Eles que correm por nós

Saem de casa de madrugada, muitas vezes ainda noite. Pedem compreensão à família. Ou levam-na. Preparam a algibeira como os outros, que saem de suas casas de madrugada também, preparam as mochilas para a montanha, barras e isotónicos uns, lentes e cartões de memória, os outros. E fazem hoje parte de qualquer prova. Aliás, fazem eles muito mais pelas provas do que quem as corre. Porque mostram-nas ao mundo. Por pura diversão e completamente de graça, fotografam os corredores em cenários invejáveis, enquadram-nos, muitas vezes gastam horas a editar imagens e oferecem-nas nas redes sociais. De tal forma que todos os conhecemos, os nosso fotógrafos…
Ciente do papel que desempenham, um grupo de atletas vianenses criou o Trail do Fotógrafo, cuja última edição ocorreu há algumas semanas. Por lá encontrámos duas boas mãos cheias deles, homenageados com uma corrida curta e carregada de atletas de elite, com passagens por paisagens perfeitas como o monte de S. Silvestre, de onde a vista se estendem entre neblinas, até Viana e o seu mar. Ou como as margens do Lima.

Entre a prova, a seleção, o tratamento e a publicação das fotos, Matias Novo calcula gastar umas boas oito horas do seu fim de semana. Porque quem corre por gosto não cansa. “Adoro fotografia e gosto de desporto”, juntou o útil ao agradável e decidiu presentear quem corre, como ele, com o testemunho dos momentos de superação que atravessam as mentes durante as provas. Pro bono, diz, apesar de acreditar quem a prazo, as organizações começarão a ter em atenção o trabalho de todos estes apaixonados pela fotografia. “Este ano investi bastante em material para trazer mais qualidade. É tudo muito caro, de vez em quando é preciso fazer uma revisão às máquinas… Ora, os atletas pagam a inscrição nas provas. O futuro deverá passar por as organizações contratarem os fotógrafos para que de alguma forma haja alguma compensação. Não vamos de forma nenhuma enriquecer com isto, mas daria para pagar os gasóleos…” Até lá, continua. Porque saciam de tudo segue duas paixões.

Já Américo Dias só segue a da fotografia. “Só corro atrás deles no monte! Mais nadinha!”, conta-nos o fotógrafo amador, que fala na amizade que criou “com esta gente toda”, na profunda sensação de libertação do stress que experimenta quando sobe monte acima abaixo atrás do melhor spot para a melhor imagem. “E cria-se aquele bichinho e já não posso faltar a estas concentrações. Passo praticamente os fins de semana nisto”. Como Laureano Freixo, que descobriu a fotografia em 1975 e faz dela o oxigénio necessário para recuperar de uma semana de trabalho numa zona industrial. “Troquei a bicicleta por esta brincadeira. Saio de casa às 4:30 da manhã para ir para o Gerês” se for caso disso.

Falámos com Matias, Américo e Laureano. Podiam ter sido muitos outros. Podia ter sido Miro Cerqueira, ou João Pena Rebelo, ou tantos outros a quem agradecemos a possibilidade de eternizar um momento de glória.

Ivete Carneiro e Carlos Oliveira

1 comentário

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  • Aurélio Davide

    23.12.2015

    “…eternizar um momento de glória.” eu sou atleta e quando não participo nas provas gosto de estar presente nos eventos e aproveito para captar imagens com a melhor paisagem.
    Subscrevo tudo o que em cima foi escrito.

    “Aliás, fazem eles muito mais pelas provas do que quem as corre. Porque mostram-nas ao mundo. Por pura diversão e completamente de graça, fotografam os corredores em cenários invejáveis, enquadram-nos, muitas vezes gastam horas a editar imagens e oferecem-nas nas redes sociais.”