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Pelos trilhos do contrabando

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Pela calada da noite, ou dos dias escuros como há tantos, agarravam nos carregamentos e esgueiravam-se trilhos dentro. Podia ser bacalhau. Ou azeite. O azeite era uma mina. Podia ser gado, vivo. Era um jogo do gato e do rato, a passar como o pó da terra negra do Larouco entre os dedos das regras. O pai dele era um dos que amainava vida assim, à sombra da legalidade da luz do dia. E ele lembra-se de se saber privilegiado, com dois contos no bolso para ir estoirar no fim de semana àquele sítio tão almejado na escuridão e tão normal, afinal: Espanha. “Quem é que tinha dois contos para ir para os copos naquela altura. Dois contos então seriam, sei lá, uns cem euros hoje…” Não vivia mal, não, conta-me ele, enquanto subimos uma encosta iluminada pela ainda muito manhã, dia quase sépia, com os dois sinaleiros montados nas suas BTT para indicar a rota certa em casos dúbios. Cruzámos dois marcos antigos, um maior do que outro, quatro faces cada, duas com um gigantesco E, duas com um gigantesco P, um 168, o outro 169, a vegetação apaga o 170. O pai, diz ele, levava bacalhau, lembra-se bem. Na volta trazia daquela fruta enlatada tão apetecida e tão inatingível cá. E andava nisto, à noite, a contornar as garras das guardas, a civil e a nacional republicana. Ou levava-se tabaco para trazer café, ou seria ao invés, talvez.

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Estamos na Galiza, depois de deixar para trás 1h30 de Portugal, numa das vilas mais a norte, encravada no território espanhol. A vila mística, a vila que, aldeia, tem, só para ela, nove cafés. Nove, uma gigantesca conta como a que nos leva ali: contornar e subir ao segundo ponto mais alto de Portugal, por 43 km dos trilhos do contrabando, no Ultra Trail Ibérico de Vilar de Perdizes.

Vilar de Perdizes. Sempre soou a uma entidade à parte. Os cafés, conta ele, nasceram disso. Eram autênticos mercados noturnos, centros de revenda do produto escapado das garras policiais. E depois havia os currais com duas portas, qual portagem de gado vadio, isto quando tudo não era mais ou menos tolerado, que os senhores da autoridades precisavam de viver como os outros. Estamos ainda em Espanha, desta feita a subir o lado deles do crocodilo que é o Larouco e a perceber que a ganância dos dias de hoje pode ser tão mais prejudicial que a de impostos roubados nas fronteiras de Trás-os-Montes: corremos num estradão bordejado de terra queimada, ainda a cheirar, a entrar-nos sentidos dentro, a tornar toda a beleza circundante num abismo pontuado pelo incrível branco das torres eólicas. Está ali o posto fronteiriço, ou o que restará dele, quatro paredes de olhos abertos, sem teto, uma solidão como a que imaginamos fosse a da troca de caixas naquelas noites de contrabando do pai dele. Falamos, também, da imigração a salto. Já não será do tempo dele, só sabe histórias. O incêndio deve ter um sentido de fronteira, parece ter parado de repente quando arranca o planalto e a conversa, porque corrida, passa de repente aos que passam a salto, hoje, para dentro das fronteiras europeias e que a Europa que andou a salto parece tão dificilmente compreender.

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Um Trail do marco ao Padre Fontes

Um Trail pode ser debater política nacional ou mundial. Um Trail pode ser questionar o desequilíbrio do respeito pelo social de um lado ou do outro daqueles marcos com P e E – a estrada estreita e semiabocanhada do lado P a abrir-se na normalidade do asfalto com largura de gente do lado E. Um Trail é chegar ao segundo topo de Portugal e parar, estarrecidos, a olhar em panorâmica as rotas do pai dele e de quem teve de fazer pela vida, dali ali, Vilar e Santo André ao lado de lá, reino de Baltar.

Um Trail é subir a um marco geodésico e abraçar a magnitude da barragem do Alto Rabagão, ver as sombras de Pitões das Júnias, tão lá longe, é confirmar que, afinal, o incêndio não vê fronteiras e o que se estende aos nossos pés é uma rampa de negrura sem mato que nos acolha um tropeção. E é mesmo por ali o caminho, a caminho dos caminhos do final. E como dói descer depois de subir 25km, como dói este cheiro a queimado. Como faz bem ver uma seta de duas em duas pedras, a indicar um trilho sonhado por Mauro Fernandes, o ideólogo destas corridas de paisagem, belíssimas, inebriantes. E como dói, Mauro, aquele abastecimento dos 33km (e que bons foram os abastecimentos) ser plantado na margem de uma piscina apelativa, com vista para tudo o que fizéramos até ali, o Larouco, lá já tão em riba.

Na partida, pelo cedo da manhã, Vilar de Perdizes era como sempre. Com café quentinho, com o Padre Fontes de cicerone, a dizer-nos que tanto gostava de ir contrabandear por aí, mas que lhe tolheram os planos com uma boda em Chaves, com a sineta a dar o tiro, algumas dezenas de atletas, poucos, não é terreno de massas, este. À chegada, de novo Vilar, o Padre Fontes a convidar para mais logo, as mulheres – tem tanta mulher esta vila – na saída da missa, o café quentinho. Há coisas que não mudam. E, à noite, porque é Vilar e porque pela manhã haverá outra ultra de 60 km, o fogo da alma barrosã, levado ao breu dos céus pela concha do Padre Fontes, encarnada em álcool a arder numa queimada com grãos de café e fruta quiçá enlatada – “O primeiro inteiro / O segundo até ao fundo / O terceiro como o primeiro / O quarto como o segundo / E o quinto já nem o sinto” -, às escondidas num recanto do último Portugal, entre marcos fronteiriços e histórias de contrabando e de mezinhas para botar para lá as dores musculares.

Ivete Carneiro

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