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João e João, em 24 horas

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Analice Silva, 72 anos, 134 km

“Força João!” E ele passa, afasta ligeiramente o braço e estica o polegar. E isto foi um pouco a cena que marcou o ritmo, como que o cair da cortina na mudança de cada ato, de xis em xis tempo, uma eternidade dele numa prova às voltas, João passava, afastava ligeiramente o braço e esticava o polegar. Foi assim que ele, João Oliveira, nos fez ver como se aguenta uma noite sem vacilar numa loucura de 24 horas. Afastando o braço, muito ligeiramente, e esticando o polegar a todos os “Força João” que foram atirados na noite gelada e estrelada de Vale de Cambra, há uns dias, na segunda edição das 24 horas de Portugal. Fez ver vencendo-a, ora pois, 224 km e uns trocos depois de ter arrancado.

Mas João Oliveira é um ser sobrenatural – sete dias depois metia-se na Spartathlon, na Grécia, uma velha amiga que já venceu, também – e era provavelmente o único naquela interminavelmente minúscula pista do Parque da Cidade. Os outros (nós) eram apenas loucos munidos de um objetivo porventura estúpido: os três dígitos. A força que três dígitos podem ter é indescritível. Havia uns mais loucos do que outros, como Paulo Gomes, que tinha, porque tinha, que pôr nem que fosse mais um quilómetro ao cômputo do ano passado e almejava uns três dígitos dignos de se ver (conseguiu, 185). Ou como José Capela, um Senhor com letra enorme e sem explicação possível, determinado a correr 175 km por um punhado largo de crianças institucionalizadas de Guimarães. Ou como Analice, o dorso curvado pelos 70 e picos (anos) e a determinação, também, de ir longe. Só. “Força Analice!” Sem parar, roda a cabeça e larga um sorriso. Largou, assim, vários, a todos os “Força Analice”. 134 km e está tudo dito.

A noite no vale do rio Vigues faz do silêncio uma gigantesca câmara de eco. Quase se ouvem os passos mais ou menos lestos de quem não arredou pé do cumprimento desse estúpido desígnio (estúpido porque quem, fora da tribo, o compreende?). A frequência da pista reduziu-se para além do imaginável, as luzes do Parque eram o luar possível, ao longe troava o som disco de um sítio de diversão da verdadeira, música e dança e risota. Ali tratava-se de resistir. Ao sono. Ao cansaço. À dor. De 2,1 em 2,1km, tratava-se de resistir à pequenez do avanço. Ali, tratava-se, para a maioria, de caminhar. Como Ricardo Bastos, apostado em aumentar o donativo à Banda de Música do Loureiro, ao ritmo de 35 euros por km angariados junto de amigos solidários. Ricardo foi também a voz da razão. “O chip?” Pois… Caminhemos Ricardo, sem pensar no chip, e bebamos o fino marcado há dias, hás de passar a noite comigo e mais uns quantos, proposta bonita esta. Havia fino no paddock. E houve comida da verdadeira até acabar, lá pelas entradas três da manhã, talvez o único erro a apontar a organização. Voltaria pelas perto de sete, menos mal. Entretanto passa João de polegar estendido. E Capela. “Achas que consigo fazer 15 km até ao meio dia?” Perdemos a noção do tempo, ali, à roda. Juntou-se Joel ao arrastado passo dos caminhantes, ele e a bexiga certinha, um xixi por volta, infalível, um reloginho! E a boa conversa. Sobre política. Sim boa. Que isto está pela hora do levantar de ombro, qual campanha qual quê. Sobre corridas (invariável e, admitimos, completamente insuportável para quem não pertence à tribo). Joel, acho que se fechar os olhos caminho dormindo. Botam-me a mão se vacilar? Renato, muito perto dos famigerados três dígitos depois de 80km a correr, sorri, apenas. E caminha, a ignorar o pé em chamas. Joel é todo ele um pé só, uma planta gigante em forma de dor invisível. “Acho que os meus ténis morreram”. Discutiu-se, a propósito, a oportunidade da palavra ténis, Joel, que diabo, és de Aveiro. Não. É de Lisboa. Toma que já almoçaste. Já Miguel foi obrigado a fechar os olhos, uma ordem, ou dormes ou não consegues e vais arrastar-te moribundo. Dormiu. Uma hora. Regressou ao ritmo de João e, como ele, afastou ligeiramente o braço e esticou o polegar. Uma ou duas vezes, até fazer companhia ao grupo, já coxo e titubeante (o grupo). Conseguiu.

