A história de um abraço nos Alpes

lusu696

Esta é a história de uma das mais belas chegadas a uma meta que já vimos. É a história de duas mãos dadas, de um pé inflamado e de um estômago às voltas. É a história dos valores que se levantam mais alto do que a competição. Esta é a história do abraço de Susana Simões e de Lucinda Sousa.

Se as coisas fossem como deviam ser, o embalo épico da Conquista do Paraíso de Vangelis teria troado 34 horas 33 minutos e 29 segundos depois da hora em que troou. Até porque era de noite – a segunda noite depois da hora em que troou – e a noite engrandece as grandes músicas. Naquele momento, 34 horas 33 minutos e 29 segundos depois da partida descontada em francês do Ultra Trail do Monte Branco, as duas primeiras portuguesas cortavam a meta daquele que foi provavelmente o desafio mais duro das vidas delas: juntas, superaram a negação do corpo de cada uma delas, uniram-se na fraqueza e acabaram a conquistar um enormíssimo vigésimo lugar de mãos dadas, naquela que era para ambas uma estreia na meca mundial da corrida de montanha, 170km depois de Vangelis ter ecoado contra os Alpes ao final da tarde de Chamonix.

Os olhares de Susana e Lucinda provavelmente nem se terão cruzado na confusão da partida de 2563 pessoas, nem deram uma pela outra até aos 70 e tal quilómetros, já Lucinda acumulava 30 km de vómitos. “Comi um gel e uma barra de cereais durante toda a prova”. A simples ideia de beber encostava a atleta de Gondomar ao lado, num pranto de vómitos.

“Eu passava-a, ela passava-me, eu com o pé inflamado no tornozelo, talvez tenha travado muito nas descidas, ela com vómitos”, recorda Susana, que chegou a chorar, conta Lucinda, quando soube que Telmo, a alma gémea do Desafio a Dois, desistira, também ele enfraquecido pela deficiente alimentação. “Ela chorava, furiosa por ele não ter tentado, triste porque ele ia arrepender-se no dia seguinte”, diz Lucinda que, ela, chorava para que a deixassem continuar, fantasmática da fome e da impossibilidade de ingerir fosse o que fosse. E foram indo neste passa tu passo eu, até que Lucinda disse a Susana que, se não lhe atrapalhasse a prova, iria com ela até ao fim. “Para gerirmos as dificuldades uma da outra”. Susana ainda gracejou com Jaime, o marido que acompanhou a progressão de Lucinda, que não a largaria, apesar de sentir que teria algumas dificuldades.

“Incentivávamo-nos para ignorar as dores, falávamos de outras coisas”, a enganar a penosidade da prova a partir dos 124 km, em Champex, Lucinda a puxar Susana nas descidas, Susana a puxar Lucinda nas subidas, “ela estava sem força muscular, sem comer acabará por se consumir a si própria”, a recordar as histórias de alucinações que todos contam e que elas, bem alertas, nem cheiraram, a caminhar quase 40km, os do fim, os duríssimos quilómetros do fim, duros para todos. “Se ela tivesse desistido, eu provavelmente também teria desistido”, diz Lucinda, que abandonara a ideia de competição lá atrás, ao primeiro vómito, ela que foi a melhor portuguesa nos campeonatos mundiais de Trail, em Annecy, em maio, 84,9 km depois de ter partido o joelho, numa prova de… 85km.

“Era importante superarmo-nos”, juntas, diz ela. “Há valores mais altos do que a competição”, completa Susana, “incapaz de faltar ao prometido”. “Não ia deixá-la. E disse-lhe, se não viesse contigo não conseguiria”, recorda Lucinda.

A dois quilómetros do fim, correram. Conseguiram. E entraram na avenida da meta a sorrir como se apenas lhes doesse o sono de duas noites perdidas. Sem Vangelis, de mãos dadas, sem palavras, de alma cheia como a lua da noite anterior, enquadrada pela montanha que arrumou 931 atletas, entre eles muitos dos melhores.

Ivete Carneiro

Fotos Paulo Pires/APT

lusu2696

0 comentários

Leave a Reply

Faça login para comentar