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À descoberta sob as saias de Lisboa

  
Há uns anos, numa dinâmica de experiências exclusivas, multiplicaram-se as organizações de jantares em lugares pouco comuns: Desde suspensos numa mesa a 50 m do chão, debaixo de água – nas Maldivas, num penhasco algures na China, ou mesmo numa caverna gelada na Finlândia, foram muitos os lugares eleitos mais inéditos para o efeito. A ideia de sair do vulgar para algo que fazemos repetida e rotineiramente é a fantástica apetência do ser humano de fazer sempre algo exclusivo e extraordinário.O Canal Discovery tem, há largos anos, mostrado o extraordinário que há no ser humano. A ciência, a natureza, a evolução do mundo que nos rodeia, chega-nos sempre num misto de estranheza e espanto, de desconfiança e admiração por coisas que os homens vão fazendo e que nos facilitam a vida. A ponte entre a evolução da ciência e a nossa admiração pela natureza no seu estado mais puro é feita na perfeição pela corrida. Apetrechamo-nos das mais recentes tecnologias no desenvolvimento de equipamento, calçado e electrónica para corrermos nos lugares mais inóspitos. Usamos o desenvolvimento para um movimento tão natural como correr.

Depois de Madrid e Barcelona, o Discovery Underground chegava a Lisboa. Num troço de 10 km – toda a extensão da linha vermelha -, a organização convidava 100 dos mais de 4000 candidatos a sentirem, numa experiência única, a descoberta de locais onde habitualmente só os comboios correm. A seleção foi feita à medida que recebiam textos de candidatos que narravam as suas experiências de vida e o motivo por que entendiam merecer tal distinção. A apadrinhar a prova, Nelson Évora, também ele um extraordinário atleta, com uma das mais notáveis histórias de superação, vontade e trabalho no panorama atlético nacional.

Lisboa menina e moça, cidade das sete colinas, vestia as típicas sete saias tão portuguesas, para podermos correr por baixo delas.

A corrida, gratuita, começou às 2h30, depois de um briefing no átrio da estação de São Sebastião da Pedreira, de uma revista por parte da PSP antes de entrarmos no espaço reservado do Metro, e de um convívio animado, principalmente pelas três dezenas de participantes espanhóis. A prova, diferente, e que não era cronometrada nem teria classificações, teve também uma partida diferente, em grupos de dez atletas, identificados e separados por pulseira de cor, e que partiam com intervalos de 90 segundos.

Alinhados em fila à entrada do túnel, separados por uma cortina às tiras com o logótipo dos patrocinadores e dinamizadores da experiência, dava-nos a ideia de um mergulho num breu misterioso, que habitualmente espreitamos em movimento através de uma janela. Seria uma descoberta rápida.

Os carris atrapalhavam apenas nas estações, já que em toda a extensão da linha existe uma galeria coberta com lajes de cimento, fazendo uma espécie de passeios laterais, onde se podia correr sem grande dificuldade. Sobrava ainda um pequeno espaço entre os carris e esta caleira lateral, onde os mais rápidos podiam ultrapassar. Claro que, não sendo os túneis preparados para a circulação de pessoas, os perigos espreitam, ora sob a forma de alguns buracos, lajes partidas ou soltas, cabos eléctricos a serpentear chão e paredes, caixas de tensão e sistemas de combate a incêndio, havendo sempre a necessidade de ir muito atento a todos os obstáculos e não dar uso ao capacete, já que os obstáculos também estavam ao nível da cabeça.

Elementos da organização distribuídos por toda a extensão do percurso, polícias em todas as estações, funcionários do metro e segurança, mostravam que aquele é um vital espaço colectivo, e asseguravam que nada de anormal ocorreria. De quilómetro rápido em quilómetro rápido, lá fomos subindo e descendo, quase sempre sentindo que aquela era mesmo uma experiência única e dificilmente repetível. Um abastecimento na Estação de Chelas, pouco antes do meio do percurso, animado por um guitarrista/cantor que dava à estação o glamour que habitualmente não tem, foi a única semelhança com o que é habitual numa qualquer corrida de 10 km.

No final, de volta à animação e à exclusiva presença, todos se multiplicaram em fotos de registo do momento. O diploma personalizado – uma réplica em tamanho “A3” do cartão “Viva Lisboa” – recordava-nos que o inédito terminava ali, na Estação do Aeroporto, e devolvia o sentido para o qual se construiu aquela infraestrutura, para viajar por baixo das saias de uma grande cidade, e não para correr; para correr é bastante mais agradável e fácil a superfície da terra. Há sempre algo mais para nos surpreender, as cores têm vida e podemos dispensar o capacete.

Rui Pinho

1 comentário

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  • Bárbara Amaral

    20.12.2015

    Locomotiva de Paranhos esteve presente. Espetacular.