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A noite no paddock

E nasceu o dia e os olhos diziam que estava tudo errado e que a aurora é muito linda mas é depois de se dormir e um pão ainda morno de fresco com queijo dentro salvou a mente da absoluta alucinação. Absoluta porque da outra, momentânea, houve q.b. Será isto provar a resistência. Será chegar às seis da manhã, ouvir Capela a contar voltas e a chamar por nós a cada ultrapassagem, ou ouvir Joel a fazer perguntas já respondidas, ou falar de tacões agulha (ou seriam já 11 horas?), ou acolher João (o Campos dos Ronhonhós), casaquinho pelo ombro com o ar nonchalant de quem sai de uma disco, ainda que com os olhos raiados do exagero, ou ouvir João (o Oliveira) acrescentar uma frase ao braço afastado e ao polegar estendido, “nunca mais são oito?” Porquê? Paras? “Não. Para poder passar a perguntar: nunca mais são nove?”

“Totó!” Era para nós, a belíssima menina-mãe-avó Flor Madureira. “O chip?” Pois… Caminhámos também, a iludir meia volta de dores musculares, depois da paragem para o chá quente (esteve mesmo frio). Como se aguenta? Indo. Flor tem a voz da força de José Carlos, o incapaz de dormir marido dela. A fotografar-nos, valha-nos isso. E João segue passando. Vimo-lo caminhar, com estes olhos alucinados que a terra há de comer. Uns 200 metros. Sobrenatural. E passamos nós por Fernando Ferreira, a obrigar padrinhos a apadrinhar km com bens para a associação Amor Perfeito. Depois passou-nos ele. E Carmen Henriques, a vencedora, sempre em silêncio, fixada numa causa, também ela. E Rui Pedras, o veterano que seria discreto se não tivesse o mais sorridente brilho no olhar. E Orlando Duarte, anjo da guarda de Analice e atleta que melhor faz contas na tribo, provavelmente a magicar, entre risos, as estatísticas das 24 horas (calculou 290 participantes nas várias provas, 8484 voltas e 17.816,4 km pisados naquela pista). E passavam os da corrida em estafetas, autómatos, indiferentes às nossas gargalhadas. E depois chegaram os fresquíssimos participantes da última prova de três horas, vá, arrumem-se, não custa nada (?!?! Nós – eles – com mais de 100km nas pernas, até já parámos para a selfie no pórtico e nela ficou Capela, “achas que faço?”, um sorriso e está tudo sem nexo, e vêm uns cromos cheios de gás mandar-nos arrastar a ciática para a berma?) Certo.

Ricardo, já mancas? Idade, idade. Seja. Passa Alcides, potente de uma noite dormida, ainda bêbado da primeira longa distância da vida, conquistada nas primeiras horas da prova. E nós morremos apenas mais um pouco, o calor a apertar os sentidos, o objetivo já entrado nos bónus para os meninos dos três dígitos, o objetivo absolutamente individual e intransmissível de uma maratona caminhada sem chip quase a perfazer-se no acompanhamento de almas alucinadas noite fora. Uma prova de 24 horas pode ser a definição perfeita da resistência. A tudo. E acima disso à fraqueza da mente. A Banda de Música do Loureiro Entoa o hino nacional no pórtico. Ricardo chega aos 144km e aquele arrepio de ter assistido a tudo também. Organiza-se uma caneca de barro preto com muitos litros de cerveja. E partilha-se. Uma prova de 24 horas pode ser a definição da partilha. Daquelas tão profundas que demoram mais de uma semana a ser passadas a escrito. E mal…

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Carmen Henriques, a vencedora feminina

Entretanto, onde os ténis são essa coisa

Mais a Sul, onde os ténis são mais unanimemente chamados pelo nome de um desporto, a noite foi bem mais solitária. Outro João, o Colaço, homem de provas também impossíveis (como a “Spine Race” deste ano – mais de 400 km na neve do Norte da Grã Bretanha – ou o Tor des Géants,  com os seus respeitosos 330 km alpinos), repetia em Leiria 24 horas a correr, para angariar apoios por uma causa local de apoio social. Olha, rimou! Como “Colaço” rima com “aço”, tal é a fibra de quem correra mais de 144 km num tapete (!) um ano antes, pela mesma causa. Desta vez, as únicas máquinas que faziam mover pernas na Praça Rodrigues Lobo – a mais icónica praça de Leiria – eram as bicicletas estáticas que estiveram ocupadas as 24h, num constante sobe e desce de gente que pedalava para ajudar, enquanto outros corriam ou caminhavam para que o dia a dia dos meninos do Colégio D. Dinis  e Girassol seja mais digno.

