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Gente ordinária fazendo coisas extraordinárias

Meter-se numa prova de 281 km (que seriam 294 no GPS de Rui Pinho) é isto que o nosso atleta-repórter tão bem conta. Parabéns Rui.

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Prova inédita no panorama nacional, rara mesmo no panorama europeu, dada a distância, inspirada na Badwater e na BR 135, a estreante PT 281 tinha como primeiro propósito o de proporcionar uma corrida entre Belmonte, terra de Pedro Álvares Cabral, e Proença-a-Nova, bem no coração do Pinhal Interior. Corrida não, aventura: o trajeto que todos teríamos de cumprir seria registado por um tracker e exclusivamente guiado por um aparelho de GPS, cedido pela organização para quem não o tivesse. Sem desperdício de plástico em marcações e sem eventuais erros, que numa distância tão grande, seriam inevitáveis.

Tal como Cabral há mais de 500 anos, nem todas as naus (leia-se “atletas”) chegaram ao destino, não deixando contudo de coroar de êxito a arrojada expedição. Numa prova desta dimensão, mais do que o treino – muito mais que o treino – conta a experiência. Há variados factores que podem condicionar uma estratégia e as variáveis mudam de um momento para o outro. Ora, sendo o tempo limite de 66 horas, recuperar de um imponderável podia tornar-se uma tarefa hercúlea, ou fatalmente inglória. Foi esta a diferença entre acabar ou não tamanha façanha, a diferença entre os seis (e mais uma dupla em estafeta) que a concluíram com a ajuda da experiência de quem a tinha e os oito que ficaram pelo caminho.

Quando nos atrevemos a tais distâncias, que vão muito além do que sabemos ser capazes, entramos num limbo surreal, onde a aura de sonho, ou de sobrenatural, só nos larga quando começamos a sentir dor, cansaço, sono ou qualquer outro desconforto. Foi assim toda a viagem até Belmonte, num autocarro cheio de gente de regresso ao interior, e durante todo o resto do dia da partida. Chegado à paz da terra de Cabral no pico do calor, mala às costas até ao Castelo onde estava o secretariado e onde seria dada a partida. Almoço com o campeão das ultra distâncias, João Oliveira, que também viria a vencer esta, ida ao briefing da prova e tarde passada a planear a tática no “quartel general” do Rui Rocha (com quem viria a fazer grande parte da prova), uma calma quinta de turismo rural. Dormir é que nada. A insanidade também passa por não fazermos o que devíamos fazer nestas alturas.

À noite, depois de um jantar oferecido pela Câmara Municipal em plena arena do Castelo de Belmonte, últimos conselhos e partida noite dentro rumo à maior aventura pedestre alguma vez realizada em território nacional. GPS na mão (ou no pulso), frontais na cabeça, navegámos em fila até sairmos do miolo urbano. Depois, tudo se resumiu à determinação e superação.

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Com o Rui desde o início, fomos mais que um par de homónimos. O Rui, mais experiente em longas distâncias, conhecia também o meio onde estávamos, já que tinha feito, de bicicleta, uns 300 km da Grande Rota 22, onde se desenrolava grande parte da primeira metade da prova. Assim, com um guia qualificado, lá fui em par, de assalto em assalto às Aldeias Históricas por onde passa esta linda e bem marcada GR22. Num carrossel constante onde se destacam as subidas aos diversos castelos, esta GR é perfeita para correr e mostrar ao Mundo muito do mais belo que tem Portugal.

Mauro Chasilew, experimentado ultramaratonista com 18 corridas completadas de distância superior a 200 km (entre elas a Badwater e todas as BR135 desde 2007), acompanhava-nos a curta distância, deslumbrado com a beleza do percurso, encantado com os castelos e burgos de Sortelha, Penha Garcia, Penamacor e Monsanto, cujas portas ainda se mantêm abertas, e rendido à dureza acumulada. É isto que devemos oferecer a quem nos visita, a possibilidade de conhecerem belos locais que de outra forma não visitariam.

O Mauro, o Rui, e mais tarde o Gonzalo, argentino vizinho do Aconcágua, fariam comigo um quarteto (em 6 finishers) que se foi alimentando mutuamente e gerindo esforços. Dormimos, comemos, corremos lado a lado, fomos a cafés, partilhámos histórias, medos e sonhos. Fomos sempre acompanhados do apoio do Rui, a esposa Fernanda e o pequeno Moisés, que nos fizeram camas, encheram-nos de moral, deram-nos comida, bebida ou apenas moralizadoras palavras de incentivo. Pequenos gestos com dimensão gigantesca em pessoas com enorme generosidade.

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Para concluir com sucesso esta PT281+, eu e o Rui, decidimos desde muito cedo que gastaríamos a dormir a margem ganha à média necessária para terminar dentro do tempo limite. Assim, mal chegámos ao segundo posto de abastecimento, em Penamacor, já com mais de 80 km e no pico do calor, deitámo-nos a dormir. Uma hora – o combinado. E assim foi. Até ao final fomos dormindo, sempre que o sono era muito, fossem 20 minutos ou uma hora. Revelaram-se sempre mais importantes do que tentar manter ritmo. Acordávamos sempre incrivelmente frescos. O Mauro, com toda a sua experiência, foi transmitindo a confiança no sucesso do método e a importância de ir sempre comendo, coisa que nunca parou de fazer. Nós lá o fomos imitando, fosse com o que tínhamos, ou com o que íamos colhendo das árvores ou arbustos. Laranjas, ameixas, figos, pêssegos, uvas e amoras. Houve sempre até Proença.

