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A Madeira, nós e Ester

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Foto Martim Leitão

A Madeira era um objetivo distante, muito distante, praticamente arrumado da realidade por dois obstáculos gigantes, a julgar pelos relatos que me chegavam de uma das provas incontornáveis de Portugal: o MIUT e os seus triliões de degraus e os abismos, a abrupta sensação de fim de terra com o mar lá longe, em baixo, a pique. Ora degraus são o inferno dos músculos adormecidos dos corredores amadores e arribas são o inferno dos sentidos baralhados de corredores amadores com vertigens. Diagnóstico feito, não vais, minha querida. Só que isso seria contar que o mundo nos deixasse assim, no está-se bem do planinho, no está certo está, vai tu que por cá me entretenho com os degraus ao nível do mar do meu Porto. O mundo não deixou. Certo dia, vibra-me o telefone. No ecrã aparece-me Ester Alves. Luxo. É sempre um luxo quando no ecrã me aparece Ester, ou Lucinda, ou Carlos, ou Armando.

“Vamos à Madeira”, afirma ela. Assim, de repente? Mas, olha, degraus, vertigens, eu sou a última, sempre, degraus não são para mim, mormente a pique. “Vamos à Madeira, marca o voo. Vais conhecer os trilhos do Porto da Cruz. São lindos, temos que falar deles.”

Dito assim, não tive remédio. Voo marcado. Faltavam meses. Arrumei a ilha a um canto da memória e segui sendo última ou quase (top 10, é uma questão de honra) aqui e ali, mesmo quando o desnível era uma vergonha, mesmo quando metade das corridas era a descer, sempre com aquela mania de que eu, no meu vagar, vejo tudo tudinho e eles, os que me aparecem tem dias no ecrã, não vêem nenhum. Ah e tal, correr é prazer, é olhar, é sentir, é… E num instante estou num voo madrugador a caminho da ilha, aterro a cerrar os dentes entre poços de ar e a ingenuidade do baptismo de voo dos elementos do Rancho Folclórico de Santa Maria da Reguenga, de Santo Tirso, Santi Tirso, Ester, o único sítio onde corri com os da frente, porque te pus a arrastares-te por ali acima com a desculpa de uma reportagem. À saída, Hugo Marques e a redescoberta da hospitalidade dos ilhéus, que já esquecera. É o organizador do Ultra Trail Porto da Cruz Natura, é o jovem visionário que convenceu aquela freguesia do Machico a marcar percursos permanentes, é o homem a quem os madeirenses devem um circuito de treino perfeito do Porto da Cruz ao Poiso e daí para baixo, com passagem pelas paisagens “Senhor dos Anéis” da floresta laurissilva, onde já foram vistos elfos durante o MIUT. Consta.

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Foto Nuno Silva

Ali tudo parece viver para a corrida de montanha – dir-me-ão, e bem, que os desgraçados não têm alternativa, a ilha é um monte a sair do oceano, ou se sobe ou se desce, mal por mal, sai-se da dureza do alcatrão e sobe-se por veredas históricas até ao único plano, o dos mais de 2000 km de levadas da Madeira -, a começar por Hugo e a terminar em Duarte Fernandes, o acolhedor presidente de junta que também já corre, ninguém escapa. Olho a Penha de Águia a pontuar o céu escuro a 560 metros de altitude e peço pelas almas a Hugo que me diga que não, não vamos subir, que aquilo é medonho. Não, diz ele, só para o ano… Fica o aviso: a Penha é um promontório rodeado de quatro paredes. Medo. Vão vocês.

Ester e Nuno Silva e João Mota chegaram horas depois e foi aí que voltei a sentir o peso da responsabilidade de ser última e saiu-me a pergunta que tardava: quem vai vassourar esta brincadeira? Digam-lhes que a última sou eu, a lapa, a mal encarada, a que maldiz a montanha mal ela se inclina, para cima no início, para baixo depois, que descer depois de subir dói como tudo, sabem do que falo, por favor avisem-nos que sou eu e vou dizer coisas feias muitas vezes e declarar que tudo aquilo é, amigos, “nojento”. Não há muitos degraus, tranquiliza Hugo, mentiroso, porque havia, muitos, tantos… E o tempo limite é de 10 horas e o desnível é de 1900 metros positivos, pronto, aceito, já me atrevi a fazer pior (e cheguei já depois de a meta fechar, ora bem), mas isso foi sem degraus e sem precipícios e sem essa coisa de que ninguém me falou: a humidade. Horrível. Não há outra palavra.

