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E os Abutres chegaram aos Amigos da Montanha

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A versão ultra desta prova era unanimemente considerada uma prova adequada a quem queria fazer uma abordagem às grandes distâncias: tinha uma organização de excelência, um percurso superiormente marcado e de dificuldade técnica baixa; era dita “corrível”. Ora, há um ano, após algumas alterações, concluiu-se que já não era tão acessível quanto isso e este ano, logo aos 25 km, já todos esquecíamos o velho percurso das primeiras edições e, ora agarrados a cordas, ora a deslizar na lama, recordávamos algumas das mais épicas edições dos Trilhos dos Abutres.

Os Amigos da Montanha passaram de excelente primeira abordagem às longas distâncias para uma óptima escolha para quem estiver a pensar aventurar-se numa prova como os Abutres (Lousã), o UTAX (Lousã) ou o MIUT (Madeira). Se conseguirem chegar ao abastecimento dos 45 km dentro das 8h de tempo limite, com um pouco mais de treino podem aventurar-se numa daquelas provações de “parte pernas” em piso em que nos mergulhamos quase até ao joelho, a cada passada.

Olhando para as montanhas próximas de Barcelos, base dos Amigos da Montanha, nenhuma é capaz de assustar pela altitude – a mais alta tem pouco mais de 400 metros -, mas o perfil “desenhado” pelo mentor da prova, Carlos Peixoto, e seus correlegionários, era um carrossel permanente até Esposende, praia vizinha. Com a imensa chuva que caiu durante toda a manhã, os trilhos tornaram-se pistas de lama, os rios encheram-se e transbordavam em ruído a beleza que a água lhes desenhava, fazendo-nos apreciar toda a força outonal tão característica do Minho. Quem foi a Barcelos a pensar numa corrida em estradões surpreendeu-se com belíssimos trilhos, que, serra a serra, monte a monte, ora acima, ora abaixo, nos levaram aos pontos de contemplação da costa minhota em todo o seu esplendor. Do monte da Guarita ao de S. Gonçalo, passando pelo da Sra da Guia, de cujo alto e após umas largas centenas de uma longa escadaria se podia observar no horizonte toda a linha de costa desde Viana a Esposende, não houve monte que os “amigos” não nos apresentassem. Ficamos todos um monte de conhecidos que por ali andaram nas apresentações.

A parte mais divertida do percurso está agora numa dezena de quilómetros nas margens do Rio Neiva. Trilhos lindos, embutidos no verde minhoto, sempre a trote ligeiro, para quem ainda conservasse força, a exigir atenção redobrada para não deslizar num mergulho imprevisto na água fresca.

Escrevi há tempos que, numa ultra, só somos adultos quando nos inscrevemos. Dêem-nos lama, chuva, rios e montes, um grupo de gente divertida, ponham fitas para não nos perdermos e alguma comida para não irmos muito carregados e logo chegamos à conclusão que não envelhecemos. Somos crianças com umas dezenas de anos. Homens ou mulheres, doutores, engenheiros ou não, juntos num divertimento tortuoso e penoso, onde o fim é sempre o princípio de muitas outras coisas e, acima de tudo, o aprofundamento de amizades.

Resta-me agradecer aos Amigos da Montanha, em especial ao Carlos Peixoto e Bruno Silva pela excelente transformação que têm operado numa prova que já era bonita, e que agora é um excelente trajeto de puro trail. A altimetria e o tamanho das montanhas pouco importa; fundamental é a dificuldade técnica do percurso e essa já lá está e é suficiente. Não contávamos, mas gostámos.

Rui Pinho

fotos Miro Cerqueira/Prozis

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