Há pormenores desta aventura que não se transmitem, vivem-se. Como a tempestade que se abateu sobre Penha Garcia, com trovoada, granizo e chuva forte, e que nos obrigou a esperar mais de uma hora para sairmos, ou o “sono expresso” (os tais 20 minutos) entre as moscas do parque de estacionamento de uma vacaria (única sombra disponível em km), ou outro ainda num ribeiro seco no meio de uns penosos 42 km planos de corrida com o sol a pique e vento forte de frente. Foi aqui, nestas longas horas de trajeto, que foram aparecendo os nossos “anjos da guarda”, encarnados no pessoal da organização, que avisados pelos poucos (ou nenhum) pontos de água, apareciam para nos apoiar. Eram apenas oito, pareceram sempre 800, nunca falharam.

Estas provas são propícias ao improviso. O Mauro, chegado à eleita aldeia mais portuguesa de Portugal – Monsanto – bebeu uma água num café e, ao ver uma cama num compartimento contíguo, deitou-se a dormir. Não conheço outro desporto onde se durma em cama alheia sem “peso na consciência” ou medo de ser apanhado. Afinal, uma cama era um extra raro em três dias, ele aproveitou-o. As histórias que nos foi contando e as aventuras que já viveu nas mais diversas ultras fazem dele uma das mais inspiradoras pessoas que conheci na corrida. Nunca fez uma maratona de estrada. Começou numa ultra de mais de 200 km e decidiu que era o desporto que queria praticar. O título deste texto é a sua definição do ultramaratonista. Em breve publicaremos uma entrevista que vai revelar mais deste nosso companheiro de caminho.

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Voltando à corrida e às suas vicissitudes. Depois de apanharmos o Gonzalo, fomos ora os quatro juntos, ora em dois pares separados por pouco tempo até ao final. Da Argentina chegavam pedidos de entrevista aos irmãos que o acompanhavam. O facto de se adivinhar um pódio numa das “maiores ultras do mundo”, citei, era notícia no país das pampas. O Rui acompanhou-o e o Mauro não mais me largou depois de saber que eu “corria com um montão de moleque às costas”, em alusão ao projecto solidário com a Prozis a favor da Raríssimas.

O dia de Sábado foi todo para atravessar o Concelho de Idanha-a-Nova, segundo maior do país, enorme, com área superior à da Ilha da Madeira, e que parecia interminável. Depois, a segunda noite até Vila Velha de Ródão, concelho vizinho de Proença-a-Nova, já com cheiro a meta. Puro engano. Que o diga o Pedro, que aqui seguia em terceiro e foi obrigado a desistir, com os pés destruídos e o corpo esgotado. Das portas de Ródão até Proença esperava-nos um desnível positivo de mais de 2000 m em 47 km. Uma ultramaratona de puro trail, onde mais uma vez foi fundamental o apoio da organização entre postos de abastecimento e o tempo, encoberto neste último dia, ajudou. Até Proença, um mergulho no Pinhal Interior, com passagem por belas aldeias de Xisto, para complementar o trajeto como uma visita às Aldeias históricas da Beira Interior.

A PT281+, cujos troféus são caravelas e padrões dos descobrimentos é uma arrojada organização, que pôs a Beira Interior nas bocas de muita gente do outro lado do Mundo. Dos que a terminaram, um é norte americano, outro argentino, um brasileiro e três portugueses. O vencedor, João Oliveira, é um dos melhores do país e disse ter sido “a prova mais dura que fez”. Os finalistas da Badwater, o norte-americano e Mauro, o meu amigo brasileiro, disseram ter sido bem mais duro concluir esta do que a ultra no Vale da Morte. Eu, o Rui e o Gonzalo, talvez por ter sido uma estreia, estávamos deslumbrados com o que conseguíramos. Tratados como heróis, coroados réis de um império que é o das ultras distâncias, e onde só os que não têm medo do desconhecido se atrevem, sejam participantes ou organizadores.

Um agradecimento à Horizontes por me ter proporcionado uma das mais marcantes experiências da minha vida, à Prozis por me ajudar a ajudar a Raríssimas, e aos cinco voluntários e três membros da organização que nos apoiaram. Enorme agradecimento aos meus companheiros de epopeia, atletas e famílias, em especial ao Rui, à esposa Fernanda e ao Mauro. Nestas provas leva-se esperança e trazem-se amigos. Extraordinário.

A PT281+ partiu de Belmonte, terra do navegador Pedro Álvares Cabral, para um futuro que nunca mais será igual. Como Cabral, visionário que nos deixou um legado que incluiu novas terras, instrumentos e técnicas de navegação, esta prova abre um novo caminho para o futuro das provas e do turismo desportivo em Portugal. O nosso país tem belezas que só se descobrem assim, à aventura. E um povo acolhedor que nunca estranhará encontrar um atleta a dormir na sua cama.

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Rui Pinho

Fotos Paulo César Borges

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