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Umas lapas, umas ponchas, uma espetada, uma massa indescritível – deglutida no esconderijo em forma de balcão que é do pai de Hugo e olha a baía do Porto da Cruz e o seu calhau de cima – e algumas horas depois, batia a porta do apartamento que me calhou na rifa, 350 metros adiante da partida, noite escura, 5h30 da manhã de domingo, mochila carregada de barras e géis e todos esses víveres detestáveis que me fazem parecer, mais os bastões e as meias de compressão e saia calção, uma verdadeira atleta. E o frontal, nunca arrancara para uma corrida diurna de frontal, nem nunca imaginara que o dia só viria duas horas depois, já a mais de 800 metros de altitude, na solidão da cauda, ora aí está. Ouço a minha mente reconfortada pela escuridão. Não ver o que nos rodeia acelera-nos. Tenho que admitir. Não vemos à volta, nem a inclinação que se nos apresenta debaixo dos pés, nem as paisagens que nos fariam parar a perorar sobre a natureza e o mundo perfeito e literatura de pacotilha, esta que se nos escorre da mente durante uma corrida.

Claro que não vi Ester, nem Nuno, nem João, que veio ao Porto da Cruz dizer se o circuito nacional de Trail merece ter uma prova assim. Sim, ao contrário, é de propósito. Correr aqui é entrar num conto de fadas e o circuito da Associação de Trail Running de Portugal só terá a ganhar, tenho a certeza. Olha, degraus. E um nevoeiro tão denso que a luz torna os centímetros de visibilidade baços, tão denso que as árvores chovem, tão denso que dissimula as luzes da aurora, já lá em baixo. A esta hora Ester já vai longe. É certo. E com estas brincadeiras são 7h50 e acabou a primeira subida e estou a 8km do apartamento e a 900 metros de altitude e ainda não classifiquei nenhuma pedra de nojenta. Não tardaria. A levada do Castelejo transporta-me para recordações de Petra, na Jordânia cavalgada por Harrisson Ford, um canyon esguio, escuro, misterioso, que se abre logo sobre o plano do micro-trilho a serpentear junto à água da levada, correr à média luz é ter por companhia o som da água, que a selva ainda dorme. Ou não. Aos 10 km fez-se história: uma pedra inocente desempinou-me o nariz que foi um instante, pensavas que estava a ser tranquilo, treta, vai ali lamber bem o chão um bocadinho que te pões já na linha. Dito e feito, a coxa e o braço direitos num negrume só, chagas nas mãos, sangue fresco, só faltam os vampiros entre os pingos da chuva das árvores e até me parece que já ouço o sarcasmo dos elfos. Digam o que disserem, cair desmoraliza. E enjoa, também, principalmente quando o gps te diz que faltam 33 km.

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No abastecimento do Ribeiro Frio estendo as chagas a pedir desinfetante, a travar a lágrima no olho, a olhar de lado os três mosqueteiros que estão ali, em fila, a aguardar o fim. A aguardar-me. Carlos, Pedro e Rui, os vassouras e as marcações que foram levantando com toda a paz que lhes dei daí em diante. Porque aí entrámos literalmente nas nuvens enquanto escalava o monte a agarrar-me pela ponta dos dedos para não rasgar mais ainda as palmas das mãos, a maldizer os bastões que já não conseguia apertar. E a humidade. A humidade. O rosto era um chuveiro, as pisaduras arranhadas latejavam sob o sal do corpo a escorrer, com calma diz Rui, vai ao teu ritmo, fui, morrendo aos poucos até que se abriu o Chão das Feteiras e o cheiro a picadeiro e uma família a preparar um piquenique no nevoeiro, senhores, ainda não são dez de manhã, que diabo. Não imaginaria aquela Madeira. E logo o Poiso, altitude máxima da prova, a notícia de que os primeiros estão a 3 km da meta, risos, a mim sobram ainda 22, com subidas que são a brincar. O mal, agora, são as horas a descer. A laurissilva é um paraíso de fetos, um carrossel de feixes de sol a furar a bruma entre os ramos, uma oferta divina. Antes dos degraus com rebordo de tronco de faia que nos obrigam a dar um impulso de salto em cada passada, subir para melhor descer, os músculos adormecidos firmemente despertos, além de pisados. 28 km. Vibra-me o telefone na Portela. No ecrã aparece-me Ester Alves. Luxo. Como estás? Impecável. Praticamente. Pisada, dorida. Mas vais continuar? Prometo. Os três mosqueteiros olham-me. Estavas a falar com a Ester? Era. Ganhou! E eu sou a última e vamos escrever tudo isto, as duas. Era a paga, Ester. Eu vim à Madeira. Tu contas-nos como foi. (Atenção que isto vai acelerar…)

