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O voo do condor no Gerês

runnn696

Foto: Américo Dias

Não temos montanhas tão altas como os Alpes, os Pirinéus ou a Serra Nevada. Mas temos montanhas arrebatadoras de beleza, que transbordam de poesia e vida, num frio outonal que pode ser ameno se o compararmos com as gélidas montanhas de outras latitudes europeias. Se juntarmos ao quadro natural que emoldura toda esta prova, a bela e tão característica Vila do Gerês, ousamos dizer que temos uma Chamonix à portuguesa, com subidas e descidas por todas as faces de uma montanha de cara linda numa soalheira manhã de Novembro.

Os apaixonados por corrida, de montanha ou estrada, têm aqui uma bela festa anual, onde todos podem evoluir da montanha ao asfalto ou do asfalto para a montanha, numa harmonia perfeita entre homem e natureza, sem a “agressividade” da estrada, embora com a dureza poética das montanhas. Uma espécie de voltar atrás no tempo, onde as memórias desfilam sem ordem cronológica, porque ali nada tem tempo.

Ali o tempo passa, mas as memórias levam-nos sempre para trás, a tempos de criança, a memórias inocentes da harmonia entre o tempo e a nossa existência, em que somamos dias e experiências, mas andamos sempre para trás em busca de memórias revividas que nos trazem felicidade. E nos levam a metas. E de metas começam histórias. Histórias que se contam passo a passo, como se fizéssemos um caminho inverso para voltarmos a começar o que nos faz felizes.

Aquilo é um sorriso. Rasgado. É o abandono nos braços abertos da beleza, à alucinante velocidade com que se corta uma meta como se nos nossos pés tivéssemos 42 metros e 195 centímetros. É isso. No centro de um ramo de aplausos, puro, um sorriso. À volta, as paredes centenárias da Vila do Gerês, como um celofane de cores pastel, a aconchegar tudo o que está para trás. Sim, correr no Gerês pode ser uma história de trás para a frente. Porque a surpresa é um crescendo que explode no seu expoente máximo naquela curva, ali mesmo antes do celofane. Porque o que está para trás é nada. É tudo. Somos nós. E o verde patinado pelo outono de um dia de verão. Nós e a patine. É isso. É fácil.

Descemos do planalto cujo ventre esconde a fenda perfeita, a maternidade da terra-mãe feita vida entre dois penedos simétricos de brilho granítico. Descemos como se nos tivessem largado ali, nascidos da fenda, como quem larga uma pomba para a liberdade do caminho, longe de casa (haverá longes? E distâncias?). Abrimos o abraço e deixamos os pés erguerem-se no aperto da visão do paraíso. Debaixo de nós há apenas a serpente de alcatrão e a albufeira da Caniçada e as pontes, as genialmente pousadas pontes do rio Caldo. Pertence-nos tudo aquilo. E voamos. Aprendemos até a voar, peito erguido, como se nos fizessem adultos por uns quilómetros, joelhos acima para engolir mais lonjura, esquecidos do risco da queda, respiração compassada, nada disto dói, afinal. Porque é já ali e ali está o sorriso, agora que acabámos de nascer, aos 28 ou 30 quilómetros. Não há distâncias afinal. Até aqui foram quilómetros. Só depois se fazem metros, sem gps.

É uma maratona, pensamos. O que é isso de uma maratona? Há três semanas, debaixo de um calor proibitivo, uma maratona fora o extremo, a exaustão total da planura compassada, um dois um dois, militarmente marcados, sem desvios. Há três semanas pensámos que não, repetir a dor no Gerês, três semanas adiante, não seria de juízo. Que o Gerês sobe. E quem já subiu sabe que descer dói mais ainda. Que o Gerês desce. Desce tanto. Mas era o Gerês. E o Gerês é a nossa Suíça e a nossa Suíça merece o desvio.

Fazes, disse Carlos Sá, o homem da montanha que percebeu que só mostraria verdadeiramente a montanha aos do asfalto se lhes desse montanha com asfalto. O homem da montanha que percebeu que só mostraria verdadeiramente o asfalto aos da montanha se lhes desse asfalto com montanha. A caminho do 30 quilómetros pareceu-nos o casamento perfeito.

