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Saímos do DUT ricos em beijos


Sedielos

Medrões é assim tão lá em cima que não há descrição. É aquele aglomerado além, tão longe desta fonte, a última do gráfico de altimetria, onde lavamos o sal que nos sulca a face. Vocês vão para ali, diz ela, sorriso quase sádico, se não fosse de pena. Está calor no Douro a meia encosta entre Santa Marta de Penaguião e o Peso da Régua, muito. Já quase rebolámos de gozo na descida desde a senhora da Saúde, desde que se nos abriu o abraço das vinhas, esse que viemos buscar ao Douro Ultra Trail. Correr nos socalcos patrimoniais é voltar a ser canalha à solta, como se a meninice nos transportasse para dentro de um postal.Mas Medrões, caramba, “é muito ao de cimo”. Diz ele, pena assumida no olhar, folhas de couve para a sopa na mão, atrás de um murete dos que contêm as margens deste Douro. É. Fontelo ficou já lá em baixo com o sorriso dela, com as uvas a estalar de brilho nos balseiros da vindima, furtamos um cacho, não, melhor não, ainda temos 11 km pela frente, a barriga não ia aguentar o mosto. Já pegámos numa maçã, lá atrás, pouco depois do incêndio, pouco depois de Rosário nos apontar – mais uma – um cimo onde passaríamos enquanto ela apanhava carqueja para o assado, que é sábado, há-de ser dia de preparar o domingo. Já apanhámos também castanhas, das mil e uma que cobriam este chão que nos desafiaram a pisar. 45 km. 2200 metros de desnível positivo, 2400 negativo. Vamos, há vinhas e vamos poder ser crianças a correr entre elas. E já bebemos noutras fontes antes de Fontelo, as que jorravam, nem todas.

A imagem do DUT cresceu no nosso imaginário há um ano, quando João Marinho resolveu abrir ao mundo os trilhos que pintou com os amigos. Era naquele Douro quente que nos transporta para o século de Dona Antónia e as histórias de famílias entre quintas, naquele Douro doce a chorar das vinhas, naquele Douro cheiroso a grainha esmagada de fresco.

Ao longo de um ano duro, o trágico destino do montanhista de Amarante haveria de manter viva essa imagem de uma prova que todos quantos a estrearam diziam ser das mais belas. E é restrito o número das mais belas, todos o sabemos. Era impossível dizer não quando caiu o desafio. Aceitamos-lo apenas um dia antes de o azar nos partir um dedo do pé, arruinando todos os futuros que estavam a ser preparados. Não o descartámos. Tínhamos três semanas pela frente. A luz verde do médico chegou horas antes da partida, agarrámos nos bastões e fomos em busca do Douro de João. Que já é o Douro de Pedro, irmão de João, o mentor da belíssima aventura que decorreu no sábado e que, prometeu-nos na meta, vai crescer internacionalizando-se. Três distâncias, 1100 pessoas, três partidas em concelhos diferentes, uma meta.

 


Hermínia (e Alcides Freire)

A primeira descoberta, à chegada à nossa partida, em Mesão Frio, é a de que não somos os únicos a responder ao chamamento. Não nos lembramos de ver tanta elite junta alinhar na partida de uma corrida de montanha que não integra o ainda restrito clube das provas rainhas. Estava ali tudo. Ponto. E mais umas quatro dezenas de estrangeiros de sete países. E nós. Talvez por João, que deixou o trabalho quase todo feito, até na instrução dos voluntários, conta-nos Pedro. Talvez pelo Marão, lá “ao de cimo”. Fomos. A distribuir bons dias pelos socalcos, a passar pela vida dos durienses, até encontrarmos Hermínia. Minúscula, roupa de lavoura, sorriso roubado pela idade. Deu-nos um beijo, Hermínia, depois de se rir. E ficou a limpar o nosso suor da cara dela, feliz, quase a bater palmas, plantada ao lado das alminhas – há tantas por ali, quase uma por casa. Depois de Hermínia ofereceram-nos vinho do garrafão. Depois disso ouvimos Orchestral Manoeuvres in The Dark nos bombeiros de Fontes, antes disso saudámos o trabalho dos bombeiros de Sedielos, enquanto atravessávamos uma frente do incêndio que atrasou a partida das duas maiores distâncias. “Não íamos mandar ninguém correr sem termos 100% de condições de segurança”. Obrigada Pedro. Correr entre as cores outonais varridas pelo fogo é ao mesmo tempo lamentável e mágico, como se voássemos, sobrenaturais. Estava controlado, disse-nos o comandante (fazer perguntas é um vício). Depois disso fomos elfos num carrossel de pinheiros, numa aresta de montanha, Vila Real ao fundo, com a majestosa ponte nova da auto-estrada que espera um túnel para se completar e aproximar Trás-os-Montes. E fomos testemunhas da genuína simpatia de quem manda para lá porquanto são os que lá estão. Se a prova não estivesse tão perfeitamente marcada, os habitantes levar-nos-iam a bom porto, é certo. Não falhou uma indicação. “É sempre ao baixo”, “é por ali”, “poupem-se, a subida para Medrões é dura”, eram os rapazes das fitas, estes, a correr ao contrário do sentido da meta, como corriam também os rapazes do GOBS, que nos obrigaram a parar em plena descida entre vinhas para distribuir beijos – saímos do DUT ricos em beijos. E, finalmente, Medrões, à nossa quase morte. E um abastecimento de reis numa pequena adega que se nos entranhou narinas e espírito dentro. Estava feito. A partir dali, era a descer. Praticamente. Só que havia o cruzamento do café da Portela de Luís e nós, enjoados dos isotónicos, tínhamos sede de cevada e entrámos salão dentro sem recolher os bastões sequer. Sim, sabemos, o trilho é por ali, mas temos sede. Mataram-nos a sede, a troco de nada, de um sorriso. Foi o ânimo necessário para perder o medo de destruir o dedo. A partir dali, de facto, foi sempre ao baixo, estonteante. Até ao Museu do Douro, no coração da Régua, sete quilómetros depois. E no fim pudemos dizer, enquanto sorvíamos um Réccua tónico: conquistámos Medrões.

Ivete Carneiro

(Foto de capa Susana Luzir)

 

3 comentários

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  • Joana De Souza Paulo

    7.10.2015

    A minha aldeia :)

  • Almiro Moreira

    6.10.2015

    Fabuloso, parabéns.

  • Susana Coelho

    6.10.2015

    fantástica descrição do Douro, de Medrões, de tudo!!! Fiquei com sede de lá estar. Para o ano lá estarei com certeza…