Hei de voltar e olhar para ti de cima para baixo

O Triângulo. Passará a ser assim conhecida a aventura que, no passado fim de semana, espalhou umas dezenas de atletas por três ilhas do grupo central dos Açores, por três dias de provas, por três distâncias separadas pelo Atlântico, num gigantesco desafio de logística para somar 100 km e o incomensurável deslumbramento de vaguear pela natureza em estado puro. Nuno Gonçalves foi um deles. Apaixonado pela fotografia, mostra-nos o Triângulo na ponta do dedo. Desafiámo-lo a contá-lo, também.  “Hei de voltar e subir ao topo, certo de que lá em cima vou sentir-me um gigante maior do que tu, Pequena Montanha”.

Nuno, descreves-nos a experiência do triângulo numa frase? Curta… :)

Um Triângulo de emoções, um mar cheio de aventuras, uma prova onde o que cansa é a dureza da beleza…

Já tinhas corrido no Faial. Foi uma sensação de déjà vu?

De forma alguma. Fazer a prova no sentido inverso permitiu ter novas perspetivas de trilhos já percorridos e confirmar que correr o mesmo trilho a descer é totalmente diferente de fazê-lo a subir. Mesmo à chegada à Caldeira, o ponto mais emblemático da etapa do Faial, parecia estar a descobri-la pela primeira vez, tal era o encanto e a vontade de parar para contemplar, registar o momento e partilhá-la. Só foi pena a meteorologia não ajudar…

Conta-nos cada uma das ilhas, como se fosse uma história…

Faial. A primeira prova antes da verdadeira prova foi chegar ao Faial. Foram precisas quase 10 horas e três viagens de avião. Depois do check-in no Hotel rumei quase de imediato ao ponto de encontro na ilha – o famoso Peter’s – onde comecei o processo de hidratação com não menos afamado Gin. É um ritual quase obrigatório em cada visita.

Final do dia, briefing inicial da prova. Todos tínhamos consultado a meteorologia nos dias anteriores e as previsões não eram muito animadoras para a primeira etapa, mas o “choque” chegou pela voz do diretor de prova. Ouvimos Mário Leal dizer-nos que o Pico não queria lá ninguém. E que, com vagas de mar de quatro a seis metros, ia ser difícil fazer a travessia de barco. E que, mesmo que acontecesse, ventos de 80 km/h, neve acima da cota dos 1000 metros e temperaturas negativas estavam a tornar a etapa mais motivadora das três numa miragem.

Pico. Só durante a noite chegou a confirmação. O encontro para novo briefing ficou agendado para as nove da manhã. As condições do mar continuavam a não permitir a saída dos barcos em direção ao Pico. Restava aguardar a acalmia. Impacientes mas esperançosos, a tensão entre nós era notória: do hotel era possível contemplar o Pico e isso tornava a espera tortuosa. Por volta das 10:30, o diretor de prova anuncia duas novidades: vamos conseguir fazer a travessia para o Pico; infelizmente não vamos conseguir efetuar a ascensão ao ponto mais alto de Portugal. O percurso reduziu-se à distância de 25 km, com fim no abrigo de montanha, a 5 Km e 1000 metros de desnível positivo do topo. “Já não é mau”. Começou o frenesim em direção ao autocarro que nos levaria ao barco com partida marcada para as 12:45.

Travessia feita, controlo zero efetuado, atletas agrupados na meta, partida… 14 horas. Começa a primeira das três aventuras deste triângulo. Os primeiros quilómetros foram rolantes, à nossa direita o mar e o Faial, à nossa esquerda o desafio, o maciço do Pico onde se conseguia vislumbrar alguma neve e um belo chapéu de nuvens a esconder o topo e a verdadeira dimensão do penedo.

