Zainab, a única afegã na 1ª maratona do Afeganistão

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Se lhe dissessem, vais correr uma maratona, começaria provavelmente a suar sem sair do sítio. Se lhe dissessem, vais correr a primeira maratona organizada no Afeganistão, diria provavelmente não. Zainab, mulher, afegã, 25 anos, disse que sim. E sujeitou-se à penosa ultramaratona que foi preparar uma corrida inédita num país onde as mulheres são mortas por argumentarem.

A história de Zainab, contada no jornal britânico “The Guardian”, é o melhor estímulo para quem se vai lançar, dentro de uma semana, na Maratona do Porto. Tudo o que nos possa custar é brincadeira de criança.

A jovem afegã, “regressada” ao Afeganistão depois de uma vida de refugiada no Irão, onde nasceu, deu com um país onde não cabia: fazia desporto desde que se conhece. Tentou. Andou num clube de Taekwondo feminino até este ser encerrado. Descobriu uma organização não governamental britânica que assenta a ação na promoção do skateboarding para educar crianças. Alistou-se e é com isso que alimenta a mãe e os irmãos. A paixão pelo desporto não passou despercebida aos companheiros da Skateistan, que a convenceram a correr, concorrendo a um apoio da Free to Run, organização criada por uma ultramaratonista canadiana para promover o direito das mulheres a praticar desporto ao ar livre. Foi no ano passado. Zainab conseguiu e alinhou em maio numa ultramaratona no deserto de Gobi, na China.

Mas o objetivo de Zainab era bem mais radical: correr a primeira maratona oficial do seu país, em Bamiyan, região de minoria Hazara, a mais liberal e segura do Afeganistão.

Treinou cinco meses, grande parte deles às voltas no pequeno quintal de casa, muitas vezes na companhia da orgulhosa mãe. Ousou correr nas montanhas circundantes com uma amiga, Nilofar. A falta de segurança afastou-a da liberdade. E da companhia de Nilofar, proibida pelo pai de seguir o sonho.

Antes disso, Zainab teve a audácia de, com três jovens mulheres, correr uma maratona informal entre o Vale de Paghman e Cabul. Foram recebidas na capital afegã com pedras atiradas por crianças, insultos lançados por adultos, de prostitutas para cima. “Por que não ficam em casa? Estão a destruir o Islão!” Tiveram que suspender o treino.

Em Bamiyan, Zainab alinhou na partida com 35 atletas. Era a única mulher afegã. Na corrida de 10 km paralela, havia 40 raparigas. Foram elas que a aplaudiram caminho fora, numa luta contra a discriminação até de outros atletas, que a acusaram de fazer batota (que eles fizeram, percorrendo parte do percurso de mota…), numa luta maior pela afirmação das mulheres num país enclausurado, numa luta interna contra a falta de ar a mais de 3200 metros de altitude. Acompanhada de crianças espantadas e saudada pelos camponeses, Zainab conseguiu. Em festa. E levou a mensagem: o desporto é uma ferramenta para encorajar as mulheres afegãs a desafiar normas culturais e impor-se na sociedade. Como resumiria a fundadora da fere to Run, Stephanie Case, o feito de Zainab “abriu um largo espaço para que outras mulheres afegãs sigam os seus passos”.

Do seu lado, a superação e a força de vontade ensinaram à jovem atleta uma lição: “está tudo na tua mente. Não precisas de treinar muito”.

Ivete Carneiro

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