25 ultras querem companhia para correr 100 milhas

A proposta é tentadora: correr com 25 ultramaratonistas habituados a distâncias de respeito e, se for caso de se ter pernas para isso, ousar cumprir em quilómetros aquilo que parte deles já conseguiu e que outros vão tentar, no final deste mês.

É isso mesmo, 168 km, a lonjura do Ultra Trail do Monte Branco (UTMB), mas sem o infinito dos picos alpinos. Será mesmo no Parque da Cidade do Porto, este sábado, a partir das seis da manhã e até ás 21 horas
A ideia da Prozis, marca de suplementação e retalhista de marcas desportivas que patrocina alguns dos atletas convidados, é trazer o Monte Branco e as suas histórias aos trilhos urbanos. Sem medos, que ninguém vai correr 168 km, na verdade. Para dar oportunidade a quem queira de conviver com a nata dos ultracorredores portugueses, a iniciativa faz-se por etapas de duas horas, ao cabo das quais o GPS que registará o feito é passado de uma equipa para outra. Inicialmente prevista para arrancar às sete da manhã e durar 14 horas, a corrida foi antecipada com uma “hora zero”, para promover o Reccua Douro Ultra Trail, a prova criada em 2014 pelo falecido atleta João Marinho. Nessa hora zero correm Pedro Marinho, irmão de João, Nuno Seabra e João Moreira, do Grupo Operacional de Busca e Salvamento (GOBS) que ajudou nas buscas do jovem montanhista desaparecido em novembro nos Picos da Europa e encontrado no passado fim de semana.

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Lucinda Sousa no Gerês

“Trata-se de trazer um bocadinho da nossa experiência à cidade”, explica-nos Lucinda Sousa, a portuguesa melhor classificada no Campeonato Mundial de Trail, que concluiu em 30º lugar com duas fraturas no joelho “ganhas” 60 metros depois da partida. Lucinda está precisamente a regressar à atividade para se estrear no UTMB. Acabadinha de chegar de um treino nos Alpes (cobriu em quatro dias o percurso da prova rainha do trail), é a que tem os trilhos mais frescos na alma para poder contá-los a quem a quiser acompanhar no Parque da Cidade. Ou poderá ainda contar como subiu ao pódio do escalão na Transgrancanária, como já ganhou o Madeira Island Ultra Trail, como se vive com dois filhos, um emprego muito absorvente, treinos duros e um cão maravilhoso, o Strauss. Corre das 17 às 19 horas, segundo o alinhamento do Free Run, mas admite arrancar logo às sete com Pedro Conde (La Diagonale des Fous e, recentemente, o Eiger Ultra trail), Carlos Natividade (e que histórias conta Carlos das alucinações que o ajudaram a passar a noite no Monte Branco…), Cláudio Quelhas e Nélson Sousa.

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João Colaço no Tor des Géants

Seguem-se, duas horas depois, Luís Duarte, Sérgio Moreira (o ultradiabético que é “uma máquina”), Manuel Quelhas e Fernando Ferreira. Até que entra João Colaço, o português com mais quilómetros corridos numa prova de uma só etapa: os 431 km da Spine Race. Correr com João Colaço é perguntar-lhe como é isso possível e ouvi-lo responder, provavelmente, que o Tor des Géants, em Itália, é bem mais curto e bem mais duro e está bem lá no alto das emoções do ultracorredor marinhense. Terminou os 330 km da mais prova de 2014 em 13º, quando nem ele esperava tanto. Poderá explicar como se corre no Deserto do Sara e confessar que areia não é a praia dele, ou contar a beleza dos Dolomitas, a paixão pela Madeira e a lama do UTAX, na Lousã. E poderá, ainda, explicar o porquê de o Monte Branco ser comparado aos Jogos Olímpicos: naquela semana, Chamonix só vive trail. Ponto. Porque está lá toda a gente, há magia e mediatismo. E é, além disso, a única prova que cria o bichinho ao associar-se a provas por esse mundo fora que oferecem pontos para participar. Porque ali só se participa com pontos acumulados nas pernas. Apesar de ali, garante João, as 100 milhas serem bem mais fáceis do que nos Pirinéus, por exemplo. Que, btw, João vai tentar atravessar integralmente dentro de um ano (895 km com prazo máximo de duas semanas e gestão autónoma… chapéu!).

Com João Colaço correm o solidário e impagável José Capela (tem histórias de caminhos de Santiago em solidário perfeitamente delirantes), Júlia Conceição e Ivo Morais. Depois deles arrancam Rui Pinho (o ultrarepórter do JN Running), Romeu Gouveia e Ricardo Bomtempo, que passarão o testemunho a Flor Madureira (a mulher por detrás do homem por detrás da Freita, a avó mais jovem do trail, a campeã), Miguel Baptista e Miguel Catarino (mais todos os segredos que se escondem debaixo de cada uma das mariolas da Estrela). Lucinda correrá com José Alcobia e Paulo César, concluindo-se as milhas com André Rodrigues, Telmo Veloso e Susana Simões (o casal mais rápido de Portugal).

O Free Run só termina quando o GPS marcar 100 milhas. Que é como quem diz, 42 voltas ao Parque da Cidade. Mais as da hora zero de homenagem a João Marinho.

Ivete Carneiro

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