Flor, a menina-mãe-avó do trail

Ter Flor no nome só pode ser um bom prenúncio. Mais a mais quando se está essencialmente bem no meio delas, das flores, selvagens se possível. Flor é o nome de uma menina-mãe-avó que descobriu a vida não quando foi mãe, mas quando a ligação à irmã, essa coisa de menina, correu o risco de se perder. Flor é a alma da organização de muitas corridas por esse país fora, a grande mulher na sombra de um grande homem – que nem é o dela, que o dela, José Carlos, anda de mão dada na dela. Flor é alma por detrás de José Moutinho, o pai do trail em Portugal. E contou-nos por que corre tanto por essas serras fora.

A génese da corrida vem da juventude, como em muita gente – sim, é avó, os 40 estão no fim e conseguiu este ano subir ao pódio dos campeões nacionais de corrida de montanha. Corria em estrada, igualmente como toda a gente.  Aos 17 anos parou. “Fui mãe e dediquei-me às minhas filhas, até elas serem de maioridade, e nunca mais fiz nenhuma atividade desportiva”. O percurso comum, não é verdade. Até que vem uma daquelas partidas da vida madrasta.

“Em 2002, a  minha irmã mais nova teve um problema de saúde bastante grave, que me fez repensar a minha vida. Toda.” Fala agora com pausas, Flor, habitualmente tão rápida no discurso despachado de quem tem sangue na guelra. “Afinal eu tinha que usufruir mais dela. Dela vida.” Mais do que limitá-la ao trabalho. A recuperação da irmã fez o resto. “Como exigiu acompanhamento nosso em termos de aprender a falar e a andar e tudo o mais, aproveitámos para reensiná-la a caminhar e fomos fazendo caminhadas.” E habituaram-se, ela e o marido, Zé Carlos, a caminhar. Um dia correram cinco minutos. Dez minutos. Dez quilómetros. Uma maratona.

Só bem mais tarde veio a montanha. Porque Flor, apesar de bucólica, tinha medo dela, “imenso”. Mas tinha amigos que faziam “loucuras”, 50 km – “na altura” era uma loucura, era na Freita, a primeira prova a ir tão longe. E desafiaram-na a ir a Valongo visitar Santa Justa. “Adorei. A partir desse dia nunca mais deixei o trail”. Aqui diz o que todos dizem: “A sensação de liberdade, a beleza que nos envolve, estares em sítios completamente sozinha.” Não, não é fixada, Flor. Gosta de estrada, ainda. Porque gosta, afinal, de correr. Apenas. Seja onde for. E se for em estrada com desnível, como no centro histórico do Porto, tanto melhor.
Ivete Carneiro

1 comentário

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  • Rui Pinho

    12.9.2015

    Uma Senhora. Uma adorável, competente e excelente Senhora, de quem tenho o prazer de ser amigo. Ao lado dela um grande Senhor. Exemplares!