouriça recém assada num prato de barro. A verdade é que o fígado está bom e, portanto, bota aí desse tinto. O Martelinho é um gajo grande. Diz assim: o quê? Comida a sério? Comida a sério não é aqui. Comida a sério é ali.

Aqui é o abastecimento onde o Luis Lopes nos travou a marcha, seis minutos depois de tocar o sino da capela da Senhora da Piedade de Tábua, descíamos nós nada lampeiros a parede que o Top Máquina descreveu tão perfeitamente como um tapete de bowling, só que inclinado. Havia uma corda e recordamos, assim de repente, que há quatro meses subíramos o tapete, sem corda, e que fora mais fácil apesar de chover como deus a dava e não estava a dar agora, que fácil que são, afinal, os abutres. Até que lá está, tocou o sino. Mas isso foi quilómetro e meio depois de começar toda esta história, já o gps dos relógios marcava qualquer coisa muito certa entre os 28 e os 30 mil metros.

Até ao início, fora o reviver, em marcha atrás, o percurso de outubro. Ou quase. Desta vez parece que passámos numa floresta de elfos, sobre um trilho erguido numas costas de crocodilo, num plano incrível, atravessado lento que estas pernas que trazemos agarradas têm essa coisa digna de só se estatelarem quando o nivelador tem a bolha de ar ali bem no meínho das riscas. Aliás, já vinham frouxas e inchadas e ensanguentadas daquele fantástico lamber de chão que assinalou os 12 km (em perfeito plano), temos a dizer que a lama da serra da Lousã não sabe tão mal quanto possa parecer. É só muito escura (e temos a dizer também que o gelinho das unhas ganhou a luta e que da próxima pomo-lo também nos pés, que isto de andar três semanas a passar por calceteiro não fica bem a uma moça).

  
Fora isso, foi correr, subir e descer. De cu, muita vez, mesmo que não fosse assim tão necessário, mas, que diabo, isto são os abutres ou não? Foi redescobrir a poderosa inocência da natureza, longe das crises e dos governos e das vergonhas do mundo homem, límpida como a água com que desinfetamos as feridas, clara como o sorriso do rapaz da Cruz Vermelha que não tem nada para as pernas, olhe, dá para correr? Corra. Mimo, sim, sabemos. É mimo. E uma excelente desculpa para parar em todos os voluntários, ah e tal, dói dói… São geralmente interessantes os voluntários das provas de montanha e têm quase sempre minis escondidas e apetece-nos até atribuir a esse seu ar bem apessoado as culpas daqueles malditos seis minutos. Adiante. Houve abastecimentos e um túnel com a corrente mais fria deste mundo, um bálsamo para o dói dói e uma oportunidade de devolver algum estilo às nossas Hoka, borradas como a noite que queríamos tanto ver descer sobre a floresta e dela sobre nós e de nós sobre a lama que faz a festa, lá para os 47 km, lá… E houve um frio terrível, no cimo do topo do cume das alturas, quase tão terrível como o de outubro, mas sem a tal chuva que deus a dava, desta vez está mesmo só de nuvens e achamos que afinal já tínhamos feito os abutres e estávamos agora no UTAX, ai baralhação e uma descida rápida e técnica e pimba, sem a gente contar, o gps anuncia 1,5km para a Senhora da Piedade de Tábua e começa o filme.

O Martelinho é um gajo grande e diz que se lembra de olhar pela janela e de ver a parede acima do escadório daquela espécie de caminho da Cruz que rasga a serra. Ao quilómetro e meio vimo-la, a parede. E eles a subirem e nós a dizer, está no papo, olha ali o pórtico da Red Bull, tralalá, somos grandes como o Martelinho. Tá quieto! Quando virámos a cara para olhar o trilho, era uma parede igual, a fugir do santuário, a aproximar-nos perigosamente das batidas da hora, duas da tarde, seis de passeio no campo, a soltar a vernácula verborreia que há atrás de toda a mais fina burguesia, que bonito, vês, tão bem vestidinha e unhaca pintada e marca na saia e toma lá uma amostra de país real, a sorte é que a cauda das coisas é sempre um lugar solitário. F… de coiso e merda com x, terminou a parede positiva para se abrir a vista sobre a corda e, na ponta dela, a parede negativa. Três minutos. Esquece. Dois minutos. Olha, agora é passear. Um minuto. Ahahahah. Há minis? E o sino. Ouve, tão bonito, f… de coiso dito no pretérito, uma coisa ninguém nos tira: seremos os primeiros a ser barrados.

