Perdido na tradução… em Nova Iorque

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O que será pior que fazer uma maratona depois de uma longa recuperação, de um longo caminho de luta contra a dependência, de luta contra a adversidade?

Gianclaudio Marengo, italiano de 30 anos, voou até Nova Iorque para participar na Maratona daquela cidade, integrado num grupo de pessoas que, como ele, faziam parte de um centro de recuperação de toxicodependentes.

4h44 foi o tempo final do esforçado italiano. Chegado à meta, como acontece com muitos dos que fazem maratonas, desorientado no meio de uma multidão, a sua timidez e olhar vazio passaram seguramente como normais num maratonista. Depois da linha de chegada, um maratonista é sempre mais parecido com um zombie, cambaleando, esticando as pernas e contraindo involuntariamente todos os músculos em espasmos de dor. O comportamento normal de um maratonista é realmente estranho, não sendo por isso de estranhar um desorientado atleta por Central Park.

Portador do dorsal 23781, de Gianclaudio sobrava a informação de chegada à meta e uma imagem a prová-lo, quando os serviços consulares italianos a pedido da instituição que o levou aos Estados Unidos, começaram a procurá-lo. Daí até ser encontrado, dois dias depois, sabe-se agora que o italiano tentou voltar ao Hotel, mas com medo de perder a referência do último lugar onde estava, voltara à zona de chegada da prova. Sem o mapa que o ajudaria a encontrar o caminho, sem documentos e sem saber falar inglês, manteve-se por ali, à espera que o fossem buscar. Os membros do grupo foram lá mas não o encontraram. Comeu pizza, dormiu ao relento na noite fria de Manhatan, sempre com o equipamento com que correra a maratona. Segunda Feira, sabendo que tinha voo de regresso, foi para o aeroporto, de onde o expulsaram, por parecer sem abrigo e não possuir qualquer documento. Voltou para a cidade e refugiou-se no metro, já na madrugada de Terça Feira. Um polícia reconheceu-o por haver já uma notícia do seu desaparecimento.

A história é contada pelo New York Post, e pelo The New York Times e parece tirada de um filme.

“Os passageiros habituais, às 6h45 da manhã, são trabalhadores das obras, portanto aquela figura pareceu-me fora do contexto”, conta Man Yam. “Reparei no seu ar cansado, lábios secos de desidratação, e principalmente na sua evidente ansiedade, olhando para todos os lados e fitando o mapa, tentando decifrar algo”.

O agente identificou-se e ao aperceber-se de que não entendia inglês, perguntou a Giancarlo em espanhol se estava perdido, ao que este respondeu afirmativamente e com ar aliviado. À boa maneira americana, o bom polícia levou-o a beber um café e comer um donut. Terá sido seguramente o melhor pequeno almoço da sua vida.

O agora maratonista foi levado a um hospital para assegurarem que estava bem de saúde, e onde o médico da instituição que o acolhe o foi buscar para viajarem de volta para Itália.

E assim uma história de libertação de um heroínómano transforma-se numa história de um maratonista, que depois de cruzar a linha de meta, começava uma aventura ainda maior que aquela de 42,195 metros que deixara para trás.

A maratona é um duro caminho, mas nunca tão duro como muitos caminhos tortuosos que a vida nos proporciona.

Rui Pinho

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