João, o homem de aço, esse, imparável na sua função, lá ia dobrando as esquinas, degraus, rampas e transeuntes que se lhe deparavam no percurso de quase 3 km entre o centro histórico da capital do Liz, e o Parque por onde corre o dito Rio. Fizemos mais de 80 km entre a hora inicial -16 h – e as 7h. Foram muitas as camisolas que o João trocou, uma cada 2 horas patrocinada por uma empresa diferente, e muitos os que correram alguns km com o Colaço. Havia quem batesse recordes, mas mais modestos. O João correu por todos e com todos. Todos esgotavam as energias à vez, enquanto o sol se ia deitar levando com ele a canícula da tarde. Todos menos ele, que aguentou estoicamente as 24 horas ininterruptas a correr, comendo e bebendo em movimento, com paragens rapidíssimas para os xixis saudáveis, e trocando sempre palavras simpáticas com os que viam ali, naquelas 24 h, a oportunidade de correr com o homem de aço, que parece ter sempre força para mais um pouco.

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Missão 24, em Leiria

Pela noite fora, entre espanto de gente abençoada pelo deus Baco, que desfilava pelas ruas estreitas de Leiria o último copo, e o silêncio do desértico parque da Cidade, João e os outros – todos os que o acompanhávamos – tentavam fazer com que o relógio andasse mais rápido, com que o fresco da noite se prolongasse durante o dia, e com que o sono não teimasse em tentar fazer cair em tentação quem, por opção, não se podia dar a tamanho luxo. O Luis Subtil, depois de correr transportando quem não pode correr em Joelettes, garantia que nada falhava e que havia animação junto do João. O Mário, o Paulo, o Nuno e o Rogério, animavam as hostes e iam assegurando companhia ao lado do herói, ora correndo, ora organizando os turnos de quem queria correr. A Mónica ia fazendo o mesmo e sofrendo como quem, por amor, tem sempre um pouco mais para sofrer.

As corridas de resistência são uma luta individual, onde, à medida que o tempo e os quilómetros não avançam, se passa de um desafio físico a um imperativo mental. O corpo, chegado aos limites, é impelido pelo cérebro a continuar, apesar de gritar “Basta”. Fazê-lo altruisticamente é absolutamente enaltecedor e louvável. Quando se tem um objetivo destes, solidário, e em que tantos impelem tanta certeza de sucesso num homem só, a fragilidade de 70 kg transforma-se em vontade de toneladas de resistência mental.

Não sendo uma prova competitiva, os 191 km percorridos pelo João são uma chapada de alerta, um “abre-olhos” para uma comunidade que pode e deve cuidar dos seus. A organização, impecável, do NEL – clube do João – e da Offtel Runners, cuidaram que mais de 500 pessoas se tivessem juntado em Leiria, contribuindo com uma ou quatro horas para correr, caminhar ou pedalar. Tudo somado às ofertas que foram chegando ao centro nevrálgico da prova acendeu um pouco mais a chama de esperança num amanhã melhor para as centenas de jovens do Colégio D. Dinis e da Girassol. Se a esta iniciativa juntarmos toda a solidariedade gerada pela prova de Vale de Cambra, podemos contar com as pessoas que correm, para mostrarem ao mundo, que, afinal, correr é sempre um bom motivo. Partilhamos com a corrida a vontade de ajudar.

Ivete Carneiro e Rui Pinho

2 comentários

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  • Flor Madureira

    1.10.2015

    Fantástico relato de quem connosco partilhou kms, Ivete és uma ultra jornalista e uma ultra atleta!Obrigado por pertenceres à nossa tribo :)

  • Ricardo Bastos

    29.9.2015

    Maravilhosa narrativa. Assertiva, sensível, calorosa. Um mimo bom. Um abraço para a alma de quem como a autora ali deixou Amor naquela pista ao longo de mais de 24 horas. Relato que demorou uma semana a ser escrito, e bem…