O Ironman depois de 409 dias de doença

    
Aos 33 anos, ter o futuro cortado por um cancro colo-rectal, é devastador. Um dos cancros mais fatais e infelizmente mais comum, o que mata mais portugueses, logo a seguir ao cancro do pulmão. Quanto mais precoce é o doente, mais rápido evolui. Quando se é novo tudo corre rápido, exceto o tempo. Temos tempo para muitas coisas, não temos tempo para planear. Andamos de sonho em sonho, num intenso corropio, numa vertigem constante que nos leva o tempo numa multiplicação de momentos marcantes, e em que os meses parecem anos. À medida que amadurecemos, e em que os anos correm mais rápido que aqueles intensos meses, passamos à concretização de alguns sonhos de então, quando o tempo não nos sobrava.

Tudo isto se, de repente, quando nos preparamos para cumprir sonhos, não nos ceifarem o futuro com um diagnóstico tão cruel como bruto, de um cancro – maldito cancro, para o qual a única solução é nos enxertarem o intestino e nos resumirem a vida a uma opção de prisão a um estranho apêndice na forma de saco coletor. A ileostomia e a consequente perda de auto estima, baixa de peso, combate ao cancro, as dores, tudo junto, atiraram com o Pedro para um isolamento, apenas cortado e amenizado pela internet.

Um dia viu umas imagens de um Ironman – 3,8 km natação, 180 km ciclismo e 42,195 km correr – e juntou mais um sonho, o de concretizar tamanha façanha. Embrenhado numa baixa que durou mais de 6 meses, fez do sonho motivação, e ainda com o saco coletor preso ao ventre concluiu a sua primeira maratona.

Apaixonado pelas bicicletas, paixão herdada do avô que o levara a explorar desde muito novo os recantos da Serra da Arrábida, foi na corrida que Pedro encontrou o seu desporto de refúgio, e que o levou já a concluir algumas ultra maratonas. 

Agora, aos 37 anos, este Técnico de Emergência Médica do INEM que nos habituamos a ver nas organizações das maiores provas do calendário nacional como voluntário, prepara-se para viver o sonho. Inscreveu-se na etapa do circuito Ironman de Barcelona, a realizar em Outubro próximo, e está a promover uma campanha de angariação de sponsors que o ajudem a suportar o esforço de treinos, provas preparatórias e prova principal.

O Projeto 409 – assim chamado em alusão aos 409 dias que passou com a bolsa ileal – é um projeto de vida, um projeto mutável e evolutivo, transformado em página do Facebook, e onde o Pedro Santos dá o seu testemunho, inspirando outros a não desistirem nunca.

Há histórias marcantes na vida de todos nós, e são muitas as histórias que nos marcam e que marcam o desporto enquanto refúgio de quem sofre. E é por isso que apesar de às vezes doer, podemos praticá-lo com um sorriso nos lábios, em homenagem aos que nos invejam a capacidade de escolha. 

Rui Pinho

3 comentários

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  • Luís Tenreiro

    19.12.2015

    Empenho, dedicação, força de vontade, persistência, resiliência! Palavras que te são tão próximas. Um abraço amigo

  • Herculano Vieira

    15.12.2015

    Sublime coragem e dignidade de um HOMEM assim!!!

  • Bének Morais

    13.12.2015

    Excelente exemplo de como devemos agarrar sempre a vida,para mim
    já foram completados 409 Ironmans,parabéns Pedro