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Óbidos em silêncio por João Marinho

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Emoções cruzadas, trocadas e adulteradas pela notícia da confirmação que todos esperávamos, mas que nenhum de nós queria ouvir. A paixão, sentimento muito para além do gosto, do amor, do prazer do lazer, que roça muitas vezes o inconsciente, que nos tolda sempre a razão, tinha levado o João a mais uma montanha. Mais uma, a somar a tantas que já tinha percorrido, escalado e fotografado. Foi sozinho. Ninguém sabe porquê. Eu desconfio que sei. As paixões não se partilham, vivem-se, sugam-se e sugam-nos até ao limite do respirável, muito para além do razoável. Se assim não for, não é paixão. Nós, os também apaixonados pela natureza e pelo trail, não nos esqueceremos do sorriso que ficou nos Picos da Europa. A organização da prova também não o esqueceu e Óbidos, por um minuto, ficou em silêncio. Todos sabíamos quem era o João e ele fazia e fará sempre parte desta enorme comunidade.

Dia marcado pelo infortúnio, todos queríamos rapidamente correr trilhos fora, ouvir a natureza, sentirmos a brisa do ocaso a tocar-nos a face, e que as pernas nos levassem os pensamentos para o conforto do sorriso de quem corre.

Óbidos, oferecida (entre muitas outras) por D. Dinis, como prenda de casamento à sua esposa Isabel – a Rainha Santa – foi durante séculos pertença da Casa das Rainhas. Talvez por isso permaneça com uma aura de castelo encantado, que a Feira Medieval, realizada nesta altura, acentua. As dezenas de figurantes trajados a rigor que vagueiam pelo interior das muralhas, transportam-nos para tempos idos, em que todo o reboliço medieval fazia fervilhar a vila.

Isabel de Aragão casou com D. Dinis, por procuração, aos 12 anos. Imagino que não fosse a mais feliz e realizada das mulheres, mas possuía riqueza que decidiu ir distribuindo pelos pobres. Reza a lenda que ao sair do Castelo com pão no regaço para dar aos mais necessitados foi interpelada pelo Rei, que questionou o que levava consigo.  Respondeu com um pouco convincente (por não as haver em Janeiro) “são rosas, senhor. São rosas.” O rei exigiu ver o que escondia. O pão transformou-se então em rosas e a Rainha foi mais tarde beatificada, santificada e adoptada pelos portugueses como a Rainha Santa.

Talvez inspirados no milagre das rosas, os mentores desta prova – Jorge Serrazina e Luís Nunes – deram-nos um percurso modificado, onde o pão são os largos quilómetros de estradões, e as rosas saem do regaço das arribas e do belíssimo percurso à volta da Lagoa. Esta prova, em condições normais, feita de dia seria entediante para quem gosta mais de subir e descer montanhas do que de correr durante largos períodos. Mas como é uma prova noturna, com a particularidade de, este ano, ter coincidido com noite de lua cheia e uma incursão a ocidente, embalou-nos com o som do mar e embriagou-nos com o sobe e desce das dunas, ingredientes que a transformam numa atraente festa de corrida na natureza, abrigados pela calma da madrugada.

Prova adequada para os que se querem estrear em corridas “fora da estrada”, ou que queiram experimentar uma distância mais longa, é uma excelente propaganda da região e do trail. Para os que se preparam para o Ultra Trail do Mont Blanc, ou para quem inicia o período de menor fulgor competitivo, é já marco no calendário.

Nesta sétima edição, vencida por um supersónico Helder Ferreira, os Trilhos Noturnos Lagoa de Óbidos, conquistaram seguramente mais alguns adeptos. Quem já veio repete, quem não veio vai querer vir. A Porta da Vila já é pequena para tanta gente e mesmo os trilhos, outrora partilhados por todos no percurso inicial, tiveram de ser separados, dando à partida uma espetacular singularidade de fuga dos invasores por ruelas e calçadas, em todas as direções.

Foi uma festa do trail marcada pela tristeza da confirmação do “até sempre” do João Marinho. Um “até sempre”, porque sempre que formos para uma montanha nos lembraremos dele, do seu rasgado sorriso e da sua constante alegria.

Sejamos felizes como ele foi, e temerosos com a montanha como ele não era. Às vezes é preciso coragem para virar costas à tentação da paixão, não por nós, mas pelos que sofrem por nós.

Rui Pinho

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