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51 lusos nos 168km do Monte Branco

Porque alguns já terminaram a prova TDS, outros a OCC, outros estão desde segunda na PTL, uns partem esta manhã no CCC e 51 alinham logo à noite no UTMB, falemos da prova na primeira pessoa, pela voz de Hélder Ferreira, o primeiro português a concluir o Ultra-Trail du Mont Blanc (UTMB).
  
Em entrevista à Lusa, revelou a sua surpresa com a implantação da modalidade no país, que vai apresentar na principal corrida da ‘meca’ europeia 51 atletas. “Nem na corrida de estrada, com as vitórias do Carlos Lopes houve este crescimento. Acho que se fica a dever em grande parte ao Carlos Sá”.

Funcionário do Ministério da Justiça com 50 anos, tornou-se em 2004 no primeiro português a concluir o UTMB. Hélder Ferreira recorda, falando à Lusa, os seus 36 anos a correr, alimentados pelo “bichinho da corrida em montanha desde 2001”, muito por causa da “componente de aventura, convívio e paixão pela natureza”.

A presença de 50 lusos entre os 2300 participantes nos 168 quilómetros do UTMB, que arrancam hoje, é vista por Hélder Ferreira com alguma surpresa, idêntica à que viveu na chegada a Chamonix.

“Inscrevi-me com três amigos, sem fazer ideia do que é a verdadeira montanha, e só eu consegui acabar. Lembro-me que para treinar estivemos no raide Torre-Piódão, que tinha 28 à partida… hoje em dia não há nem uma prova com menos de 200 participantes”.

Carlos Sá é o ‘culpado’ do ‘boom’ da corrida e em particular dos ‘trail’, segundo Hélder Ferreira, que adverte para a quantidade de provas em que cada um participa, exemplificando: “há pessoas que correm há dois anos com mais ultramaratonas [corridas com mais de 42,195 quilómetros] do que eu”.

A diferença é que em 2004 “praticamente ninguém sabia bem que equipamento levar ou como se alimentar”, algo que atualmente dificilmente ocorre.

“Na primeira vez corri sem bastões, acabei, mas jurei para nunca mais, porque tinha as pernas feitas em dois troncos, segui uma má alimentação e passei muito frio, acho que corri riscos desnecessários de hipotermia e hipoglicémia”. Mesmo assim, Hélder Ferreira encetou uma preparação quatro meses antes, percorrendo cerca de 100 quilómetros por semana, tendo em vista a estreia no UTMB, retificando o treino para a segunda presença, em 2006.

“Dessa vez, fiz uma prova fantástica, parecia que estava a fazer ‘jogging'”. E a sua terceira vez, em 2009, numa das provas mais pequenas, “foi mesmo para desfrutar”.

Para os 51 aventureiros lusos na edição de 2015 do UTMB, Hélder Ferreira diz que o desafio, além da distância e dos 9600 de desnível positivo [distância de subida acumulada], prende-se com a gestão das subidas e descidas, da alimentação e hidratação, reconhecendo que grande parte já estão habituados.

“Eu estreei-me quando não havia qualificação, agora é preciso conquistar pontos para se tentar o dorsal. É uma brincadeira que pode sair cara, nunca se gasta menos de 1.000 ou 1.500 euros, entre inscrição, viagem e dormidas, aos quais somamos as provas anteriores de qualificação. Sendo que esta é diferente, tem uma organização impecável, com abastecimentos fantásticos, marcações irrepreensíveis e um enorme apoio popular, que não é só para os primeiros. Só a sensação que temos à chegada é inesquecível”, concluiu o 203.º classificado do UTMB de 2004, em 38:15.52 horas.

Carlos Sá detém o melhor resultado português no UTMB, com o quarto lugar obtido em 2012, numa prova encurtada, um ano depois de ter sido quinto.

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