Atravessar as vinhas foi viajar no tempo, pedrinhas desordenadamente ordenadas para abrigar a produção do precioso néctar, engenhoso. Depois disso, acabou o passeio. Os bolos chamados de Bomba Vulcânica no posto de abastecimento serviram de alento para encarar a subida, o Faial passou a estar nas nossas costas e ficamos de frente para ele, o Pico. E aqui começou a ascensão. Ao longo dela fui cumprimentando as vacas, sentindo-me cada vez mais pequeno, a aproximação da base com mais verticalidade da montanha faz-nos encolher. Ia contemplando o Faial e São Jorge à medida que subia, o sol começava a pôr-se e o céu pintou-se de fogo e lava. Idílico. O vento e o frio cresceram com a montanha e desceu a escuridão, pontuada por uns restos de neve que chamaram a minha atenção antes de chegar ao abrigo – não resisti a registar o momento. Minutos depois cruzo a meta e tento vislumbrar o cume, mas já não era possível. Olhei para cima e… isto não fica assim, hei de voltar e olhar para ti de cima para baixo :p

São Jorge. 07:40, toca a embarcar para um mar bem mais tranquilo e uma viagem com rácio de enjoos muito inferior ao do dia anterior :D

À medida que nos aproximávamos daquela estranha língua de terra no meio do Atlântico, cada espreitadela para o Pico tinha tando de fascinante como de revoltante: estava completamente descoberto, deixando apreciar a totalidade da sua imponência a romper o céu. Não é justo.

Desembarcados na Velas, autocarro para a partida quase no outro topo da ilha, segundo pequeno-almoço e, perto das 11 horas, nova aventura. Arrancámos na cota dos 400 metros e descemos até ao nível do mar. Aqui descubro o encanto da ilha, a correr paralelamente e ao nível do mal, atravessando pequenas localidades, as ditas fajãs, e a única coisa em que penso é nestas pessoas que vivem aqui, como é que elas vêm para aqui… Do meu lado direito toco em escarpas enormes, com vegetação de um verde que nunca tinha visto antes. Mas a distração passou rápido, quando olhei para a altimetria e descobri que, já depois de ter subido um bom pedaço, tinha ainda uma parede de alguns quilómetros com 700 metros de D+, no mínimo. A subida rasgava a montanha numa interminável escadaria abrigada de vegetação, como se de um túnel se tratasse, deixando passar aqui e ali alguns raios de sol, o mar cada vez mais longe e o verde das paisagens – mais o fôlego roubado pela sinuosidade da subida – a cortar-me a respiração e a abrandar-me o passo. Para logo encadear numa longa e não menos difícil descida para a meta, de novo o mar de frente e eis que de repente surgem vacas completamente isoladas e, mais uma vez, só pensava em como é que elas tinham ido ali parar. Chegado ao nível do mar, foi rolar e contemplar as ondas que castigavam com fúria as pedras escuras da costa, deixando um rasto interminável de espuma e uma espécie de neblina no ar. Finalmente vislumbro a meta, rico da agradável surpresa que foi descobrir a beleza que aquela estranha língua de terra no meio do Atlântico esconde.

Faial. O dia arranca às 06:40 com uma tranquila viagem de barco de duas horas e meia, com o sol a nascer por detrás de São Jorge e a aquecer lentamente a encosta do Pico virada a nascente. Um momento único de se ver. Chegados ao Faial, nova viagem de autocarro até ao Vulcão dos Capelinhos, novo reforço alimentar, algum tempo para contemplar o farol e o resto do planeta – sim, porque o cenário parece tirado da lua, ou de Marte, ou de outro mundo –e de repente estamos a enterrar os pés na areia vulcânica de tom escuro em direção às escadas que me tinham custado tanto descer quando fiz a prova ao contrário e iriam certamente custar ainda mais agora a subir, ainda por cima com duas ilhas nas pernas. A etapa do Faial é essencialmente metade a subir e metade a descer, sendo que os 22 a subir até à caldeira deram cabo da média a muito atleta. Antes de chegar ao buraco, uns bons quilómetros sºao feitos pela levada, um canal que serpenteia a lateral da caldeira e que nos levou até à famosa subida em direção à garganta da ilha.

O tempo não está famoso e começa a formar-se neblina por cima da cratera. Quase estragava o momento, mas ainda assim contemplei aquele sítio como se fosse a primeira vez. A partir do meio da Caldeira, sempre com o amigo Frederico Silva como companheiro de prova, o nevoeiro e o vento e a chuva dominaram a paisagem, mas não conseguiram tirar o encanto ao buraco. Contornado o topo descemos acompanhados de chuva e algum vento, mas com a moral de que quem sabia que ia terminar a Aventura do Triângulo. Já perto do final, mais dois miminhos da organização, uma ultima subidinha e uma descida que chegou a ter 30% de inclinação e uma bela calçada de empedrado polido que nos chamava a toda a hora que tínhamos nádegas.

