Foi bonita a Legendary, pá!

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Subir para debaixo poderá ser a definição da estranha e divertida prova que levou este sábado algumas centenas de corredores até Vila Nova de Gai. A Gaya Legendary Running foi isto: subir, subir, subir até às entranhas da urbe, até à realidade que vive escondida debaixo do tapete, sem o sentido pejorativo que a expressão poderia ter.

Idealizada por André Oliveira (do Ultra Trail Douro e Paiva, em Cinfães), a Legendary – foi a primeira edição, mas já merece o tratamento encurtado carinhoso de quem a viu nascer e construir-se, de quem para ela se preparou, ou não fosse a prova uma corrida de montanha à porta de casa – foi a revelação ao mundo do seu próprio quintal de treinos.

E é mesmo de quintal que aqui se fala. Depois de um luxuoso arranque da Douro Marina, às portas da Reserva Natural Local do Estuário do Douro, o percurso entra logo no mato, por um trilho na margem de terra que corre ao lado da ciclovia (ainda que alguns optassem pela velocidade do macadame para tirar uns tristes segundos a uma prova que era de fruição) e sobe, por uma parede de terra batida com providenciais troncos, até à Torre da Seca do Bacalhau, para voltar a descer por umas escadas de passadiço, tão bem escondidas que poucos as conhecem (que escadas são as que aparecem nas fotografias, perguntou quem só viu tudo isto em fotos). São uma espetacular bancada para apreciar todo o esplendor do estuário e da margem de lá, da bela Invicta engrandecida pelos tons do ocaso.

E depois, há terra. E mato. E minúsculos bosques. E subidas a uma cidade totalmente oculta e, afinal, à disposição de quem queira percorrê-la. E, de repente, a entrada num filme de Tim Burton por um terreno rasgado por escorrências de água, pondo-nos a saltitar como se em vez de pernas tivéssemos aqueles filetes da noiva cadáver, até surgirmos perante a mansão de onde só falta saírem morcegos. É aí que o cenário oferece as melhores imagens, o horizonte indeciso entre o rosa azulado e laranja choque, por cima já a ameaça da escuridão.

Para os mais rápidos, nada que importasse, para as centenas de restantes, era o prenúncio da noite, para a qual nem todos foram preparados. Muitas vezes com um só frontal a iluminar o caminho de meia dúzia de atletas, o trilho foi passando a calçada, sempre a subir, parece que nunca se desceu, terá sido impressão?, embalado pelo gigante aplauso dos habitantes da Afurada, essa belíssima aldeia piscatória abraçada por duas das maiores cidades do país.

A Afurada é uma aldeia que escorre encosta cima, no sentido contrário à normalidade. É a aldeia que esconde a rampa do Monte da Luz, indescritível, se não conhecem, vão lá espreitar. E por aí adiante, num arrebatar de encostas preservadas da modernidade, à sombra das catenárias das Devesas, na faldas do luxo do Yeatman, atrás das tão vistas caves de Vinho do Porto. Depois há o Castelo, ponto mais alto daquela beira rio, alto a sério, junto ao qual cresceu o lar com a mais bela vista que se pode pedir para gastar a terceira idade. Para-se, é obrigatório parar. Como quando numa curva do terreno nos esticam um Porto Tónico da esplanada da Churchill’s, os cinco saborosos minutos que se perdem a olhar as luzes da noite portuense, um quadro em tons sépia do tamanho de uma ponte de ferro, de um convento, de uma catedral, de um presépio tamanho gente, mais os outros minutos tantos que se investem a escutar Cidalina a explicar que água é vida e não se recusa a ninguém. Está há uma hora de garrafão em punho a encher os copos de plástico alinhados no muro que lhe serve de balcão para o espetáculo que é o Porto, assim, só porque só pode levar sede esta gente que passa, a reluzir de suor e de material refletor. Ou aquele imenso meio segundo em que se estaca o trote para apontar o frontal às ruínas de mais um palacete de Burton, este tomado pela verdura, será possível tudo isto? Estamos dentro da casa. Ponto.

E depois descemos e subimos, aqui sim, literalmente, para debaixo da Ponte da Arrábida, para testar a montanha que lhe aquece os pegões, num carrossel de curvas que nos devolve ao abraço piscatório, ao chão firme, ao luxo da Douro Marina. E nos faz olhar para o gps e resmungar. Venderam-nos 23 km, que afinal foram 19 e logo hoje que queríamos mais. Queríamos ir sempre, noite dentro, Gaia acima, tapete abaixo.

Foi bonita a Legendary, pá!

Ivete Carneiro

Fotos: Miguel  Martins Photography

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