Palavra rica. Ocorrem-nos os frascos de Nutella que vimos de madrugada na cozinha do Centro de Trail de Vila Nova, onde fizeram a gentileza de nos ceder um beliche, ocorre-nos a ideia que se nos atravessou a mente entorpecida do sono pré-loucura de mandar os abutres assombrar outros e de nos sentarmos em posição de lotus em frente à lareira com um pote de Nutella encaixado no regaço e enfiarmos nele os dedos da nossa infância, ui, isto a propósito da palavra barrar, se for com Nutella, por que não…
  

Aos bombeiros dizemos, que se lixe, vamos às minis, ao Luis Lopes dizemos que somos os primeiros a tirar o chip e que isso merece prémio e que atrás vem já já a Carmen e a Paula e que somos todos primeiros e pronto. Calam-nos com sopa, tão quente, tão boa, que a parede, lá longe, perdeu o atrativo. E que os 20km que faltam para a meta em sete horas é para meninos e por isso é que nós vamos atrás do Martelinho, que é um gajo grande e nos atrai para aquilo que, agora, nos apetece que seja a sacristia da Senhora da Piedade de Tábua. Sempre nos pareceu que as sacristias eram lugares de fausto e esta não nos desilude. Há um aquecedor elétrico, uma confusão de sacos e caixas e uma inacreditável mesa posta, bem afastada dos gomos de laranja e de tomate com sal onde os outros, os 500 mais rápidos, mal pararam. Não sabem o que perderam.

Nuno, Sónia, Sara, Cristina, Ricardo, Amália, Andreia, Ana, Jorge e Martelhinho riem como riem as crianças largadas na despreocupação, olhando a parede que já não atrai do lado de lá da janela meia embaciada, olhando a chouriça, o queijo da serra em que Carmen não quer acreditar, o outro que parece manchego mas não é bem, as tostas e os bolos, tantos – “Há bolos, só pode meter mulheres…” (Já dissemos que o Martelinho é um gajo grande?) – e vinho de três cores e a caixa de minis e o Licor Beirão que traz um pau de giz no colete do gargalo. Dizem-nos que em Miranda do Corvo é assim, que não há meio termo, que uma ocasião é sempre uma festa, que até pode não haver sentido em nada, até podemos ficar ali a tarde toda e até pode aparecer, de repente, o João Lamas a contar da canalha da escola de trail a quem ensina os trilhos como nos ensinou a nós em outubro e a rir como rimos na tertúlia caseira que fizéramos ontem de madrugada no Manuel Falcão depois da tertúlia oficial demasiado rápida da festa de lançamento abútrica cortada a meio pelo sono dos outros.
É verdade, perdemos Gondramaz (mentira, está lá, bem no meio de um mapa de altimetria daquele que podemos percorrer quando bem nos aprouver, na solidão dos trilhos tão perfeitamente marcados que partem do centro de Trail de Vila Nova). Perdemos a lagoa a meio caminho de Espinho e o gosto de chapinhar na corrente gélida. Perdemos Espinho e o leitor de “A Bola” com o seu bigode palitado dos anos 50. Perdemos a lama que faz dos Abutres os Abutres e que marca os outros e torna-os todos indistintos na meta, borrados dos pés à cabeça. Perdemos tudo isso, mas eles perderam o Martelinho, que é um gajo grande e compra e vende madeira, claro, se compra vende…

Ivete Carneiro



  

1 comentário

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  • Sérgio Duarte

    7.2.2016

    Fiquei com vontade de ter ido a esse tal Trail! Parabéns bela descrição.