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Foto Martim Leitão

“Acordo uma hora antes da partida… Visto-me e aperto a mochila… pequenos rituais com pequenos pormenores que me fazem lembrar os preparativos dos romanos quando iam para a guerra….

Apresento-me na linha da frente e tento apertar a mão e cumprimentar quem me chama… 20 segundos antes da partida….

Faltam 10 segundos e consigo concentrar-me.

Partida

Saímos a uma velocidade estonteante. Circundamos o centro começamos a primeira subida com inclinações de 15-20%… Durante 15 kms de subida não há espaço para abrandar ou erros de “pé” :)

Ganhamos a nossa posição na subida, respiro fundo e ouço a respiração de quem corre ao meu lado…. alguém já vai muito ofegante mas vai ali colado…

… Passou… já não o ouço… acho que ficou para trás

8km de subida e agora vou eu muito ofegante e não me quero separar do ritmo de corrida…

Durante o escuro da madrugada, a luz do frontal é a nossa única companhia… de repente um planalto, uma levada e já há algum silêncio. Só ouço os meus pés e alguém que vem atrás…

A levada de água é difícil de correr… Uma dança esquisita de pés…

Vou numa valsa corrida entre as pedras e a água que corre na levada: “frontal, não me falhes”

E o sol amanhece,… Lamaceiros, Funduras… Entre o nevoeiro, o piso cheio de folhas, o fresco da floresta laurisilva…

Dá-me prazer acelerar ali, correr ainda mais rápido para que a água da vegetação se solte e me refresque… Me liberte daquele calor da ilha

“Força Ester”… ” boa sorte “… tão bom sentir o carinho de quem passa ou quem está nos trilhos em apoio… amo-vos

Descemos, a terra fofa amortece os pés… parece um trampolim… Não me digam para ter cuidado. Apetece voar mais rápido.

É difícil digerir as paisagens… mesmo encobertas, são visões estonteantes de serra e mar… pequenas casas lá ao fundo e nós continuamos a ser os senhores CÁ do alto da montanha…

Mais um abastecimento, mais uma palavra amiga, mais um pedaço de chocolate e um gole de Brisa…

Desço agora para Porto da Cruz. Faltam 5 km e já vou descontraída a beber as paisagens e a cumprimentar quem me aparece no caminho…

Olha o Nuno e o Leonardo que decidiram treinar no final da prova… vieram para trás… Bom ver-vos :)

Aproximo-me do centro de Porto da cruz e a multidão inunda as ruas, o centro, a chegada…

Único…

Estamos em Portugal?

Tanta gente…

Cheguei… Adorei… Soltei um: “Parabéns Hugo”… “Adorei”

“Parabéns a ti Ester… “

Mas Hugo, eu não fiz nada… Tu sim fizeste magia e deste-nos estes trilhos de forma tão magistral…

Parabéns a ti, parabéns Porto da Cruz… Parabéns Madeira”

Degraus. E levadas e degraus. E a vereda do Larano, aberta para nós, resgatada da selva onde fora esquecida vai para 20 anos, o mar lá em baixo, as vertigens e os dedos a controlar nas curvas, firmemente a tocar nas pedras. E degraus, já somos amigos, afinal. E o milagre: a 3 km da meta, o derradeiro posto de controlo tem, tcharam! bananas!!!! Não houve uma que sobrasse para a última até ali. Já desesperava. Estar na Madeira e não ter bananas? Ao fundo, lá longe, um vulto. É o penúltimo. Uma lesão travou-lhe o bom andamento. Anda daí, vá, é 1km, anda, a trote, vá. Fomos. Não fui a última e estraguei a crónica.

Ivete Carneiro e Ester Alves

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