Finalmente o som da festa, atravessamos algumas ruas do centro da Horta e o já emblemático pórtico, sempre venerados pela organização e pelos resistentes habitantes, que não arredaram pé apesar da intempérie. Medalha de finisher na mão, agradeço a todos com quem partilhei cada momento e sou finalmente absorvido pela sensação de missão cumprida. E a certeza de que voltarei.

Se tivesses que selecionar um momento, um pensamento, uma paisagem, um desabafo?

Na subida ao Pico, a mais de metade da prova, com o sol a pôr-se o céu ganhava as cores do fogo do vulcão. Atrás de mim conseguia contemplar as outras duas ilhas e, à medida que me aproximava da imponente montanha e a sensação de pequenez crescia na proporção do frio e do vento, retive um pensamento apenas: hei de voltar e subir ao topo, certo de que lá em cima vou sentir-me um gigante maior do que tu, “Pequena Montanha”.

Como é que se corre três dias seguidos com mar pelo meio?

Só foi possível graças à gestão quase perfeita da organização, na sincronização dos horários dos barcos e do início das provas, nos boardings que eram antecipados sempre de breves mas assertivos briefings. Basicamente foi acordar – barco – prova – hotel – barco – prova – hotel – barco – prova… uma rotina.

Eras rapaz para dar uma nota à aventura? Críticas? Ou não? Aconselhas?

Não me deste uma escala para avaliar e, sendo a primeira edição do género a nível nacional, não há grande base de comparação. Alguns pontos vão precisar de melhoria ao nível da logística no check-in do alojamento. Sou suspeito, mas a minha nota é altíssima: a beleza natural, a envolvência e a dinâmica de cada etapa faz com que se esqueça o peso da máquina organizacional e os detalhes não passem disso mesmo. O espírito da prova aumenta os níveis de superação de qualquer atleta, mesmo os que vão para competir, todos sem exceção. Cada etapa é um desafio completamente diferente. Não são apenas quilómetros a somar até perfazer o total. São três ambientes únicos, distintos e absolutamente viciantes. Se recomendo? É sem dúvida uma daquelas que não pode faltar no calendário de qualquer apaixonado pelo trail e pela natureza, uma oportunidade única de conhecer as entranhas dessas belas ilhas.

A fotografia parece ser a tua outra paixão. Escolheste o triângulo pela aventura desportiva ou fotográfica?

Já me conheces, a oportunidade de praticar a modalidade nas três ilhas aliada à possibilidade de contemplar e registar fotograficamente a aventura foi o “click” que espoletou a inscrição. Duas paixões num triângulo de emoções.

E o braço? É uma espécie de ritual?

É. Certa manhã, corria na Serra do Marão e tentava fazer um trilho que já me era familiar mas que a dada altura tinha um track alternativo que um amigo me tinha sugerido. Cheguei ao ponto onde era suposto seguir esse novo caminho e fiquei na dúvida. Liguei-lhe mas não estávamos a chegar a um entendimento. Resolvi desligar o telemóvel, tirar uma foto com o dedo a apontar para o trilho, enviar por sms e perguntar “… é por ali???”. Nas fotos em que aponto qualquer coisa é para mostrar aos outros o que me chamou a atenção naquela paisagem. A cena das vacas é pura brincadeira :)

Que máquina usas?

As registadas durante a prova foram na grande maioria com o telemóvel que também usava para partilhá-las, um Sony Xperia M2 Aqua. As outras são com uma gopro4.

Para finalizar diz-nos lá quem és tu…

Uma eterna criança de 34 anos, gestor de projeto de profissão, apaixonada pela natureza e pela fotografia e que descobriu há cerca de quatro anos que correr é o melhor escape para a rotina desgastante do dia-a-dia. Adoro correr sozinho, acompanhado do MP3 e daquele equipamento que para além de máquina fotográfica também é telemóvel e me permite disfrutar de outro prazer que tenho: o da fotografia. Correção: sozinho é mentira. Nunca me sinto só. Todos os amigos com quem partilho os lugares por onde vou passando enquanto corro estão comigo. E desfrutam como se estivessem lá. Dizem eles :)

Entrevista: Ivete Carneiro

Fotos: Nuno Gonçalves

2 comentários

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  • Mário João Carvalho

    11.11.2015

    coisas da minha terra ;)

  • Carla Cachada

    10.11.2015

    Açores em trail……. Deve ser mais que top