Como se desenha um circuito nacional de trail?

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A Associação de Trail Running de Portugal (ATRP) divulgou esta semana o calendário dos circuitos nacionais de Trail, Trail Ultra e Ultra-Endurance, que em 2016 incluirão 22 provas. E acabou a gerar celeuma, com a saída de uma das provas emblemáticas (Serra D’Arga) e a acusação de que os campeonatos estavam geograficamente concentrados no centro do país. A entrada de um patrocinador para a totalidade dos circuitos também parece não ter sido pacífica.

O JN Running foi ter com a ATRP para perceber como se desenhava um circuito. João Mota, diretor da Associação, explicou-nos os critérios, que começam pela… demonstração de interesse das organizações em fazer parte dos circuitos. “No Norte quase ninguém seguiu o protocolo, e alguns interessados não cederam nas negociações das datas”, que passa por apresentar a candidatura e passar pelo crivo da pré-seleção, com base no conhecimento que a ATRP tem da prova, no número de inscritos, nas opiniões de elementos do Conselho Consultivo da ATRP que não sejam organizadores de eventos, e na avaliação feita, via questionário online, pelos participantes. “A ATRP não tem verba para pagar a dirigentes para irem fisicamente a todas as provas”, dado ser uma associação sem membros profissionais. O segundo crivo avalia a distribuição geográfica e eventuais sobreposições de datas.

A importância das avaliações impõe-se sobretudo, diz-nos João Mota, para as provas de ultra-endurance, que “elegem os atletas que vão representar Portugal no Campeonato do Mundo”. “As provas têm que ter características de campeonato do mundo”. O principal critério teve como base a probabilidade de Portugal vir a organizar o Campeonato do Mundo de Trail Running de seleções em 2016, portanto, foi necessário escolher quatro provas com características de campeonato do mundo. Uma vez que a ATRP não terá custos com a deslocação de atletas ao estrangeiro, existe a possibilidade de se selecionar mais atletas para o campeonato do mundo. “E iremos escolher duas provas do circuito de ultra-endurance para selecionar os atletas”.

Soma-se a necessidade de “renovar os circuitos”, porque os atletas admitem muitas vezes estarem cansados de repetir provas. “Mas é difícil agradar a todos”. João Mota ressalva, contudo, a tentativa de manter nos campeonatos “as organizações que acrescentam valor”, convidando-as para circuitos de distâncias diferentes. Algumas não aceitaram.

Segue-se a questão da entrada de um patrocinador nos circuitos – a marca de suplementação Prozis. Para a ATRP, foi a oportunidade de “dar uma imagem mais nobre às provas dos circuitos nacionais, com o apoio em estruturas como pórticos, bandeiras, lonas, e a presença de um elemento em todas as provas do circuito”. Sempre com a ressalva de que, “se a imagem do patrocinador do circuito colidir com os interesses comerciais dos organizadores, a ATRP cede no critério de disposição da sua imagem”. “E isso foi explicado à organização do Grande Trail da Serra d’Arga. Ainda assim, optou por não fazer parte do circuito.” Em comunicado, a organização desta prova ressalva a importância do patrocinador que tem, concorrente da Prozis, e que entende ser incompatível com a participação num circuito que incluirá publicidade à marca apoiante da ATRP.

Do seu lado, a própria Prozis “lamenta que uma prova tão emblemática e querida de todos os atletas não faça parte da competição. Mas é uma decisão da sua organização”. A marca garante não fazer qualquer imposição quanto a patrocinadores diretos de cada prova. “Todas as marcas são bem-vindas, têm espaço e são necessárias à modalidade, sejam concorrentes ou não. Será sinal de que as provas terão mais ferramentas para oferecer melhor qualidade”, disse ao JN Running o diretor de marketing da marca, Rui Cunha, assegurando não haver qualquer interferência na escolha das provas para cada circuito. “Essa é uma seleção que compete apenas à ATRP.”

Depois de decidir alargar o seu âmbito, a Prozis, empresa portuguesa de venda e representação de suplementação dedicada ao fitness e com mercado em mais de cem países, decidiu apostar no trail, entre outros segmentos. “Sendo uma modalidade recente, os intervenientes (estruturas associativas, clubes, atletas, etc.) precisavam de mais apoios para desenvolver atividades”. Após uma aposta inicial no apoio a atletas e a provas individuais, a Prozis resolveu dirigir-se à ATRP, “uma associação em crescimento e que vive da paixão de atletas que se esforçam em prol do desenvolvimento da modalidade”.

A ideia, diz-nos Rui Cunha, é ir além do apoio financeiro e físico, profissionalizando a imagem da ATRP, designadamente com as ditas estruturas físicas (pórticos, lonas, etc…), e apostar no apoio a associados (com vales para aquisição de produtos) e organizadores (por exemplo, com oferta de fitas de marcação, se assim pretenderem).

Uma das vantagens será permitir a deslocação de elementos da ATRP a todas as provas dos campeonatos. A marca promete ainda uma aposta na comunicação dos circuitos e da ATRP. Um mercado que, admite, também lhe interessa: a ATRP tem mais de três mil associados e espera contar com cerca de dez mil inscritos nas 22 provas dos três campeonatos nacionais e taça de Portugal.

Ivete Carneiro

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