E abrimos os braços e fomos condores, tão gigantescos quanto fôramos minúsculos no esmagamento das Furnas. É propositado: saltamos Campo. Campo será sempre um sósia da Vilarinho que jaz sob o silêncio azul dessa outra albufeira, a face visível de um mistério que tira o véu e solta a trança todos os outubros desta vida. É novembro a entrar em dezembro. Vilarinho jaz, imaginada, na paleta da encosta.

Nada, é o que somos, arrasados pela quase lisura da Geira Romana, ou do pastiche que dela fizeram para poder esconder melhor Vilarinho sob as águas. Há carros que nos fazem menores ainda. O trânsito, a inconcebível concessão ao turismo, essa loba capitolina de que Portugal julga alimentar-se, à custa de um património que exigiria paz. Corremos. Para fugir, para crescer, para não doer. Dói. Sabemos que daí a nada haverá Vilarinho mas enquanto não a vemos dói-nos. A Geira chega a ser fria, ainda que suada. E é rápida, apesar de surgir depois de metade do percurso. Porque dói. E doeria mais não fosse a visão constante do rio Homem feito prumo entre seios graníticos, a maternidade lá adiante, aqui o peito do corpo deitado que é esta serra. São momentos de respiro, sem alcatrão, dos que sabem bem aos que são da montanha, dos que parecem travar os que são do alcatrão. São momentos de história, entre marcos romanos a pontuar a estrada, plana ou quase, que isto de subir e descer montes não é prático nem os antigos eram de complicar.

À entrada, antes dos carros (espanhóis, quase todos), havia chocapic. Pronto. Assim uma espécie de descida à terra depois da subida aos infernos. E até ali fora, porventura, o pior: a descida da Portela do Homem, depois da subida à Portela do Homem. Haverá certamente uma explicação para estas questiúnculas da resistência humana, o fácil é sempre mais doloroso. Da Vila do Gerês a estrada faz-se daqueles cotovelos que, de automóvel, nos pareceram sempre (seria da infância?) impossíveis. Como se o automóvel não tivesse braquagem que servisse aquilo (estamos nos braços, não sei se repararam) no matrimónio entre a inclinação e a curvatura. Pois que se correu, afinal. Até descer e ser um ai Jesus e desembocar tudo no chocapic da Mata da Albergaria.

Era apenas a segunda descida, concluíamos ali que a última seria a morte, porque lá longe o estômago já não suportaria o prazer quente do chá. Havia chá. E café. Vejam bem, café. Era a primeira troca dos estafetas (que seguem, muitos, o resto dos quilómetros, afinal), ao cabo de duas paredes. O frio ajudava, crioterapia instantânea a acalmar o fogo que a Pedra Bela nos pôs nas coxas. A Pedra Bela. Travámos até à placa da Vila, porque sabíamos que a meta, ali a dois quilómetros, ficava a uns 30, ainda.

Não devíamos ter travado. Tal como não travámos a caminho dela, da altitude da Pedra Bela, pelos fios de cabelo que levam à alma – se o Gerês tem alma, fica na Pedra Bela -, no único retorno de todo este paraíso, única chance de percebermos o sorriso que, não sabíamos, estaria na meta, depois do voo do condor.

Está frio. Um daqueles frios que pinta de azul os fios soprados das chaminés da vila. Que pinta de espelho as albufeiras veladas de neblina. Que pinta de roxo o medo. Esperava-nos a maratona mais dura do mundo. Diziam. Foi dura. Muito dura. Até ser fácil. Até ser a estonteante descompressão do ato de vir à luz. Até ser o abraço quente de um sorriso, o do sol a varrer o coração da Vila, no centro de um ramo de celofane…

Rui Pinho e Ivete Carneiro

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Foto: David Camelo

3 comentários

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  • Armando Araújo

    3.12.2015

    Um texto para ler até ao fim. Um verdadeiro hino ao nosso Gerês.
    Obrigado pela beleza das suas palavras que bem espelham a beleza do Gerês.
    Um Geresiano
    Armando Carvalho Araújo

  • Armando Araújo

    3.12.2015

    Um texto para ler até ao fim. Um verdadeiro ao nosso Gerês.
    Obrigado pela beleza das suas palavras que bem espelham a beleza do Gerês.
    Um Geresiano
    Armando Carvalho Araújo

  • Carlos Jorge

    3.12.2015

    Extreme Gerês Marathon 2015, BRAGA RUNNERS, Vila do Gerês, Maratona Geres Pedra Bela
    https://youtu.be/7P85pKp2E-0